# Filosofia Continental > *Penso que a única forma de estabelecer comunicação entre as escolas analítica e continental é regressar ao seu ponto de divergência em Frege e no jovem Husserl.* > - Michael Dummett, **Origins of Analytical Philosophy** (1993) ![Abadia de Royaumont](https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/d/d0/Abadia_de_Royaumont_-_Flickr_-_diocrio.jpg/960px-Abadia_de_Royaumont_-_Flickr_-_diocrio.jpg) <sub>*Abadia de Royamount, **local do colóquio de 1958** por Angel de los Rios. Imagem do Wikimedia Commons, domínio público.*</sub> --- ## Apresentação **Filosofia continental** é a designação - de origem anglófona, e nascida fora de si mesma - para um vasto e heterogéneo conjunto de tradições filosóficas que floresceram, sobretudo, na Europa continental desde o início do século XIX até hoje: o [[Idealismo Alemão]], o marxismo, a fenomenologia, o existencialismo, a hermenêutica, o estruturalismo, o pós-estruturalismo, a teoria crítica, a desconstrução, e - mais recentemente - o [[Novo Realismo]] e o [[Realismo Especulativo]]. A primeira coisa a dizer sobre esta expressão é, paradoxalmente, **que ela não nomeia uma escola**. Ao contrário de termos como *estoicismo* ou *existencialismo*, que designam corpos doutrinais com teses identificáveis, *filosofia continental* é, na sua origem, **um termo de exclusão**: é tudo aquilo que, do ponto de vista da [[Filosofia Analítica|filosofia analítica]] anglo-americana, não é filosofia analítica. Como uma vez se notou com ironia, é como se se definisse "mamíferos não-humanos" como categoria zoológica primária - a definição diz-nos mais sobre quem fala do que sobre aquilo de que se fala. E, no entanto - e este é o segundo ponto, igualmente importante -, o termo **foi reapropriado** por muitos dos que nele foram primeiro incluídos por exclusão. Hoje há departamentos, revistas, associações e congressos que se autodenominam "de filosofia continental", e o termo, apesar da sua origem contestável, tornou-se **categoria viva da prática filosófica institucional**, sobretudo no mundo anglófono - onde, recorde-se, a distinção tem mais sentido do que na própria Europa continental, onde os autores em questão raramente se pensaram a si mesmos por essa designação. Este artigo segue, de propósito, uma estratégia distinta da maioria dos seus pares: **não tenta definir o que é a filosofia continental por um conjunto de teses** (tarefa que se mostrará, no decurso do artigo, votada ao fracasso), mas **conta a história da própria distinção** - donde veio o termo, o que opõe, quem o usou, contra quem, e porquê. É uma história que ilumina retrospetivamente quase todos os outros artigos deste jardim. --- ## Uma genealogia do termo ### As origens: Frege, Husserl, e a bifurcação Há um consenso considerável - formulado de modo influente por Michael Dummett em *Origins of Analytical Philosophy* (1993) - de que **o ponto de bifurcação** entre o que viria a ser chamado "analítico" e "continental" se situa em torno de 1900, em dois filósofos que partiram, na verdade, de **preocupações extraordinariamente próximas**: [Gottlob Frege](https://pt.wikipedia.org/wiki/Gottlob_Frege) e [Edmund Husserl](https://pt.wikipedia.org/wiki/Edmund_Husserl). Ambos se debatiam, nos anos 1890, com o problema do **psicologismo** - a tese de que a lógica e a matemática são, em última análise, descrições de processos psicológicos do pensamento humano. Ambos rejeitaram o psicologismo, e ambos procuraram fundamentar a objetividade do lógico e do matemático numa esfera irredutível ao mental empírico. Husserl, nas suas *Investigações Lógicas* (1900-1901), cita Frege com aprovação. Há, nesta fase, **diálogo genuíno** entre o que viria a tornar-se a fenomenologia (via Husserl) e o que viria a tornar-se a filosofia analítica (via Frege, depois Russell). A bifurcação dá-se depois: **Frege e Russell** seguem o caminho da lógica formal, da análise da linguagem, do que se tornaria a *linguistic turn*. **Husserl** segue o caminho da análise da consciência, da intencionalidade, do método fenomenológico - caminho que, através de [Heidegger](https://pt.wikipedia.org/wiki/Martin_Heidegger), conduzirá à hermenêutica, ao existencialismo, e a quase todo o pensamento francês do século XX. Dois caminhos que partiram do mesmo ponto, divergiram tão radicalmente que, sessenta anos depois, os seus herdeiros já não se conseguiam entender. ### O nome: uma cunhagem britânica do século XX O termo *continental philosophy*, como categoria filosófica explícita, é **relativamente recente** - não tem mais de um século, e a sua consolidação como categoria de uso corrente é ainda mais tardia, situando-se sobretudo a partir da segunda metade do século XX. A sua génese situa-se no contexto da filosofia académica britânica, onde o termo *continental* já era, há muito, usado em registo geográfico simples - *o Continente*, designando a Europa não-britânica, num uso que remonta ao inglês corrente desde pelo menos o século XVIII. A sua transposição para o vocabulário filosófico-técnico, como rótulo de uma *tradição* distinta da *filosofia britânica/analítica*, ocorre no decurso do século XX, à medida que a filosofia de língua inglesa - sob a influência decisiva de Frege, Russell, Wittgenstein e Moore - se autodefine cada vez mais explicitamente pelo método da análise lógica e linguística, deixando "do outro lado" tudo o que, na Europa, prosseguia por outras vias. ### O Colóquio de Royaumont (1958): o episódio fundador Se há um **acontecimento** a que se possa razoavelmente atribuir a consolidação simbólica da distinção - não a sua origem, que é mais difusa, mas o momento em que ela se torna **espetáculo público de incomunicação** -, esse acontecimento é o **Colóquio de Royaumont**, realizado em abril de 1958 na Abadia de Royaumont, perto de Paris. Organizado por [Jean Wahl](https://en.wikipedia.org/wiki/Jean_Wahl) - figura central da introdução do hegelianismo e do existencialismo na França, professor na Sorbonne - com o objetivo declarado de promover um **diálogo franco-britânico**, o colóquio reuniu, do lado britânico, alguns dos nomes maiores da filosofia analítica do pós-guerra: [J. L. Austin](https://en.wikipedia.org/wiki/J._L._Austin), [Gilbert Ryle](https://en.wikipedia.org/wiki/Gilbert_Ryle), [P. F. Strawson](https://en.wikipedia.org/wiki/P._F._Strawson), [R. M. Hare](https://en.wikipedia.org/wiki/R._M._Hare), [Bernard Williams](https://en.wikipedia.org/wiki/Bernard_Williams), [J. O. Urmson](https://en.wikipedia.org/wiki/J._O._Urmson), e - embora americano - [W. V. O. Quine](https://pt.wikipedia.org/wiki/Willard_Van_Orman_Quine). Do lado francês, contava com a presença, entre outros, de [Maurice Merleau-Ponty](https://pt.wikipedia.org/wiki/Maurice_Merleau-Ponty) e do husserliano belga H. L. Van Breda, fundador dos Arquivos Husserl. O resultado, na avaliação corrente - e na avaliação dos próprios participantes -, foi um **fracasso quase total**: um *dialogue de sourds*, um diálogo de surdos. Os filósofos analíticos e os filósofos de inspiração fenomenológica pareciam **literalmente não conseguir entender-se** - não apenas discordar, mas falhar em identificar, sequer, o que estava em discussão. Royaumont tornou-se, na memória filosófica subsequente, **o símbolo de uma incomunicabilidade radical** entre as duas tradições. A historiografia mais recente - em particular Søren Overgaard, em *Royaumont Revisited* (2010), e a resposta de Andreas Vrahimis - tem matizado este retrato: mostrando que, *apesar* da aparência de fracasso, **havia de facto pontos de contacto reais** entre certos participantes (nomeadamente entre a filosofia da linguagem ordinária de Oxford e certas correntes fenomenológicas), e que a imagem de Royaumont como *batalha campal* entre dois blocos monolíticos simplifica excessivamente uma situação em que **estavam presentes mais de duas tradições filosóficas**. Mas, independentemente da reavaliação histórica, **o efeito simbólico de Royaumont foi duradouro**: a partir de 1958, "filosofia analítica" e "filosofia continental" tornam-se, cada vez mais, categorias com as quais os próprios filósofos se identificam ou das quais se distanciam - não apenas rótulos aplicados de fora. --- ## O que (não) une a "filosofia continental" Se a filosofia continental não é uma escola, **o que justifica, então, agrupar sob um único nome figuras tão diversas como [[Hegel]], Marx, Kierkegaard, Nietzsche, Husserl, Heidegger, Sartre, Foucault, Derrida**? A literatura especializada tem proposto diversos critérios - nenhum deles inteiramente satisfatório, mas cada um deles iluminador. ### Critério geográfico (e a sua falência) O critério mais óbvio - *filosofia produzida na Europa continental* - falha de imediato por **múltiplas razões**. Primeiro, porque grande parte da filosofia analítica do século XX tem origem continental: [Frege](https://pt.wikipedia.org/wiki/Gottlob_Frege), [Wittgenstein](https://en.wikipedia.org/wiki/Ludwig_Wittgenstein), o [Círculo de Viena](https://pt.wikipedia.org/wiki/C%C3%ADrculo_de_Viena) (Carnap, Schlick, Neurath) são todos, geograficamente, "continentais" - e, no entanto, são pilares da tradição analítica. Segundo, porque há, e cada vez mais, "filósofos continentais" em departamentos britânicos, norte-americanos e australianos - a designação tornou-se, como se verá, **institucional e não geográfica**. ### Critério metodológico: estilo *versus* sistema Um segundo critério, mais robusto, aponta para diferenças de **estilo e de método**. A filosofia analítica privilegia tipicamente: a clareza argumentativa, a decomposição de problemas em unidades manejáveis, o rigor lógico-formal, a atenção à linguagem como instrumento de análise, e - frequentemente - um certo desprendimento relativamente à *história* da filosofia (os problemas analisam-se "diretamente", não através dos textos de quem primeiro os formulou). A filosofia dita continental tende, comparativamente, a privilegiar: a construção de **sistemas** de grande amplitude (paradigmaticamente, o sistema hegeliano), a atenção à **historicidade** - a ideia de que o pensamento não pode separar-se da sua situação histórica e cultural -, um estilo **mais literário, ensaístico e retórico**, e uma relação de **continuidade dialógica** com a tradição filosófica (ler Heidegger é, em larga medida, ler a história da metafísica ocidental através de Heidegger). Esta caracterização, contudo, tem **excepções abundantes**: há filósofos analíticos de prosa exuberante (Wittgenstein), e há filósofos "continentais" de rigor argumentativo extremo (o estruturalismo, em certas versões, aproxima-se do formalismo). ### Critério temático: as grandes preocupações continentais Um terceiro critério, talvez o mais produtivo, identifica **temas recorrentes** que atravessam a tradição dita continental, mesmo na sua diversidade: - A **historicidade da razão** - a tese, de origem hegeliana, de que a razão não é uma faculdade atemporal mas tem uma história, e que essa história é filosoficamente significativa. - A **crítica da metafísica da presença** e do sujeito cartesiano - de Nietzsche a Heidegger a Derrida, a desconstrução da ideia de um sujeito transparente a si mesmo. - A atenção às **condições sociais, políticas e históricas** do pensamento - herança marxista, mas também presente em Foucault, na Escola de Frankfurt, na hermenêutica. - O interesse pela **linguagem como mediação constitutiva** - não como instrumento neutro de descrição, mas como aquilo que conforma a própria experiência (hermenêutica, estruturalismo, pós-estruturalismo). - A primazia da **experiência vivida** (*Erlebnis*, *vécu*) sobre a abstração teórica - herança fenomenológica. ### Critério institucional: o que sobra Mas talvez o critério mais honesto - e o que melhor explica a persistência do termo apesar de todas as suas insuficiências - seja simplesmente **institucional**: "filosofia continental" é **o que se ensina em certos departamentos, sob certas rubricas, com certas bibliografias e certos métodos de citação**, em contraste com o que se ensina noutros departamentos sob a rubrica "filosofia analítica". É uma distinção de **práticas académicas situadas**, não de doutrinas. Brian Leiter, citado num dos textos consultados para este artigo, observa que "analítico" descreve mais um *estilo de fazer filosofia* do que uma escola de pensamento - observação que se aplica, com igual pertinência, ao seu suposto contrário. --- ## As grandes correntes habitualmente reunidas sob o rótulo Sem pretensão de exaustividade, eis um mapa sumário das correntes que a literatura anglófona tipicamente agrupa sob "filosofia continental" - muitas das quais já encontraram, ou encontrarão, tratamento próprio neste jardim. ### Idealismo Alemão (1781-1831) Tratado em detalhe no artigo dedicado ao [[Idealismo Alemão]]. [[Kant]], Fichte, [[Schelling]] e [[Hegel]] constituem o que se poderia chamar a **pré-história** da filosofia continental - o momento em que se formula, pela primeira vez de modo sistemático, a tese da historicidade da razão que atravessará toda a tradição posterior. **[[Hegel]] é, por consenso amplo, "o pai da filosofia continental"** - não porque tivesse esta autoconsciência (o termo não existia), mas porque é nele que se cristalizam os temas - sistema, história, dialética, espírito - que a tradição posterior, mesmo quando o repudia, não consegue deixar de ter como referência. ### Marxismo e Hegelianismo de Esquerda A radicalização materialista do legado hegeliano por [Marx](https://pt.wikipedia.org/wiki/Karl_Marx) (cf. [[Idealismo Alemão]]) inaugura uma linha de pensamento - desenvolvida depois por Lukács, Gramsci, e pela Escola de Frankfurt (Adorno, Horkheimer, Marcuse, Habermas) - que articula filosofia, crítica social e teoria política de modos que a filosofia analítica clássica, concentrada em problemas de lógica e linguagem, raramente contemplou. ### Existencialismo e Filosofia da Existência [Søren Kierkegaard](https://pt.wikipedia.org/wiki/Søren_Kierkegaard) - já referido nos artigos sobre [[Hegel]] e [[Schelling]] - é a fonte mais recuada. No século XX, [Heidegger](https://pt.wikipedia.org/wiki/Martin_Heidegger), [Jean-Paul Sartre](https://pt.wikipedia.org/wiki/Jean-Paul_Sartre), [Simone de Beauvoir](https://pt.wikipedia.org/wiki/Simone_de_Beauvoir), Gabriel Marcel, Karl Jaspers desenvolvem, em registos muito diversos, uma filosofia centrada na **existência singular**, na liberdade, na angústia, na finitude. **Jean Wahl** - o organizador de Royaumont - foi um dos introdutores decisivos do hegelianismo e do existencialismo na França. ### Fenomenologia e Hermenêutica A partir de [Husserl](https://pt.wikipedia.org/wiki/Edmund_Husserl), via Heidegger, Gadamer e Ricoeur, desenvolve-se uma tradição centrada na descrição da experiência (fenomenologia) e na interpretação (hermenêutica) - tradição que, note-se, **dialoga ativamente com a filosofia analítica contemporânea**, nomeadamente através de John McDowell e Robert Brandom, que se reclamam tanto de Kant e Hegel quanto de Wittgenstein e Sellars - um dos pontos de aproximação mais fecundos entre as duas tradições nas últimas décadas. ### Estruturalismo e Pós-estruturalismo A linguística estrutural de Saussure, importada para a antropologia (Lévi-Strauss), a psicanálise (Lacan) e a teoria social (Foucault, Barthes, Althusser), e depois "desconstruída" por [Jacques Derrida](https://pt.wikipedia.org/wiki/Jacques_Derrida), constitui o que se designa habitualmente por (pós-)estruturalismo francês - talvez a corrente mais associada, no imaginário anglófono, ao rótulo "filosofia continental", e também a mais alvo de polémicas (incluindo o célebre episódio *Sokal*, sobre o uso de vocabulário científico em contextos filosóficos). ### Realismo Contemporâneo: Novo Realismo e Realismo Especulativo As correntes mais recentes deste jardim - o [[Novo Realismo]] de [[Markus Gabriel]] e Ferraris, e o [[Realismo Especulativo]] de Meillassoux, Harman, Brassier e Grant - situam-se, ambas, no espaço institucional da filosofia continental (os seus protagonistas são formados, ensinam e publicam predominantemente nesse circuito), mas dirigem-se **explicitamente contra alguns dos traços mais característicos da tradição continental do século XX**: o construtivismo, o "correlacionismo" pós-kantiano, a desconfiança quanto à verdade e à objetividade. São, poder-se-ia dizer, **filosofia continental que se volta criticamente contra a sua própria tradição mais recente** - sem deixar de ser, institucionalmente, filosofia continental. --- ## Críticas ao próprio rótulo A distinção analítico/continental é, ela mesma, **objeto de crítica filosófica** - e não apenas por parte de quem se sente mal classificado. ### "Não faz sentido usar o rótulo" Uma posição, exposta de modo direto num dos textos consultados para este artigo, sustenta que a distinção é **simplesmente sem sentido**: "filosofia continental" seria apenas a designação, por exclusão, que o campo analítico dá a tudo o que é posterior ao seu próprio surgimento - uma categoria *negativa* mascarada de categoria *positiva*. Nesta leitura, perguntar "o que é a filosofia continental?" é como perguntar "o que são os animais não-mamíferos?" - a pergunta pressupõe uma coerência interna que não existe. ### A "divisão lamentável" Outra linha crítica - bem representada na bibliografia portuguesa, nomeadamente em textos disponíveis na revista *Crítica* - descreve a própria divisão como **"lamentável"**, e nota que ela "dá origem a um ambiente doentio em algumas universidades": departamentos que se ignoram mutuamente, tradições que não se leem, polémicas que se alimentam de caricaturas reciprocas em vez de leitura cuidadosa. ### A invisibilização de pontes Uma terceira crítica, de tipo mais histórico, sublinha como a ênfase na divisão **torna invisíveis as pontes** que sempre existiram. A fenomenologia, frequentemente citada como projeto "distintamente continental", está **presente em figuras centrais da tradição analítica**: [J. L. Austin](https://en.wikipedia.org/wiki/J._L._Austin), [Gilbert Ryle](https://en.wikipedia.org/wiki/Gilbert_Ryle) e o próprio [Wittgenstein](https://en.wikipedia.org/wiki/Ludwig_Wittgenstein) tiveram contacto, direto ou indireto, com problemáticas fenomenológicas. A própria origem comum em Frege e Husserl - referida acima - é, neste sentido, **um argumento contra a naturalização da distinção**: se as duas tradições partiram do mesmo lugar, a sua separação não é uma necessidade lógica, mas um **acidente histórico** - ainda que um acidente com consequências profundas. ### A "filosofia pós-continental" Mais recentemente, abordagens pós-coloniais e decoloniais têm questionado a própria geografia implícita no termo "continental" - a sua identificação tácita com a Europa, e os modos como **os projetos imperiais e coloniais europeus moldaram a produção do conhecimento filosófico** que se ensina sob esta rubrica. Alguns autores propõem, nesta linha, a designação "filosofia pós-continental" como tentativa de pensar para além desta geografia implícita - discussão que está apenas a começar, e que tem ecos nas discussões sobre o eurocentrismo de [[Kant]] e [[Hegel]] já referidas nos respetivos artigos deste jardim. --- ## Bernard Williams e o fim da dicotomia? Uma figura que merece destaque especial nesta história é **Bernard Williams** (1929-2003) - um dos britânicos presentes em Royaumont em 1958, e que, ao longo da sua carreira, foi progressivamente **abandonando os pressupostos mais restritivos do estilo analítico** em direção a um modo de filosofar profundamente informado pela história da filosofia, pela tragédia grega, por Nietzsche. A obra tardia de Williams - sobretudo *Ethics and the Limits of Philosophy* (1985) e *Shame and Necessity* (1993) - tem sido lida (nomeadamente por Sergio Cremaschi, num texto consultado para este artigo) como **um dos exemplos mais bem-sucedidos de superação prática da dicotomia**: um filósofo formado na tradição mais rigorosamente analítica que, sem abandonar o rigor argumentativo, redescobre as preocupações genealógicas, históricas e existenciais que a tradição continental cultivara durante todo o século XX. Williams é, neste sentido, **uma espécie de contraponto vivo a Royaumont**: o mesmo filósofo que, em 1958, com vinte e nove anos, assistiu ao "diálogo de surdos", viria décadas depois a encarnar, na sua própria obra, **a possibilidade de um diálogo que tivesse sucesso**. --- ## A filosofia continental neste jardim Praticamente toda a constelação filosófica deste jardim digital se situa - institucionalmente, historicamente, problematicamente - no espaço da filosofia continental, ainda que com gestos críticos que a atravessam: - O **[[Idealismo Alemão]]**, com [[Kant]], [[Hegel]] e [[Schelling]], é a sua pré-história fundadora. - O **[[Novo Realismo]]** de [[Markus Gabriel]] e o **[[Realismo Especulativo]]** são, como se viu, **correntes continentais que se voltam contra traços dominantes da tradição continental do século XX** - sem deixarem de ser, institucionalmente, continentais. - A **[[Ontologia]]** e a **[[Epistemologia]]**, tal como aqui tratadas, recolhem contribuições de ambas as tradições - Gettier e a epistemologia das virtudes são marcadamente analíticos; a fenomenologia husserliana e a *Sinnfeldontologie* gabrieliana são marcadamente continentais - numa síntese que **o próprio [[Markus Gabriel]]** pratica deliberadamente, e que é, aliás, **um dos traços mais distintivos do seu projeto filosófico**: ler Frege e Kripke com a mesma desenvoltura com que lê [[Hegel]] e [[Schelling]]. Neste sentido, este jardim - como, de resto, o próprio [[Novo Realismo]] que nele ocupa lugar central - pode ler-se como **um pequeno exercício de superação da dicotomia analítico/continental**: não por decreto, mas pela prática efetiva de ler através da fronteira, tratando-a como **o que provavelmente sempre foi - um acidente histórico, instrutivo mas não intransponível**. --- ## Recursos audiovisuais ### Vídeos e palestras - 🎥 **[Markus Gabriel - Analytic and Continental Philosophy](https://www.youtube.com/results?search_query=Markus+Gabriel+analytic+continental+philosophy)** - Várias intervenções em que Gabriel discute explicitamente a sua prática de trabalhar através da fronteira. - 🎥 **[Robert Brandom - Kant, Hegel and Analytic Philosophy](https://www.youtube.com/results?search_query=Robert+Brandom+Hegel+analytic)** - Conferências sobre a sua leitura simultaneamente analítica e hegeliana. - 🎥 **[Crash Course Philosophy - Continental Philosophy](https://www.youtube.com/playlist?list=PL8dPuuaLjXtNgK6MZucdYldNkMybYIHKR)** - Introdução acessível. ### Textos online - 📄 **[Verbete *Filosofia continental* na Wikipédia portuguesa](https://pt.wikipedia.org/wiki/Filosofia_continental)**. - 📄 **["Conviver com as diferenças" - *Crítica*](https://criticanarede.com/diferencas.html)** - Reflexão em português europeu sobre a "divisão lamentável". - 📄 **[Simon Glendinning, *The Idea of Continental Philosophy* - resumo e discussão](https://www.cambridge.org/core/books/abs/analytic-versus-continental/royaumont-ryle-and-hare-versus-french-and-german-philosophy/660FE713704865466988377AC99BCA63)** - Capítulo sobre Royaumont. - 📄 **[Søren Overgaard, *Royaumont Revisited* (PDF)](https://www.academia.edu/65439564/Royaumont_Revisited)** - Revisão histórica do colóquio. --- ## Bibliografia essencial ### Sobre a distinção e a sua história - Michael Dummett, *Origins of Analytical Philosophy*. London: Duckworth, 1993. - Simon Glendinning, *The Idea of Continental Philosophy: A Philosophical Chronicle*. Edinburgh UP, 2006. - Simon Critchley, *Continental Philosophy: A Very Short Introduction*. Oxford UP, 2001. - Brian Leiter (ed.), *The Future for Philosophy*. Oxford UP, 2004. - Søren Overgaard, *Royaumont Revisited*. *British Journal for the History of Philosophy*, 2010. - Andreas Vrahimis, *Encounters between Analytic and Continental Philosophy*. Palgrave Macmillan, 2013. - Rossano Pecoraro, *Analíticos ou continentais*. São Paulo: 7Letras. ### Sobre Bernard Williams e a "ponte" - Bernard Williams, *Ethics and the Limits of Philosophy*. Harvard UP, 1985. - Bernard Williams, *Shame and Necessity*. University of California Press, 1993. ### Manuais panorâmicos das correntes "continentais" - Robert C. Solomon, *Continental Philosophy since 1750: The Rise and Fall of the Self*. Oxford UP, 1988. - Simon Critchley & William R. Schroeder (eds.), *A Companion to Continental Philosophy*. Blackwell, 1998. --- ## Hiperligações internas neste jardim - [[Filosofia Analítica]] - [[Idealismo Alemão]] - [[Hegel]] - [[Schelling]] - [[Kant]] - [[Markus Gabriel]] - [[Novo Realismo]] - [[Realismo Especulativo]] - [[Ontologia]] - [[Epistemologia]] - [[Ontologia dos Campos de Sentido]] - [[Pluralismo Ontológico]] - [[Heidegger]] - [[Husserl]] - [[Marx]] - [[Kierkegaard]] - [[Fenomenologia]] - [[Existencialismo]] --- ## Notas finais Há poucas distinções, na filosofia contemporânea, tão **simultaneamente úteis e suspeitas** quanto a que separa o "analítico" do "continental". Útil, porque aponta para diferenças reais de estilo, de método, de tradição textual, de prática institucional - diferenças que qualquer pessoa que tenha frequentado departamentos de filosofia em ambos os lados reconhecerá de imediato. Suspeita, porque **não resiste ao escrutínio que a própria filosofia, de ambos os lados, costuma exigir** das suas categorias: não tem definição rigorosa, as suas fronteiras são porosas, a sua origem é, em parte, um acidente de Royaumont, e a sua persistência deve tanto a hábitos institucionais quanto a qualquer coerência doutrinal. Talvez a atitude mais sã - e é, em larga medida, a atitude que [[Markus Gabriel]] e o [[Novo Realismo]] adotam, e que este jardim, na sua prática, também procura adotar - seja **usar a distinção sem a reificar**: reconhecê-la como **mapa de uma paisagem real**, útil para a navegação, sem confundir o mapa com o território. Frege e Husserl partiram do mesmo lugar. Que os seus herdeiros tenham deixado de se entender em Royaumont, em 1958, não é uma necessidade da razão - é um capítulo da sua história, e **os capítulos da história, ao contrário dos teoremas, podem sempre ter uma continuação diferente**. > *Ignorantia non est argumentum.* --- *#filosofia #frutos*