# Epistemologia > *οἶδα οὐδὲν εἰδώς* > *- **Sei que nada sei**.* > - Sócrates, segundo Platão, *Apologia* ![A Escola de Atenas, fresco de Rafael, Stanze Vaticane](https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/4/49/%22The_School_of_Athens%22_by_Raffaello_Sanzio_da_Urbino.jpg/1920px-%22The_School_of_Athens%22_by_Raffaello_Sanzio_da_Urbino.jpg?utm_source=commons.wikimedia.org&utm_campaign=index&utm_content=thumbnail&_=20130413151211) <sub>***A Escola de Atenas***, fresco de Rafael (1509-1511), Palácio Apostólico do Vaticano. No centro, **Platão** (com o *Timeu*, apontando para cima) e **Aristóteles** (com a *Ética*, apontando para baixo): dois gestos, duas epistemologias, duas relações entre o saber e o real. Imagem do Wikimedia Commons, domínio público.*</sub> --- ## Apresentação A **epistemologia** é o ramo da filosofia que estuda o **conhecimento** - a sua natureza, as suas fontes, os seus limites, os seus critérios de legitimidade. Partilha com a [[Ontologia]] a antiguidade venerável e a recorrente atualidade: as duas disciplinas, gémeas inseparáveis, organizam, desde os pré-socráticos, o trabalho da filosofia em torno de duas perguntas decisivas - *o que existe?* e *o que podemos saber?* -, perguntas cuja articulação constitui, em grande medida, o próprio objeto da reflexão filosófica. A palavra *epistemologia* combina dois termos gregos: *ἐπιστήμη* (*epistēmē*), que designa o conhecimento autêntico, científico, certo e fundamentado, distinto da mera opinião (*δόξα*, *doxa*); e *λόγος*, "discurso", "estudo", "ciência". Literalmente, pois: *discurso sobre o conhecimento*. O termo só foi cunhado, contudo, no século XIX, por James Frederick Ferrier, no seu *Institutes of Metaphysic* (1854) - milénios depois de Platão e Aristóteles terem inaugurado, sem o nome, a disciplina. Convém notar uma diferença terminológica importante: no espaço germânico e francófono, o termo **epistemologia** é por vezes restringido à *filosofia das ciências* (*Wissenschaftstheorie*, *épistémologie*), enquanto a investigação geral sobre o conhecimento é designada por *teoria do conhecimento* (*Erkenntnistheorie*, *théorie de la connaissance*) ou *gnoseologia*. No espaço anglófono e - cada vez mais - no luso-brasileiro, *epistemologia* é tomada no sentido amplo: estudo geral do conhecimento, do qual a filosofia da ciência é uma parte. É este o sentido que aqui será adotado. As perguntas centrais da epistemologia são, na sua aparente simplicidade, das mais difíceis que a filosofia formula: - **O que é saber?** - Quando dizemos que alguém *sabe* algo, o que dizemos exatamente? - **Como sabemos?** - Que faculdades, processos ou métodos nos dão acesso ao verdadeiro? - **Podemos saber?** - Há limites intrínsecos ao conhecimento humano? Há domínios em que ele é impossível? - **Como distinguir saber de opinião?** - Que diferença separa a crença bem-sucedida da mera sorte? Cada uma destas perguntas abriu, na história da filosofia, capítulos inteiros - e cada uma continua hoje em discussão ativa. --- ## A divisa socrática e a invenção da epistemologia A epistemologia, enquanto disciplina, **nasce com Sócrates** - não como discurso técnico, mas como atitude filosófica. A célebre fórmula que a posteridade lhe atribui - *sei que nada sei* - não é, em rigor, uma confissão de ignorância: é uma **afirmação epistemológica metódica**, segundo a qual o primeiro passo do saber autêntico consiste em reconhecer os limites do nosso conhecimento aparente, desfazendo a falsa segurança da opinião irrefletida. O método socrático - a *maiêutica*, a "arte de fazer parir" - propõe-se tornar visível essa ignorância através da pergunta sucessiva, conduzindo o interlocutor da opinião confiante para a aporia confessada, e dela, eventualmente, para uma compreensão mais autêntica. É a primeira *prática* epistemológica deliberada da história ocidental. [Platão](https://pt.wikipedia.org/wiki/Plat%C3%A3o), discípulo de Sócrates, transformará esta atitude em **teoria sistemática**. No diálogo *Teeteto*, formula pela primeira vez aquela que ficaria como **definição clássica do conhecimento**: o conhecimento é *crença verdadeira justificada* (*doxa alēthēs meta logou*) - definição que dominaria praticamente toda a tradição epistemológica ocidental durante mais de dois milénios, até ser dramaticamente abalada em 1963. --- ## A definição clássica: crença verdadeira justificada A formulação canónica da definição clássica de conhecimento, no léxico contemporâneo, é a seguinte: ***S sabe que p se e só se***: 1. **p é verdadeiro** (condição da verdade); 2. **S acredita que p** (condição da crença); 3. **S está justificado em acreditar que p** (condição da justificação). Esta tripartição - verdade + crença + justificação - recebeu o nome técnico de ***JTB account*** (*justified true belief*) e foi tomada como evidente durante séculos. As três condições parecem necessárias e, conjuntamente, suficientes para o conhecimento. Cada uma é exigida por razões intuitivamente fortes: - **Verdade**, porque *saber algo falso* é uma contradição: posso *acreditar* erradamente, mas não posso *saber* erradamente. - **Crença**, porque *saber sem acreditar* é igualmente incoerente: o que sei, sei-o por força de uma adesão minha à proposição. - **Justificação**, porque uma crença verdadeira *por sorte* não conta como conhecimento: se acerto na resposta de uma adivinha sem ter razões para acertar, não posso dizer que *sabia*. Esta arquitetura tripartida sobreviveu, com variações, de Platão a Russell. Foi precisamente quando todos a julgavam definitiva que, num artigo de duas páginas e meia, **Edmund Gettier a fez ruir**. --- ## O abalo de Gettier (1963) Em junho de 1963, na revista *Analysis*, o filósofo americano [Edmund Gettier](https://en.wikipedia.org/wiki/Edmund_Gettier) publica um artigo de três páginas intitulado *Is Justified True Belief Knowledge?* (*É a crença verdadeira justificada conhecimento?*). O texto, **provavelmente o mais influente artigo da filosofia analítica do século XX em termos de impacto por página**, apresenta dois contraexemplos que, em poucos parágrafos, mostram que as três condições clássicas podem estar todas satisfeitas sem que haja conhecimento. ### Os contraexemplos A estrutura do argumento é elegante. Imagine-se que Smith tem boas razões - *justificação* - para acreditar numa proposição falsa *F*. A partir de *F*, deduz logicamente uma proposição *Q*. Por casualidade, *Q* é verdadeira - mas não pelas razões que Smith pensa. Smith tem, então, uma crença em *Q* que é simultaneamente: - **verdadeira** (*Q* é, de facto, verdadeira); - **acreditada** por Smith; - **justificada** (deduzida validamente de *F*, em que Smith tinha razões para acreditar). E, contudo, **ninguém diria que Smith *sabe* que *Q***. A sua crença é verdadeira por acidente, por sorte: a justificação que tem para *Q* não tem qualquer ligação genuína com a verdade de *Q*. ### O caso paradigmático do relógio parado Uma versão clássica e particularmente intuitiva do tipo de situação foi proposta, antes de Gettier, por Bertrand Russell em 1948: imagine-se alguém que olha para um relógio que crê estar a funcionar. O relógio marca duas horas. Acontece que são, efetivamente, duas horas - mas o relógio parou doze horas antes. A pessoa tem uma **crença verdadeira** (são duas horas), **acreditada** (ela acredita-o), **justificada** (olhou para um relógio que tinha boas razões para crer fiável). E, contudo, parece evidente que **não *sabe* que são duas horas**: a sua crença coincide com a verdade por mera sorte. ### A onda de choque O artigo de Gettier desencadeou uma das mais intensas tempestades da epistemologia contemporânea. *Em três páginas, refutou um consenso de dois mil anos.* Toda a literatura epistemológica que se seguiu - durante mais de meio século - pode ser lida como tentativa de **emendar a definição** clássica para imunizá-la contra os contraexemplos gettierianos: - **Adicionando uma quarta condição** que exija que a justificação esteja causalmente ligada à verdade da crença (Goldman, *causal theory*). - **Substituindo "justificação" por "fiabilidade"** do processo cognitivo (Goldman, *reliabilism*). - **Exigindo que a justificação não dependa de qualquer falsidade** (Lehrer-Paxson). - **Reformulando o problema em termos de *sensibilidade* contrafactual** da crença à verdade (Nozick, *tracking theory*). - **Recusando que o conhecimento seja *analisável* em condições mais simples** (Williamson, *knowledge first*). Cinquenta anos depois do artigo de Gettier, **não há consenso** sobre como evitar o problema, e alguns epistemólogos - Timothy Williamson em particular, com o programa *knowledge first* - sustentam que o conhecimento é uma noção *primitiva*, irredutível à crença e à justificação, e que toda a tentativa de defini-lo de modo mais simples está condenada ao fracasso. A lição de Gettier é, em todo o caso, profunda: **o conhecimento é mais do que verdade + crença + justificação**. Há, no conhecimento autêntico, uma ligação não-acidental entre a justificação e a verdade - ligação que continua a ser problema aberto. --- ## Conhecer-que e conhecer-como Uma distinção decisiva, tornada célebre por **Gilbert Ryle** em *The Concept of Mind* (1949), separa dois tipos fundamentais de conhecimento: - ***Knowledge-that*** (conhecimento proposicional, *saber que*) - saber que *Lisboa é a capital de Portugal*, que *2+2=4*, que *a água é H2O*. Tem como objeto uma proposição, e é avaliável em termos de verdade. - ***Knowledge-how*** (conhecimento prático, *saber como*) - saber andar de bicicleta, saber tocar piano, saber cozinhar uma cataplana. Tem como objeto uma capacidade, e é avaliável em termos de competência. A epistemologia tradicional concentrou-se quase exclusivamente no primeiro tipo. Ryle argumentou - contra o que chamou *o dogma intelectualista* - que o conhecimento prático é irredutível ao proposicional: saber andar de bicicleta não é ter uma teoria sobre como andar de bicicleta; é uma competência incarnada, que pode existir sem qualquer formulação proposicional explícita. A discussão entre **intelectualistas** (que defendem que todo o saber-como pode reduzir-se a saber-que: Stanley & Williamson, 2001) e **anti-intelectualistas** (Ryle, e contemporâneos como Stephen Hetherington) é um dos campos vivos da epistemologia atual. Existe ainda um terceiro tipo, o **conhecimento por familiaridade** (*knowledge by acquaintance*, distinguido por Russell): saber *quem é* alguém, saber *como sabe* algo (o sabor do limão, a cor do vermelho), por experiência direta - irredutível tanto ao proposicional quanto ao prático. --- ## As fontes do conhecimento: racionalismo, empirismo, e síntese A pergunta *como sabemos?* - sobre as **fontes** do conhecimento - divide a história da epistemologia moderna em duas grandes correntes, cuja oposição estruturou toda a filosofia dos séculos XVII e XVIII. ### Racionalismo Para os **racionalistas** - Descartes, Espinosa, Leibniz -, a fonte primária do conhecimento autêntico é a **razão**. A experiência sensível é confusa, enganadora, particular; só a razão, operando sobre ideias claras e distintas (Descartes), ou sobre os princípios primeiros do entendimento (Leibniz), pode atingir o conhecimento certo, universal e necessário. A matemática é o paradigma: o teorema de Pitágoras não se aprende observando triângulos; deduz-se. A célebre divisa cartesiana - *cogito, ergo sum* - é a tentativa de fundar todo o conhecimento numa primeira certeza obtida pela pura introspeção racional. ### Empirismo Para os **empiristas** - Locke, Berkeley, Hume -, ao invés, a fonte do conhecimento é a **experiência**. *Nihil est in intellectu quod prius non fuerit in sensu* - *nada há no intelecto que antes não tenha estado nos sentidos* -, divisa escolástica que Locke retoma. A mente nasce como *tabula rasa*, lousa em branco; tudo o que sabe, aprendeu-o através das impressões sensíveis. A matemática, para Hume, é apenas conhecimento das *relações de ideias*, sem real conteúdo informativo sobre o mundo; o conhecimento substantivo é todo ele empírico, e por isso falível. ### A síntese kantiana [[Kant]], em 1781, opera a síntese - com mudanças irreversíveis para a história da disciplina. A *Crítica da Razão Pura* sustenta que o conhecimento humano é **simultaneamente empírico e racional**: a experiência fornece a *matéria*, mas a razão fornece as *formas a priori* (espaço, tempo, categorias do entendimento) sem as quais essa matéria seria inintelegível. *Pensamentos sem conteúdo são vazios; intuições sem conceitos são cegas* - a divisa célebre condensa a tese. Kant distingue, por essa via, três tipos de juízos: - **Analíticos *a priori***: o predicado já está contido no sujeito (*os solteiros não são casados*); são tautológicos, mas certos. - **Sintéticos *a posteriori***: derivados da experiência (*há um livro sobre a mesa*); são informativos, mas falíveis. - **Sintéticos *a priori***: o caso decisivo - juízos *informativos* mas *necessários e universais* (*todo o evento tem uma causa*; os teoremas da matemática). É a possibilidade destes que Kant procura justificar, e nela faz repousar a possibilidade da ciência. A epistemologia kantiana inaugura toda a filosofia continental subsequente - e, em larga medida, define o programa da disciplina até hoje. --- ## Fundacionalismo, coerentismo, infinitismo: o problema da regressão Uma família de problemas, conhecida desde a antiguidade (já em Aristóteles, *Segundos Analíticos*) mas formalizada na modernidade, é o **problema da regressão epistémica**. Se toda a crença justificada deve apoiar-se noutras crenças justificadas, e estas noutras, e assim sucessivamente, não regredimos ao infinito? E se sim, como pode haver justificação alguma? As três respostas clássicas: ### Fundacionalismo Há **crenças básicas** (*foundational beliefs*) que são justificadas em si mesmas, sem necessitarem de outras crenças. Seriam estas o fundamento sobre o qual todo o restante edifício do conhecimento se ergue. Variantes do fundacionalismo distinguem-se pelo que consideram crença básica: para o **fundacionalismo cartesiano**, são as ideias claras e distintas; para o **empirismo lógico**, são os enunciados de observação; para certas formas de **fundacionalismo modesto** contemporâneo, são as crenças sobre os nossos próprios estados mentais imediatos. ### Coerentismo Não há crenças privilegiadas. Uma crença está justificada se se integra coerentemente com outras crenças num sistema mutuamente sustentado. A imagem é circular - uma rede em que cada nó se apoia nos outros - em vez de piramidal. Defendido por filósofos como Otto Neurath, Wilfrid Sellars, Donald Davidson e Keith Lehrer. ### Infinitismo Aceita a regressão como infinita, e nega que isso seja problema. Posição minoritária, hoje defendida por Peter Klein. Uma quarta posição - o **contextualismo epistémico** (David Lewis, Keith DeRose, Stewart Cohen) - sustenta que os critérios de justificação variam consoante o contexto: o que conta como justificação suficiente para *saber* numa conversa quotidiana é diferente do que se exigiria num laboratório científico ou num seminário de epistemologia. --- ## Epistemologia das virtudes Uma das renovações mais férteis da epistemologia das últimas décadas é a chamada ***virtue epistemology*** - epistemologia das virtudes. Inspirada na ética das virtudes aristotélica, e desenvolvida sobretudo a partir dos anos 1980 por **Ernest Sosa**, **Linda Zagzebski** e John Greco, esta abordagem desloca o foco da análise do conhecimento das *crenças* para os ***agentes cognitivos***. A intuição central: o conhecimento não é apenas uma propriedade lógica de uma crença, mas uma **realização** (*achievement*) de um agente cognitivo virtuoso. Saber é *conseguir a verdade através das próprias virtudes intelectuais* - atenção, honestidade, perseverança, abertura, prudência, rigor. Sosa formula esta intuição numa estrutura tripartida - a sua célebre **AAA** das virtudes intelectuais: - ***Accuracy*** (acuidade): a crença é verdadeira; - ***Adroitness*** (destreza): a crença é produzida por uma virtude intelectual do agente; - ***Aptness*** (aptidão): a crença é verdadeira *porque* é destra - ou seja, a verdade da crença é resultado da virtude, não acidente. Esta terceira condição responde ao problema de Gettier: nas situações gettierianas, a crença é *acurata* e *destra*, mas não *apta* - a verdade não decorre da destreza. A epistemologia das virtudes oferece, assim, uma solução elegante ao problema que assombrou meio século de epistemologia analítica. A virada virtuosa está hoje entre os programas mais ativos da disciplina, com extensões interessantes para a epistemologia social, a epistemologia feminista, e a filosofia da educação. --- ## Ceticismo Tema clássico desde a antiguidade - Pirro de Élis, a Academia média, Sexto Empírico -, o **ceticismo** atravessa toda a história da epistemologia como espectro recorrente. Não é uma posição: é uma família de posições que partilham a desconfiança quanto à possibilidade do conhecimento autêntico. As versões clássicas: - **Ceticismo global**: nada pode ser conhecido com certeza (Pirro). - **Ceticismo cartesiano** (não a posição de Descartes, mas o ceticismo *que ele constrói* metodicamente para depois refutar): é possível que tudo o que tomo por real seja sonho, ilusão, manipulação de um *génio maligno* - e nada na minha experiência permite distinguir o sonho da vigília. - **Ceticismo contemporâneo**: a hipótese do *cérebro num tanque* (Hilary Putnam, depois popularizada pelo filme *Matrix*) - sou eu, talvez, um cérebro num tanque, estimulado por elétrodos a alucinar uma realidade que não existe? Como poderia eu saber que não? O **argumento cético clássico** tem a forma: 1. Se eu *sei* que estou a ver uma mão, então sei que não sou um cérebro num tanque (porque um cérebro num tanque não tem mãos a ver). 2. Mas eu *não* sei que não sou um cérebro num tanque. 3. Logo, eu não sei que estou a ver uma mão. A força do argumento é incómoda. As tentativas de o desativar - pelo contextualismo, pelo externalismo, pela *closure* contextual, pelas teorias da *sensitivity* - ocupam parte considerável da epistemologia contemporânea. **G. E. Moore**, num gesto memorável (*Proof of an External World*, 1939), ergueu uma mão e declarou: *aqui está uma mão; aqui está outra; logo, há objetos exteriores*. A *prova mooreana* é, hoje, paradigma de uma estratégia anti-cética que recusa tomar a sério a hipótese cética por considerá-la menos certa do que as crenças que ela contesta. --- ## Epistemologia social, naturalizada e feminista Nas últimas décadas, a epistemologia alargou consideravelmente o seu escopo - para lá da análise individualista da crença particular -, num conjunto de novas correntes: ### Epistemologia social O conhecimento não é só atributo de mentes individuais isoladas: nasce em **comunidades**, transmite-se por **testemunho**, é validado em práticas **coletivas**. Como funciona o conhecimento por testemunho? Que confiança devemos depositar nos especialistas? Como se constitui o conhecimento partilhado de um grupo? Estas questões, abertas por C. A. J. Coady (*Testimony*, 1992) e desenvolvidas por Alvin Goldman (*Knowledge in a Social World*, 1999) e Miranda Fricker (*Epistemic Injustice*, 2007), constituem o programa da **epistemologia social**. Particularmente importante é o conceito de **injustiça epistémica**, devido a Fricker: a injustiça que sofre alguém quando o seu testemunho é desacreditado, ou as suas experiências silenciadas, em razão de preconceitos sociais (de género, raça, classe). Uma das contribuições mais influentes da filosofia das últimas décadas, com aplicações em direito, medicina, jornalismo e ciência. ### Epistemologia naturalizada Proposta por **W. V. O. Quine** num célebre artigo de 1969 (*Epistemology Naturalized*), defende que a epistemologia deve abandonar a sua pretensão tradicional de prescrever, *a priori*, condições para o conhecimento, e tornar-se um **capítulo da psicologia empírica**: o estudo de como, *de facto*, os organismos cognoscentes adquirem crenças sobre o mundo. A radicalidade da proposta quineana foi contestada e moderada por sucessivas versões - naturalismo metodológico, naturalismo *de re* -, mas a sua influência sobre a filosofia da ciência cognitiva é considerável. ### Epistemologia feminista Desenvolvida por filósofas como Sandra Harding, Helen Longino, Donna Haraway, Lorraine Code, examina criticamente os pressupostos das epistemologias tradicionais - sobretudo o ideal do *sujeito cognoscente abstrato e desincarnado* - e propõe uma reflexão sobre o **ponto de vista** (*standpoint*), sobre os efeitos do género, da raça, da posição social na produção do conhecimento. Não é, como por vezes mal-entendida, uma forma de relativismo: a maioria das epistemólogas feministas defende, ao contrário, que a atenção às condições sociais do conhecimento *aumenta*, não diminui, a sua objetividade. --- ## Epistemologia neste jardim digital A epistemologia entrelaça-se de modo essencial com toda a constelação filosófica deste jardim digital: - Em [[Markus Gabriel]] e na sua [[Ontologia dos Campos de Sentido]], a tese de que *apreendemos as coisas em si mesmas* - primeira tese cardinal do [[Novo Realismo]] - é uma posição **epistemológica** decisiva, contra o agnosticismo kantiano e contra o construtivismo pós-moderno. - No [[Realismo Especulativo]], o argumento do *arqui-fóssil* de Meillassoux é simultaneamente **ontológico** (sobre o que existiu antes do sujeito) e **epistemológico** (sobre o que pode ser conhecido, e em que sentido). - Em [[Hegel]] e [[Schelling]], a passagem do agnosticismo kantiano para um conhecimento do absoluto é o coração do programa idealista - e questão estritamente epistemológica. - Em [[Aristóteles]], a *epistēmē* é distinguida cuidadosamente de outras formas cognitivas (técnica, prudência, intuição, sabedoria) num quadro que continua a influenciar a epistemologia das virtudes contemporânea. Ontologia e epistemologia são, pois, **as duas faces complementares de qualquer programa filosófico sério**. Não há ontologia sem decisões epistemológicas (sobre como é possível saber o que existe); não há epistemologia sem decisões ontológicas (sobre o que existe que possa ser conhecido). Quando, num programa filosófico, as duas se separam, a separação é, ela mesma, uma tese filosófica - e, geralmente, uma tese arriscada. --- ## Recursos audiovisuais ### Vídeos e palestras - 🎥 **[Timothy Williamson - Knowledge First Epistemology](https://www.youtube.com/results?search_query=Timothy+Williamson+Knowledge+First)** - Conferências sobre a sua abordagem revolucionária da epistemologia. - 🎥 **[Ernest Sosa - Virtue Epistemology](https://www.youtube.com/results?search_query=Ernest+Sosa+virtue+epistemology)** - Apresentações da sua estrutura AAA. - 🎥 **[Miranda Fricker - Epistemic Injustice](https://www.youtube.com/results?search_query=Miranda+Fricker+epistemic+injustice)** - Conferências sobre o conceito que renovou a epistemologia social. - 🎥 **[Crash Course Philosophy - Epistemology](https://www.youtube.com/playlist?list=PL8dPuuaLjXtNgK6MZucdYldNkMybYIHKR)** - Sequência introdutória acessível, para começar. ### Textos online - 📄 **[Verbete *Epistemology* na Stanford Encyclopedia of Philosophy](https://plato.stanford.edu/entries/epistemology/)** - Síntese de referência por Matthias Steup. - 📄 **[Verbete *The Analysis of Knowledge* na Stanford Encyclopedia of Philosophy](https://plato.stanford.edu/entries/knowledge-analysis/)** - Análise detalhada do problema de Gettier. - 📄 **[Verbete *Gettier Problems* na Internet Encyclopedia of Philosophy](https://iep.utm.edu/gettier/)** - Excelente apresentação do problema central da epistemologia contemporânea. - 📄 **[Edmund Gettier - *Is Justified True Belief Knowledge?* (1963), texto integral em PDF](https://philpapers.org/rec/GETIJT-4)** - As três páginas que abalaram a disciplina. --- ## Bibliografia essencial ### Textos clássicos - Platão, *Teeteto*. Várias edições portuguesas. - [[Aristóteles]], *Segundos Analíticos*. Trad. Lucas Angioni, Editora UFMG. - René Descartes, *Meditações sobre a Filosofia Primeira* (1641). Várias edições. - John Locke, *Ensaio sobre o Entendimento Humano* (1689). Trad. portuguesa pela FCG. - David Hume, *Investigação sobre o Entendimento Humano* (1748). Trad. portuguesa pela Edições 70. - [[Kant]], *Crítica da Razão Pura* (1781). Trad. Manuela Pinto dos Santos e Alexandre Fradique Morujão, FCG. ### Textos fundadores da disciplina contemporânea - Bertrand Russell, *Os Problemas da Filosofia* (1912). Trad. Edições 70. - Edmund Gettier, *Is Justified True Belief Knowledge?* *Analysis* 23(6), 1963, pp. 121-123. - Gilbert Ryle, *The Concept of Mind* (1949). Trad. Mártires Lopes, Lisboa: Moraes Editores. - W. V. O. Quine, *Epistemology Naturalized* (1969). Em coletâneas. ### Contemporâneo: análise do conhecimento e suas alternativas - Alvin Goldman, *A Causal Theory of Knowing* (1967); *Epistemology and Cognition* (1986). - Robert Nozick, *Philosophical Explanations* (1981). - Timothy Williamson, *Knowledge and Its Limits*. Oxford UP, 2000. - Ernest Sosa, *A Virtue Epistemology*. Oxford UP, 2007. - Linda Zagzebski, *Virtues of the Mind*. Cambridge UP, 1996. ### Epistemologia social, feminista, da injustiça - C. A. J. Coady, *Testimony: A Philosophical Study*. Oxford UP, 1992. - Alvin Goldman, *Knowledge in a Social World*. Oxford UP, 1999. - Miranda Fricker, *Epistemic Injustice: Power and the Ethics of Knowing*. Oxford UP, 2007. - Lorraine Code, *What Can She Know? Feminist Theory and the Construction of Knowledge*. Cornell UP, 1991. ### Em português, manuais e introduções - Pedro Galvão (org.), *Filosofia: Uma Introdução por Disciplinas*. Edições 70, 2012. (Capítulo sobre epistemologia.) - Desidério Murcho, *O Lugar da Lógica na Filosofia*. Plátano Editora. - João Branquinho et al. (eds.), *Enciclopédia de Termos Lógico-Filosóficos*. Martins Fontes. --- ## Hiperligações internas neste jardim - [[Ontologia]] - [[Markus Gabriel]] - [[Ontologia dos Campos de Sentido]] - [[Novo Realismo]] - [[Realismo Especulativo]] - [[Pluralismo Ontológico]] - [[Hegel]] - [[Schelling]] - [[Kant]] - [[Aristóteles]] - [[Filosofia Continental]] - [[Filosofia Analítica]] - [[Ceticismo]] - [[Problema de Gettier]] - [[Epistemologia das Virtudes]] --- ## Notas finais Há perguntas que se reconhecem como filosóficas pelo facto de, formuladas, parecerem ao mesmo tempo absurdas e inevitáveis. *O que é saber?* é uma destas. Toda a vida quotidiana se erige sobre o pressuposto de que sabemos: sabemos onde estamos, sabemos quem é a pessoa à nossa frente, sabemos que o sol nascerá amanhã. E todavia, basta ler três páginas de Gettier - ou ouvir, com seriedade, a hipótese do cérebro num tanque - para que a confiança se desfaça e nos vejamos forçados a perguntar: *como é que efetivamente sei o que digo saber?* A epistemologia é a disciplina que se recusa a deixar essa pergunta em paz. **Não é, decididamente, uma disciplina sossegada**: cada época refundou-a, cada geração descobriu novos modos de a tornar inquietante, e os seus problemas centrais - a justificação, a verdade, o ceticismo, a relação entre saber e virtude - permanecem **mais abertos hoje do que estavam quando Platão os formulou pela primeira vez**. Mas é precisamente nesta abertura permanente que reside a sua dignidade. Os animais cognoscentes que somos podem viver sem responder a estas perguntas; mas não sem as fazer. A epistemologia é, em última análise, **a forma rigorosa que assume, no quadro da filosofia, a velha exigência socrática de não tomar como saber aquilo que não é mais do que opinião confiante**. E, como Sócrates já intuía, esse exercício de probidade intelectual não tem fim - não pode tê-lo, sob risco de deixar de ser o que é. > *Ignorantia non est argumentum.* --- *#filosofia #epistemologia #frutos*