# Filosofia Analítica
> *A missão da filosofia é a clarificação lógica do pensamento. A filosofia não é uma doutrina, mas uma atividade.*
> - Ludwig Wittgenstein, **Tractatus Logico-Philosophicus**, 4.112

<sub>*Ludwig Witthenstein, ca. 1946. Imagem do Wikimedia Commons, domínio público.*</sub>
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## Apresentação
A **filosofia analítica** é a tradição filosófica dominante no mundo anglófono desde o início do século XX - e, crescentemente, uma presença global nos departamentos de filosofia de todo o mundo. Definida mais por um **estilo de fazer filosofia** do que por um conjunto de doutrinas, caracteriza-se pelo rigor argumentativo, pela clareza conceptual, pelo uso de instrumentos da lógica formal, e por uma atenção sistemática à linguagem como lugar privilegiado de análise filosófica.
Como se discute no artigo complementar a este - [[Filosofia Continental]] -, a designação "filosofia analítica" surgiu no contexto de uma divisão académica entre duas tradições que partilharam, paradoxalmente, **uma origem comum**: as obras de [Gottlob Frege](https://pt.wikipedia.org/wiki/Gottlob_Frege) e do jovem [Edmund Husserl](https://pt.wikipedia.org/wiki/Edmund_Husserl), ambos críticos do psicologismo em lógica, ambos fundadores de novos programas filosóficos rigorosos - que divergiram depois de modo radical e duradouro.
Importa salientar, desde o início, **três características contra-intuitivas** da filosofia analítica que qualquer apresentação honesta deve referir:
Primeiro, apesar de ser hoje predominantemente anglófona na sua prática académica, a filosofia analítica **não é de origem britânica ou americana**: os seus fundadores - Frege, Wittgenstein, os membros do Círculo de Viena - são alemães, austríacos, checos, polacos. Foi o nazismo, ao expulsar dezenas de intelectuais da Europa Central, que transplantou o centro de gravidade do movimento para Oxford, Cambridge e as universidades americanas. Como se afirma na fonte consultada para este artigo, "ninguém pensaria na filosofia analítica como um fenómeno especificamente anglófono se os nazis não tivessem expulsado muitos dos seus pioneiros da Europa Central".
Segundo, a filosofia analítica **não é, historicamente, apenas filosofia da linguagem** - ainda que a *linguistic turn* seja o seu momento mais característico. Há uma vasta tradição analítica em metafísica, epistemologia, ética, filosofia da mente, estética e filosofia política que não se reduz ao estudo da linguagem.
Terceiro, **a distinção analítico/continental está a esbater-se**. Desde pelo menos os anos 1970, as obras de filósofos como Kripke, Putnam, McDowell e Brandom cruzam sistematicamente as duas tradições - lendo com igual seriedade Frege e [[Kant]], Russell e [[Hegel]], Wittgenstein e Husserl. [[Markus Gabriel]], figura central deste jardim digital, é o caso paradigmático de quem pratica deliberadamente esta síntese.
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## Os fundadores: o momento de Frege e Russell
A filosofia analítica tem uma data de nascimento relativamente precisa, que pode ser fixada entre 1879 e 1905 - um quarto de século de fundação extraordinariamente concentrado.
### Frege: a revolução lógica
**[Gottlob Frege](https://pt.wikipedia.org/wiki/Gottlob_Frege)** (1848-1925) é, por consenso, **o fundador da lógica moderna** e, com ela, do programa que se tornará a filosofia analítica. Em 1879, publica a *Begriffsschrift* (*Escrita Conceptual*) - um sistema de lógica formal que, pela primeira vez, articula de modo rigoroso a **lógica de predicados** com quantificadores, superando radicalmente a silogística aristotélica e tornando possível a análise formal da inferência em linguagem natural complexa.
A motivação de Frege não era filosófica em sentido restrito: era **logicista**. Pretendia mostrar que a aritmética era redutível à lógica pura - que os números e as verdades aritméticas eram construções lógicas, não entidades misteriosas nem verdades sintéticas a priori no sentido kantiano. Para isso, precisava de uma lógica suficientemente poderosa. A *Begriffsschrift* fornecia-a.
Em 1892, no ensaio *[Über Sinn und Bedeutung](https://en.wikipedia.org/wiki/Über_Sinn_und_Bedeutung)* - *Sobre o Sentido e a Referência* -, Frege formula a distinção que se tornará pedra-angular de toda a filosofia analítica da linguagem: entre o **sentido** (*Sinn*) de uma expressão - o modo como ela apresenta o seu objeto - e a sua **referência** (*Bedeutung*) - o objeto que ela designa. "A estrela da manhã" e "a estrela da tarde" têm a mesma referência (Vénus), mas sentidos distintos: apresentam o mesmo objeto de modos diferentes. Esta distinção, lida na [[Ontologia dos Campos de Sentido]] gabrieliana, é precisamente a fonte do conceito de *Sinnfeld* - campo de sentido.
### Moore e a rejeição do idealismo britânico
**[G. E. Moore](https://pt.wikipedia.org/wiki/George_Edward_Moore)** (1873-1958) é, com Russell, **o fundador da filosofia analítica britânica** - e aquele que deu ao movimento o seu ímpeto anti-idealista inicial. Em 1903, na *Principia Ethica*, Moore critica o que chama a *falácia naturalista* na ética - a confusão entre "bom" e qualquer propriedade natural -, e defende que "bom" é uma propriedade não-natural, simples e indefinível, apreendida por uma espécie de intuição.
Mas o gesto mais decisivo de Moore é filosófico-metodológico: a sua defesa do **senso comum** contra o idealismo absoluto de Bradley e McTaggart, então dominante em Cambridge. Em *A Refutação do Idealismo* (1903) e depois na famosa *Prova do Mundo Exterior* (1939) - onde ergueu solenemente uma mão declarando "aqui está uma mão", como prova da existência do mundo exterior -, Moore opôs à especulação idealista o peso bruto da evidência comum. Este gesto anti-cético inspirará, décadas depois, a epistemologia contextualista de David Lewis e a leitura que Wittgenstein faz de Moore em *Da Certeza* (1969).
### Russell: lógica, paradoxos e atomismo lógico
**[Bertrand Russell](https://pt.wikipedia.org/wiki/Bertrand_Russell)** (1872-1970) é a figura mais brilhante e mais prolífica dos fundadores. Matemático, filósofo, escritor, pacifista, Prémio Nobel da Literatura em 1950, Russell exerceu uma influência que não tem paralelo no panorama intelectual do século XX.
O seu contributo mais técnico é o *[Principia Mathematica](https://en.wikipedia.org/wiki/Principia_Mathematica)* (1910-1913), escrito em colaboração com Alfred North Whitehead - uma obra monumental que procurava derivar toda a matemática da lógica pura, completando o projeto logicista de Frege. O próprio Russell havia descoberto, em 1901, o **paradoxo de Russell** que abalava os fundamentos da teoria dos conjuntos fregeana: o conjunto de todos os conjuntos que não são membros de si mesmos é, ou não é, membro de si mesmo? Para evitar o paradoxo, Russell desenvolveu a **teoria dos tipos** lógicos.
Em filosofia da linguagem, o seu contributo mais importante é o ensaio *[On Denoting](https://en.wikipedia.org/wiki/On_Denoting)* (1905) - "Sobre a Denotação" -, considerado por alguns o artigo filosófico mais influente do século XX. Nele, Russell resolve o problema das **descrições definidas** - como "o atual rei de França" - sem recorrer a entidades inexistentes à maneira de Meinong: "o atual rei de França é calvo" é falsa (não há nenhum rei de França), não é nem verdadeira nem falsa. A análise lógica dissolve o aparente mistério.
Mais tarde, nos *Lectures on the Philosophy of Logical Atomism* (1918), Russell desenvolve o **atomismo lógico**: a ideia de que a realidade é composta de factos atómicos simples, aos quais correspondem proposições atómicas simples, sendo as proposições complexas construções lógicas a partir destas.
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## Wittgenstein I: o *Tractatus* e os limites da linguagem
**[Ludwig Wittgenstein](https://en.wikipedia.org/wiki/Ludwig_Wittgenstein)** (1889-1951) é, provavelmente, **o filósofo analítico mais influente do século XX** - e um dos mais difíceis de classificar, pois a sua obra divide-se em dois períodos radicalmente distintos que, juntos, delimitam o espaço de possibilidade de grande parte da filosofia analítica até hoje.
O **primeiro Wittgenstein**, o do *[Tractatus Logico-Philosophicus](https://en.wikipedia.org/wiki/Tractatus_Logico-Philosophicus)* (1921/22), propõe uma **teoria pictórica da linguagem**: as proposições são retratos (*Bilder*) dos factos; uma proposição tem sentido se e só se retrata um possível estado-de-coisas. O que não pode ser "retratado" - a ética, a estética, o místico, a própria lógica - não pode ser dito; apenas pode ser mostrado. A filosofia não produz proposições: clarifica o que pode ser dito.
A consequência radical é a que fecha o *Tractatus*: *O que não se pode falar, deve calar-se* (*Wovon man nicht sprechen kann, darüber muss man schweigen*). Toda a metafísica tradicional, toda a ética teórica, toda a teologia são, nesta perspetiva, não falsas mas **insensatas** - tentativas de dizer o que a linguagem não pode dizer. Esta posição exerceu uma influência enorme sobre o Círculo de Viena, que a leu como sanção filosófica do positivismo lógico.
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## O Círculo de Viena e o positivismo lógico
Nos anos 1920 e 1930, na Viena que produzia simultaneamente Freud, Schoenberg e o movimento moderno em arquitetura, um grupo de filósofos, matemáticos e cientistas reunia-se regularmente para discutir filosofia da ciência e epistemologia: o **[Círculo de Viena](https://pt.wikipedia.org/wiki/C%C3%ADrculo_de_Viena)** (*Wiener Kreis*), cujo núcleo incluía [Moritz Schlick](https://en.wikipedia.org/wiki/Moritz_Schlick), [Rudolf Carnap](https://en.wikipedia.org/wiki/Rudolf_Carnap), [Otto Neurath](https://en.wikipedia.org/wiki/Otto_Neurath), Herbert Feigl e Friedrich Waismann.
O programa do Círculo, habitualmente designado **positivismo lógico** ou **empirismo lógico**, pode resumir-se em três teses:
1. **Princípio de verificabilidade**: uma proposição só tem significado cognitivo se é verificável empiricamente (ou é analítica, isto é, verdadeira por definição). Toda a metafísica, por este critério, é **insensata** - não falsa, mas vazia de significado.
2. **Unidade da ciência**: todas as ciências são, em última análise, redutíveis a uma linguagem fisicalista comum. A biologia, a psicologia e a sociologia são, em princípio, capítulos da física.
3. **Lógica como instrumento**: a lógica formal e a análise linguística são os instrumentos próprios da filosofia - não uma doutrina substantiva mas um método.
O Círculo dissolveu-se com o nazismo: Schlick foi assassinado em 1936 por um estudante fanático; os restantes fugiram para os Estados Unidos, Reino Unido e Escandinávia, levando consigo o positivismo lógico e implantando-o nas universidades anglófonas, onde dominaria a filosofia académica nas décadas de 1940 e 1950.
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## Wittgenstein II: as *Investigações Filosóficas* e a viagem da palavra
O **segundo Wittgenstein** - o das *[Investigações Filosóficas](https://en.wikipedia.org/wiki/Philosophical_Investigations)* (publicadas postumamente em 1953) - é uma das mais extraordinárias autocríticas da história da filosofia. Wittgenstein revisita, ponto por ponto, o *Tractatus* e mostra que estava errado.
A teoria pictórica da linguagem, com a sua imagem de que as palavras designam objetos, é substituída por uma conceção radicalmente diferente: o **significado é uso**. Uma palavra tem o significado que tem em virtude do modo como é usada em **jogos de linguagem** (*Sprachspiele*) - formas de vida partilhadas em que as palavras adquirem sentido a partir das suas práticas, regras e contextos. Não há uma essência única que una todos os usos de uma palavra: há **semelhanças de família** (*Familienähnlichkeiten*) - como os membros de uma família que partilham alguns traços mas não todos.
A consequência metodológica é uma revisão profunda do papel da filosofia: os seus problemas não são problemas genuínos mas **confusões linguísticas** - o resultado de palavras a funcionar em "férias" fora dos seus contextos normais de uso. A tarefa da filosofia não é resolver estes problemas mas **dissolvê-los** - mostrar que surgem de usos incorretos ou descontextualizados da linguagem.
O segundo Wittgenstein inspira a **filosofia da linguagem ordinária** (*ordinary language philosophy*), florescente em Oxford nos anos 1940 e 1950 - com [J. L. Austin](https://en.wikipedia.org/wiki/J._L._Austin) (*How to Do Things with Words*), [Gilbert Ryle](https://en.wikipedia.org/wiki/Gilbert_Ryle) (*The Concept of Mind*), [P. F. Strawson](https://en.wikipedia.org/wiki/P._F._Strawson) (*Individuals*, *The Bounds of Sense*).
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## Quine e os dois dogmas do empirismo
Na América, o positivismo lógico encontrou o seu maior crítico interno em **[W. V. O. Quine](https://pt.wikipedia.org/wiki/Willard_Van_Orman_Quine)** (1908-2000) - figura incontornável que articulou a mais influente revisão do programa empirista desde Hume.
Em 1951, Quine publica o artigo *[Two Dogmas of Empiricism](https://en.wikipedia.org/wiki/Two_Dogmas_of_Empiricism)* - "Os Dois Dogmas do Empirismo" -, um dos textos mais citados da filosofia do século XX. Os dois dogmas que identifica:
1. **A distinção analítico/sintético**: a crença de que há uma fronteira nítida entre verdades analíticas (verdadeiras por significado) e verdades sintéticas (verdadeiras por facto). Para Quine, esta distinção não tem fundamento claro - a noção de "sinonímia" que a sustenta é, em última análise, circular.
2. **O reducionismo**: a crença de que cada proposição significativa pode ser traduzida, de modo equivalente, numa linguagem de termos observacionais. Para Quine, as proposições nunca confrontam a experiência individualmente, mas apenas como **rede de crenças** (*web of beliefs*): sempre há hipóteses auxiliares, e nunca é possível isolar uma proposição para a verificar ou falsificar isoladamente.
A tese de Quine é o **holismo semântico**: o significado não é propriedade das frases isoladas mas de corpos inteiros de teoria. Associada a uma posição de **naturalismo filosófico** - a ideia de que a filosofia é contínua com a ciência, e não uma disciplina a priori acima dela -, esta posição reformulou profundamente a epistemologia analítica (cf. [[Epistemologia]], secção sobre a epistemologia naturalizada).
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## Kripke e o ressurgimento da metafísica
Se o positivismo lógico tinha, nos anos 1950, decretado o fim da metafísica, a geração seguinte voltou a reabilitá-la - de modo mais técnico e mais cuidadoso do que os seus predecessores.
O pivô desta reviravolta é **[Saul Kripke](https://en.wikipedia.org/wiki/Saul_Kripke)** (1940-2022), com a obra *[Naming and Necessity](https://en.wikipedia.org/wiki/Naming_and_Necessity)* (1980, originalmente três conferências em Princeton em 1970). Kripke desfez a identificação, considerada óbvia pela filosofia analítica dominante, entre **necessidade**, **aprioridade** e **analiticidade** - três propriedades que Kant e a tradição tenderam a tratar como coextensivas, mas que são, para Kripke, **independentes**.
As suas teses centrais:
- Os **nomes próprios** são **designadores rígidos** (*rigid designators*): designam o mesmo indivíduo em todos os mundos possíveis em que ele existe. "Aristóteles" designa Aristóteles em todos os mundos, independentemente das descrições que associemos ao nome. Isto é diferente de uma descrição definida ("o mais célebre filósofo da Antiguidade"), que pode designar indivíduos diferentes em mundos diferentes.
- Há **verdades necessárias a posteriori**: "a água é H2O" é descoberta empiricamente, mas, uma vez descoberta, vale necessariamente - porque se refere à natureza essencial de uma substância, não a uma convenção linguística.
- Há **verdades contingentes a priori**: "o metro padrão tem um metro de comprimento" é conhecida a priori (é a definição de metro), mas poderia ser falsa (a barra de platina poderia ter expandido).
*Naming and Necessity* "fundamentalmente alterou o modo como grande parte da filosofia é feita", nas palavras de Scott Soames. Reabilitou a **essência** e as **propriedades naturais** como categorias filosóficas legítimas, repôs a metafísica no centro da filosofia analítica, e abriu o caminho para toda uma geração de filósofos - David Lewis, Alvin Plantinga, David Armstrong, Peter van Inwagen - que produziriam uma metafísica rigorosa e tecnicamente sofisticada.
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## Os grandes campos da filosofia analítica contemporânea
A filosofia analítica do século XXI é um território vastíssimo e internamente diverso. Eis os seus principais campos, muitos dos quais encontraram tratamento próprio noutros artigos deste jardim.
### Lógica e filosofia da linguagem
A linha direta de Frege - Wittgenstein - Carnap - Quine - Kripke continua em [Donald Davidson](https://en.wikipedia.org/wiki/Donald_Davidson_(philosopher)) (teoria da verdade e da ação), [Michael Dummett](https://en.wikipedia.org/wiki/Michael_Dummett) (semântica antirealista, teoria do significado como uso verificacionista), [Paul Grice](https://en.wikipedia.org/wiki/Paul_Grice) (implicaturas conversacionais), [David Kaplan](https://en.wikipedia.org/wiki/David_Kaplan_(philosopher)) (lógica dos indexicais), e na filosofia contemporânea da linguagem de Jason Stanley, Scott Soames, e outros.
### Metafísica analítica
A reabilitação kripkeana da metafísica abriu espaço a uma florescente tradição: modalidade, identidade, dependência, grounding, constituição, persistência temporal. [David Lewis](https://en.wikipedia.org/wiki/David_Lewis_(philosopher)) - com a sua defesa do **realismo modal** (todos os mundos possíveis existem concretamente) e da **Análise de Hume** (ausência de conexões necessárias no mundo) -, [Kris McDaniel](https://en.wikipedia.org/wiki/Kris_McDaniel) e Jason Turner (no [[Pluralismo Ontológico]]), e Theodore Sider (*Writing the Book of the World*, 2011) são figuras centrais.
### Epistemologia
Abordada extensamente no artigo dedicado à [[Epistemologia]]. O problema de Gettier, o fundacionalismo vs. coerentismo, o externalismo de Goldman, o *knowledge first* de Williamson, a epistemologia das virtudes de Sosa e Zagzebski, a epistemologia social de Miranda Fricker - são todos capítulos desta tradição.
### Filosofia da mente
[Hilary Putnam](https://pt.wikipedia.org/wiki/Hilary_Putnam) - com o funcionalismo e depois o **realismo interno** - iniciou uma tradição rica em diálogo com a ciência cognitiva e com a fenomenologia. [Jerry Fodor](https://en.wikipedia.org/wiki/Jerry_Fodor), [Daniel Dennett](https://en.wikipedia.org/wiki/Daniel_Dennett), [John Searle](https://en.wikipedia.org/wiki/John_Searle) (com o seu *Chinese Room argument* contra o funcionalismo), e [David Chalmers](https://en.wikipedia.org/wiki/David_Chalmers) (com o *hard problem of consciousness*) definem os principais polos do debate. [[Markus Gabriel]], em *Eu Não Sou o Meu Cérebro*, intervém neste debate a partir de um ângulo continental mas com argumentos reconhecíveis no espaço analítico.
### Ética analítica
De Moore a [R. M. Hare](https://en.wikipedia.org/wiki/R._M._Hare) (prescritivismo universal), de [Derek Parfit](https://en.wikipedia.org/wiki/Derek_Parfit) (*Reasons and Persons*, 1984, sobre pessoalidade e ética consequencialista) a [John Rawls](https://pt.wikipedia.org/wiki/John_Rawls) (*A Theory of Justice*, 1971, fundação da filosofia política liberal analítica) e [Derek Parfit](https://en.wikipedia.org/wiki/Derek_Parfit), a ética analítica é um campo prolífico, atento ao argumento formal mas também sensível à complexidade da experiência moral.
### Filosofia da ciência
De [Karl Popper](https://pt.wikipedia.org/wiki/Karl_Popper) (falseacionismo) a [Thomas Kuhn](https://pt.wikipedia.org/wiki/Thomas_Kuhn) (estrutura das revoluções científicas, à margem do analítico estrito), de [Imre Lakatos](https://en.wikipedia.org/wiki/Imre_Lakatos) (programas de investigação) a [Bas van Fraassen](https://en.wikipedia.org/wiki/Bas_van_Fraassen) (empirismo construtivo) e [Philip Kitcher](https://en.wikipedia.org/wiki/Philip_Kitcher), a filosofia da ciência analítica é hoje uma das tradições mais ricas em diálogo com as próprias ciências.
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## As pontes com a filosofia continental
Um dos desenvolvimentos mais interessantes das últimas décadas é o esforço, crescente e deliberado, de construir **pontes entre as duas tradições** - esforço protagonizado por figuras de ambos os lados.
Do lado analítico: **John McDowell** (*Mind and World*, 1994) relê [[Kant]] e [[Hegel]] com instrumentos analíticos, para defender uma forma de naturalismo que não seja eliminativista. **Robert Brandom** (*Making It Explicit*, 1994; *A Spirit of Trust*, 2019) relê a *Fenomenologia do Espírito* de [[Hegel]] como obra sobre a normatividade inferencial, articulando-a com a pragmática de Sellars e a semântica de Frege.
Do lado continental: **[[Markus Gabriel]]** é o caso paradigmático - as suas obras dialogam com Frege, Kripke, Putnam e Brandom com a mesma seriedade com que dialogam com [[Schelling]] e [[Hegel]]. A [[Ontologia dos Campos de Sentido]] aproveita explicitamente a distinção fregeana Sinn/Bedeutung, e os debates analíticos sobre existência (Frege, Russell, Quine) são interlocutores centrais de *Fields of Sense* (2015).
Neste sentido, a filosofia analítica e a [[Filosofia Continental]] já não são, em muitos dos seus desenvolvimentos mais interessantes, **compartimentos estanques**: são perspetivas distintas sobre problemas partilhados, que se enriquecem mutuamente quando os seus praticantes têm a paciência - e a formação - para ler dos dois lados.
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## Recursos audiovisuais
### Vídeos e palestras
- 🎥 **[Michael Dummett - Origins of Analytic Philosophy](https://www.youtube.com/results?search_query=Michael+Dummett+Origins+Analytic+Philosophy)** - Conferências do próprio Dummett sobre a história da tradição.
- 🎥 **[Saul Kripke - Naming and Necessity (lectures)](https://www.youtube.com/results?search_query=Kripke+Naming+Necessity+lecture)** - Versões filmadas e comentadas das conferências fundadoras.
- 🎥 **[Robert Brandom - Frege, Russell, Wittgenstein](https://www.youtube.com/results?search_query=Robert+Brandom+Frege+Russell+Wittgenstein)** - Apresentações da história da filosofia analítica por um dos seus mais finos comentadores.
- 🎥 **[Crash Course Philosophy - Analytic Philosophy](https://www.youtube.com/playlist?list=PL8dPuuaLjXtNgK6MZucdYldNkMybYIHKR)** - Introdução acessível.
### Textos online
- 📄 **[Verbete *Analytic Philosophy* na Stanford Encyclopedia of Philosophy](https://plato.stanford.edu/entries/analytic-philosophy/)** - Síntese de referência por Michael Beaney.
- 📄 **[Verbete *Frege* na Stanford Encyclopedia of Philosophy](https://plato.stanford.edu/entries/frege/)** - Sobre o fundador.
- 📄 **[Verbete *Wittgenstein* na Stanford Encyclopedia of Philosophy](https://plato.stanford.edu/entries/wittgenstein/)** - Os dois Wittgenstein.
- 📄 **[Verbete *Two Dogmas of Empiricism* na Wikipédia anglófona](https://en.wikipedia.org/wiki/Two_Dogmas_of_Empiricism)**.
- 📄 **[Verbete *Naming and Necessity* na Wikipédia anglófona](https://en.wikipedia.org/wiki/Naming_and_Necessity)**.
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## Bibliografia essencial
### Textos fundadores
- Gottlob Frege, *Über Sinn und Bedeutung* (1892). [Trad. portuguesa em coletâneas de filosofia da linguagem.]
- Bertrand Russell, *On Denoting* (1905). [Trad. portuguesa em coletâneas.]
- Bertrand Russell & Alfred North Whitehead, *Principia Mathematica* (1910-1913).
- Ludwig Wittgenstein, *Tractatus Logico-Philosophicus* (1921). Trad. portuguesa pela Calouste Gulbenkian / Fundação Gulbenkian.
- Ludwig Wittgenstein, *Investigações Filosóficas* (1953). Trad. portuguesa pela Fundação Gulbenkian.
- Saul Kripke, *Naming and Necessity*. Harvard UP, 1980. [Sem tradução portuguesa publicada de referência.]
- W. V. O. Quine, *Two Dogmas of Empiricism*, in *From a Logical Point of View*. Harvard UP, 1953.
### Histórias e manuais
- Scott Soames, *Philosophical Analysis in the Twentieth Century*, 2 vols. Princeton UP, 2003. [A história mais detalhada e tecnicamente rigorosa disponível.]
- Michael Beaney (ed.), *The Oxford Handbook of the History of Analytic Philosophy*. Oxford UP, 2013.
- Hans-Johann Glock, *What is Analytic Philosophy?* Cambridge UP, 2008.
- Michael Dummett, *Origins of Analytical Philosophy*. London: Duckworth, 1993.
- A. P. Martinich & David Sosa (eds.), *Analytic Philosophy: An Anthology*. Blackwell, 2001.
### Obras clássicas em subáreas
- G. E. Moore, *Principia Ethica* (1903).
- Bertrand Russell, *Os Problemas da Filosofia* (1912). Trad. portuguesa Edições 70.
- J. L. Austin, *How to Do Things with Words* (1962).
- W. V. O. Quine, *Word and Object* (1960).
- David Lewis, *On the Plurality of Worlds* (1986).
- Derek Parfit, *Reasons and Persons* (1984).
- John Rawls, *Uma Teoria da Justiça* (1971). Trad. portuguesa Martins Fontes / Presença.
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## Hiperligações internas neste jardim
- [[Filosofia Continental]]
- [[Markus Gabriel]]
- [[Ontologia dos Campos de Sentido]]
- [[Novo Realismo]]
- [[Realismo Especulativo]]
- [[Pluralismo Ontológico]]
- [[Ontologia]]
- [[Epistemologia]]
- [[Kant]]
- [[Hegel]]
- [[Schelling]]
- [[Idealismo Alemão]]
- [[Frege]]
- [[Wittgenstein]]
- [[Russell]]
- [[Quine]]
- [[Kripke]]
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## Notas finais
A filosofia analítica começou como gesto de ruptura: contra o idealismo especulativo herdado de [[Hegel]], contra a metafísica sem fundamento empírico, contra a obscuridade do estilo filosófico dominante no final do século XIX. O seu programa inicial era quase ascético: rigor, clareza, lógica, ciência. Nada que não pudesse ser dito com precisão merecia ser dito.
Este ímpeto renovador foi extraordinariamente produtivo. A lógica moderna, a filosofia da linguagem, a epistemologia formal, a ética analítica, a filosofia da mente, a metafísica contemporânea - todos estes campos floresceram na tradição analítica com um rigor e uma sofisticação técnica que dificilmente encontram paralelo noutras tradições. O simples facto de termos hoje instrumentos formais para falar de mundos possíveis, referência, significado, validade, superveniência - instrumentos que [[Markus Gabriel]] usa tão naturalmente quanto usa [[Hegel]] - é, em larga medida, herança da revolução analítica.
E, no entanto, a filosofia analítica descobriu - lentamente, relutantemente, mas de modo crescentemente evidente - que a ruptura com a tradição continental era menos total do que os seus fundadores imaginaram. As perguntas que [[Kant]] formulou sobre o conhecimento, as que [[Hegel]] formulou sobre o espírito, as que [[Schelling]] formulou sobre a natureza: estas perguntas não foram superadas pela análise lógica. Foram *deslocadas* - para um registo mais técnico, mais formal, mais rigoroso. Mas permanecem, como permanecem todas as perguntas filosóficas genuínas: **abertas, incontornáveis, e mais difíceis do que as suas formulações mais elegantes fazem parecer**.
> *Ignorantia non est argumentum.*
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*#filosofia #frutos*