# As linhas críticas da literatura de David Foster Wallace
#literatura #pos-postmodernismo #david-foster-wallace #infinite-jest #nova-sinceridade

*David Foster Wallace, 2006. Fotografia de [Steve Rhodes](https://commons.wikimedia.org/wiki/File:David_Foster_Wallace_in_2006.jpg), CC BY 2.0.*
## I - O LUGAR DE WALLACE NA LITERATURA CONTEMPORÂNEA
A obra de [[David Foster Wallace]] (1962-2008) constitui um dos vértices mais densamente comentados da ficção norte-americana das últimas décadas, ocupando um lugar paradoxal no cânone: simultaneamente herdeira da tradição metaficcional pós-moderna - Pynchon, Barth, DeLillo - e seu principal contestatário interno. Esta posição ambivalente, a um tempo de continuidade formal e de rutura ética, é o nó górdio em redor do qual se organizam as principais leituras críticas da sua produção, com particular incidência no romance [[infinite-jest|*Infinite Jest*]] (1996), obra que a revista *Time* incluiria entre as cem melhores em língua inglesa publicadas entre 1923 e 2005.
A elevada complexidade formal da escrita wallaceana - densa, recursiva, marcada pelo uso intensivo de notas finais, parêntesis e digressões - não pode dissociar-se de uma profunda preocupação ontológica e moral, que faz da sua ficção um exercício filosófico tanto quanto estético. Como observa Stephen J. Burn em *David Foster Wallace's Infinite Jest: A Reader's Guide*, a obra resiste à clausura interpretativa, exigindo uma «estética em camadas» que recusa as leituras redutoras centradas exclusivamente na ironia ou no pós-modernismo.
## II - A CRÍTICA DA IRONIA E A "NOVA SINCERIDADE"
Talvez a mais importante linha crítica da obra wallaceana seja a que se constitui em torno do ensaio [[e-unibus-pluram|"E Unibus Pluram: Television and U.S. Fiction"]] (1993), texto seminal em que Wallace diagnostica a hegemonia da ironia metaficcional como sintoma de uma cultura televisiva que neutralizara as suas próprias capacidades subversivas. A ironia, instrumento original de crítica social na ficção pós-moderna de John Barth ou Donald Barthelme, ter-se-ia convertido - pela sua absorção pela cultura de massas - em humor cínico e passivo, incapaz de propor algo positivo no lugar daquilo que desconstrói.

*A televisão como objeto central da crítica cultural de Wallace.*
A resposta proposta por Wallace - e que a crítica académica viria a designar como [[nova-sinceridade|Nova Sinceridade]] (*New Sincerity*) - antecipa a emergência de «anti-rebeldes» dispostos a tratar com reverência as «velhas e nada modernas dificuldades e emoções humanas». É nesta linha que Adam Kelly, no influente ensaio "David Foster Wallace and the New Sincerity in American Fiction" (2010), inscreve Wallace no centro de uma viragem de paradigma, do pós-modernismo para o [[pos-postmodernismo|pós-pós-modernismo]], em que a recuperação de ideais tendencialmente românticos surge como antídoto ao solipsismo do relativismo pós-moderno.
> Os próximos verdadeiros «rebeldes» literários neste país poderão emergir como um estranho grupo de «anti-rebeldes», observadores natos com a coragem infantil de subscrever valores de sentido único, que tratam com reverência e convicção as velhas e nada modernas dificuldades humanas (Wallace, "E Unibus Pluram", 1993).
A interpretação canónica de [[infinite-jest|*Infinite Jest*]] como tentativa simultânea de manifestar e dramatizar este novo estilo ficcional decorre desta leitura: o romance seria, nesta perspetiva, um antídoto à cultura do entretenimento e ao cinismo estético que dela se alimenta.
## III - A PROBLEMÁTICA DA ADIÇÃO COMO METÁFORA CIVILIZACIONAL
Uma segunda linha crítica, particularmente fértil, organiza-se em torno do tema da [[adicao-em-infinite-jest|adição]] como metáfora central da condição contemporânea. *Infinite Jest* coloca em diálogo dois núcleos narrativos - a Enfield Tennis Academy e a Ennet House Drug and Alcohol Recovery House - cujo paralelismo estrutural sugere que o vício não se reduz às substâncias químicas: estende-se ao entretenimento, ao desempenho desportivo, à beleza, à própria ironia. O cartucho fílmico que dá título ao romance - entretenimento tão absorvente que conduz à morte por inanição perante o ecrã - funciona como [[entretenimento-letal|alegoria da morte por prazer]], imagem hiperbólica de uma cultura que confunde liberdade com gratificação imediata.
A leitura crítica desta dimensão é convergente entre comentadores tão diversos como Marshall Boswell, Stephen Burn ou D.T. Max: o romance seria menos uma história sobre toxicodependência do que uma meditação sobre as estruturas de desejo na sociedade tardo-capitalista. Esta linha cruza-se de forma produtiva com leituras inspiradas em Lacan, em David Foster Wallace e a tradição filosófica norte-americana, e em estudos sobre a [[anhedonia-wallace|anhedonia]] (anedonia) como categoria existencial.
## IV - A FORMA ENCICLOPÉDICA E O PROJETO MAXIMALISTA
A terceira linha crítica concentra-se na forma. Com 1079 páginas e 388 notas finais - algumas das quais com as suas próprias subnotas - *Infinite Jest* inscreve-se na linhagem do [[romance-enciclopedico|romance enciclopédico]] norte-americano que Edward Mendelson identifica em *Moby-Dick*, *Gravity's Rainbow* ou *Underworld*. A análise de Stefano Ercolino, em *The Maximalist Novel* (2014), situa Wallace ao lado de Pynchon, DeLillo e Bolaño nesta categoria estética caracterizada pela extensão, complexidade dissonante, abundância narrativa e densidade ensaística.
O recurso às [[notas-finais-infinite-jest|notas finais]] não é, contudo, mero gesto formalista herdado de Nabokov ou de Borges: serve, na obra de Wallace, simultaneamente para fragmentar a leitura linear - obrigando o leitor a uma postura ativa, quase performativa - e para mimetizar a própria estrutura cognitiva da hiperinformação contemporânea. A forma é, neste sentido, conteúdo: a dificuldade de leitura é a [[forma-como-etica|condição ética]] da leitura.
## V - A INTERIORIDADE E O RETRATO DA DEPRESSÃO
Uma quarta linha crítica, profundamente influenciada pela biografia de D.T. Max, *Every Love Story is a Ghost Story* (2012), examina a obra de Wallace à luz da sua [[depressao-em-wallace|experiência prolongada com a depressão clínica]]. O retrato visceral da «coisa má» (*the Bad Thing*) - primeiro esboçado no conto "The Planet Trillaphon as It Stands in Relation to the Bad Thing" (1984) - reaparece, com variações, em "The Depressed Person" (1998), em diversos passos de *Infinite Jest*, e culmina no romance inacabado [[the-pale-king|*The Pale King*]] (2011).
Esta dimensão suscita debate crítico relevante: as leituras psicobiográficas correm o risco de reduzir a obra à patologia do autor, escamoteando a sua dimensão filosófica e literária autónoma. Inversamente, ignorar a centralidade da depressão na arquitetura temática wallaceana implicaria perder de vista uma das suas mais singulares contribuições - a representação rigorosa de estados mentais habitualmente refratários à linguagem.
## VI - ÉTICA, ATENÇÃO E COMUNIDADE
A quinta grande linha crítica, especialmente desenvolvida após a publicação póstuma do discurso [[this-is-water|*This Is Water*]] (Kenyon College, 2005), interpreta a obra wallaceana como um projeto ético centrado na atenção, na empatia e na escolha consciente daquilo a que se dá importância. Robert K. Bolger e Scott Korb, em *Gesturing Toward Reality: David Foster Wallace and Philosophy* (2014), argumentam que o discurso de Kenyon possui um caráter quase teológico, tornando explícita uma filosofia espiritual que percorre, em filigrana, toda a ficção do autor.
Esta leitura ética enquadra-se numa tradição que vincula Wallace a Søren Kierkegaard, a [[wittgenstein-e-wallace|Ludwig Wittgenstein]] - cujas *Investigações Filosóficas* exerceram influência decisiva, particularmente através do conceito de jogo de linguagem - e ao [[transcendentalismo-americano|transcendentalismo americano]] de Emerson e Thoreau. A ideia de que a literatura deve ser uma forma de combate contra a solidão constitutiva do ser humano - formulada por Wallace numa célebre entrevista a [[entrevista-mccaffery|Larry McCaffery]] em 1993 - funciona como horizonte regulador desta linha interpretativa.
## VII - RECEÇÃO CRÍTICA DIVERGENTE
Nem toda a receção crítica de Wallace é convergente. A *Publishers Weekly* assinalou, na altura do lançamento de *Infinite Jest*, aquilo a que chamaria a incapacidade do romance para encontrar uma forma adequada ao seu material. James Wood, na sua influente crítica ao [[realismo-histerico|realismo histérico]], inclui Wallace no rol de autores cujo virtuosismo formal sufocaria a representação da consciência. Mais recentemente, leituras pós-2018, na sequência das revelações de Mary Karr sobre o comportamento abusivo do escritor, vieram complicar a hagiografia que se construíra em torno da figura, suscitando debate sobre os limites da separação entre obra e autor.
A própria categoria de [[nova-sinceridade|Nova Sinceridade]] tem sido contestada como rótulo demasiado redutor, incapaz de dar conta da complexidade das estratégias retóricas wallaceanas - que, como observa Adam Kelly, mobilizam ironicamente a própria ironia para a superar, gesto que dificilmente se enquadra numa simples oposição binária entre cinismo e autenticidade.
## VIII - LEGADO E INFLUÊNCIA
A influência de Wallace sobre a literatura contemporânea, particularmente anglófona, é considerável. Autores como Jonathan Franzen, Dave Eggers, George Saunders, Zadie Smith, Rivka Galchen, John Green ou Charles Yu reconhecem-no como referência incontornável. A Universidade de Loyola em Nova Orleães oferece, desde 2011, seminários dedicados à sua obra, tendo Harvard seguido o exemplo. A primeira *David Foster Wallace Conference* realizou-se em 2014 na Illinois State University, e em 2017 foram fundadas a *International David Foster Wallace Society* e o *Journal of David Foster Wallace Studies*.
O arquivo pessoal do escritor - incluindo manuscritos de [[infinite-jest|*Infinite Jest*]], a sua biblioteca anotada e materiais relativos a [[the-pale-king|*The Pale King*]] - encontra-se desde 2010 no [Harry Ransom Center](https://www.hrc.utexas.edu/) da Universidade do Texas em Austin, constituindo recurso fundamental para a investigação crítica em curso.
## IX - UMA OBRA EM ABERTO
Aquilo que torna a obra de Wallace particularmente resistente ao esgotamento crítico é, paradoxalmente, a mesma qualidade que tornou difícil a sua receção inicial: a sua hibridez, a sua recusa de classificação cómoda. Romance e ensaio, ficção e filosofia, ironia e sinceridade, vanguarda formal e moralismo declarado - todas estas tensões coexistem na sua escrita sem resolução dialética, exigindo do leitor uma disposição que o próprio Wallace, no discurso de Kenyon, designaria por «atenção». É este o seu legado mais duradouro: a sugestão, formal e tematicamente reiterada, de que ler com atenção pode ainda ser, no nosso tempo, uma forma de viver melhor.
## BIBLIOGRAFIA
Bolger, R. K. & Korb, S. (eds.) (2014). *Gesturing Toward Reality: David Foster Wallace and Philosophy*. New York: Bloomsbury.
Boswell, M. (2003). *Understanding David Foster Wallace*. Columbia: University of South Carolina Press.
Burn, S. J. (2012). *David Foster Wallace's Infinite Jest: A Reader's Guide* (2.ª ed.). London: Continuum.
Ercolino, S. (2014). *The Maximalist Novel: From Thomas Pynchon's Gravity's Rainbow to Roberto Bolaño's 2666*. New York: Bloomsbury.
Kelly, A. (2010). David Foster Wallace and the New Sincerity in American Fiction. In D. Hering (ed.), *Consider David Foster Wallace: Critical Essays* (pp. 131-146). Los Angeles: Sideshow Media Group Press.
Max, D. T. (2012). *Every Love Story is a Ghost Story: A Life of David Foster Wallace*. New York: Viking.
Wallace, D. F. (1993). E Unibus Pluram: Television and U.S. Fiction. *Review of Contemporary Fiction*, 13(2), 151-194.
Wallace, D. F. (1996). *Infinite Jest*. Boston: Little, Brown.
Wallace, D. F. (2009). *This Is Water: Some Thoughts, Delivered on a Significant Occasion, about Living a Compassionate Life*. New York: Little, Brown.
Wallace, D. F. (2011). *The Pale King*. New York: Little, Brown.
Wood, J. (2000). Human, All Too Inhuman. *The New Republic*, 24 de julho.