# Idealismo Alemão > *Eine Mythologie der Vernunft.* > *— **Uma mitologia da razão**.* > — *O Mais Antigo Programa Sistemático do Idealismo Alemão* (1796/97) ![O Tübinger Stift, seminário onde se conheceram Hegel, Hölderlin e Schelling](https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/5/50/Tübinger_Stift%2C_Tübingen.JPG/960px-Tübinger_Stift%2C_Tübingen.JPG) <sub>*O **Tübinger Stift**, seminário protestante da Universidade de Tubinga, onde, entre 1788 e 1793, partilharam o mesmo quarto **G. W. F. [[Hegel]]**, **Friedrich Hölderlin** e **F. W. J. [[Schelling]]** — a célebre *Tübingen Trinity*. Imagem do Wikimedia Commons, [CC BY-SA 3.0](https://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0/deed.pt).*</sub> --- ## Apresentação O **Idealismo Alemão** (em alemão *Deutscher Idealismus*) é o movimento filosófico que, entre o início da década de 1780 e meados do século XIX, ocupou o centro do pensamento europeu — e que constitui, ainda hoje, **uma das mais densas concentrações de génio especulativo da história da filosofia ocidental**. Atravessado por três décadas vertiginosas de produção, o movimento congrega quatro figuras maiores cuja sucessão se confunde com a sua própria identidade: **[[Kant]]**, **Johann Gottlieb Fichte**, **F. W. J. [[Schelling]]** e **G. W. F. [[Hegel]]**. Convém dizê-lo desde o início: a expressão *idealismo alemão* não significa que estes filósofos negassem a existência do mundo exterior. Significa que pretenderam pensar o real **a partir das estruturas constitutivas da razão**, e que viram nessas estruturas — categorias, princípios, conceitos — não meras formas subjetivas, mas a articulação mesma daquilo que existe. *Idealismo*, nesta tradição, **não é o contrário de realismo**: é uma forma específica de pensar a relação entre o pensamento e o ser, em que a separação entre os dois é questionada a partir de uma identidade mais originária. O movimento nasce como resposta — primeiro entusiástica, depois crítica — à revolução kantiana de 1781, e atinge o seu coroamento e termo com a morte de Hegel em 1831 e com a *Spätphilosophie* tardia de Schelling, prolongada até 1854. Durante esse meio século, a filosofia alemã ocupou uma posição comparável à da física teórica do início do século XX: o lugar em que se decidiam, com intensidade ímpar, as grandes questões da época. A sua influência sobre toda a filosofia posterior é incalculável. Sem Kant, Fichte, Schelling e Hegel, são impensáveis Marx, Kierkegaard, Nietzsche, Husserl, Heidegger, Sartre, Lacan, Adorno, Habermas, Brandom — ou, mais perto deste jardim, [[Markus Gabriel]] e o [[Novo Realismo]] contemporâneo, que retomam de modo deliberadamente declarado o legado dos seus mestres alemães. --- ## A revolução kantiana: o ponto de partida O Idealismo Alemão tem uma data de nascimento simbólica: **1781**, ano da publicação da *Crítica da Razão Pura* de [Immanuel Kant](https://pt.wikipedia.org/wiki/Immanuel_Kant). Kant não pertence, em sentido restrito, ao movimento idealista que dele deriva — chamou à sua filosofia *idealismo transcendental*, e quando viu o que os seus sucessores faziam dela, denunciou-os publicamente, em 1799, no célebre *Erklärung in Beziehung auf Fichtes Wissenschaftslehre*. Mas, sem Kant, não há Idealismo Alemão: ele é o adversário-mestre, o ponto contra o qual e a partir do qual todos os outros se definem. A revolução kantiana — que o próprio Kant comparou modestamente à **revolução copernicana** — pode resumir-se assim: enquanto a filosofia anterior pretendia que o nosso conhecimento se conformasse aos objetos, Kant inverte o sentido da relação e propõe que **são os objetos que se conformam ao nosso conhecimento**. As estruturas a priori da sensibilidade (espaço e tempo) e do entendimento (as doze categorias) são as condições sob as quais qualquer experiência é possível — e por isso valem necessariamente para tudo o que pode aparecer-nos como objeto. Daqui resulta a célebre **distinção entre o fenómeno e a coisa-em-si**: conhecemos as coisas tal como elas nos aparecem (fenómenos), não tal como elas são em si mesmas (númenos). A coisa-em-si é, para Kant, *pensável* mas *incognoscível*. É contra esta tese — contra este *agnosticismo da coisa-em-si* — que todo o Idealismo Alemão posterior se organiza, num gesto que se pode descrever como **a tentativa de levar o programa crítico até às suas últimas consequências, ou de o ultrapassar pela sua radicalização**. A *Crítica da Razão Prática* (1788) e a *Crítica da Faculdade do Juízo* (1790) completam a arquitetura tricrítica kantiana — articulando a razão teórica, a razão prática (ética) e a faculdade do juízo (estética e teleologia). É sobre o terreno aberto por estas três obras que os jovens idealistas — Fichte, Schelling, Hegel, Hölderlin — vão erguer os seus próprios sistemas. --- ## Os jovens de Tubinga e o programa fundador Em 1788, três jovens excecionais entraram para o [Tübinger Stift](https://en.wikipedia.org/wiki/Tübinger_Stift) — o seminário protestante da Universidade de Tubinga, onde se formavam os clérigos e teólogos do reino de Württemberg. Tinham respetivamente vinte e três, vinte e três e treze anos: **G. W. F. [[Hegel]]**, **Friedrich Hölderlin** e **F. W. J. [[Schelling]]**. Partilharam o mesmo quarto. A história filosófica os reconheceria depois pelo nome coletivo de ***Tübingen Trinity*** — a *Trindade de Tubinga*. Os três viveram juntos os anos efervescentes da [Revolução Francesa](https://pt.wikipedia.org/wiki/Revolu%C3%A7%C3%A3o_Francesa). Em 1791 — segundo uma anedota persistente que a historiografia recente tem matizado — terão plantado, nos arredores da cidade, uma *árvore da liberdade* em homenagem ao novo regime parisiense. Liam, em conjunto, Rousseau, Kant, Schiller, os trágicos gregos. E redigiram, em algum momento entre 1796 e 1797, um documento programático que constitui, talvez, o texto fundador do Idealismo Alemão enquanto movimento articulado: ***Das älteste Systemprogramm des deutschen Idealismus*** — *O Mais Antigo Programa Sistemático do Idealismo Alemão*. ### O programa de 1796/97 O texto foi descoberto, em 1913, por Franz Rosenzweig na Biblioteca Real de Berlim, e publicado pela primeira vez em 1917. **Está na letra de [[Hegel]]**, o que durante muito tempo levou a atribuir-lho — mas a doutrina ali exposta não parece compatível com o jovem Hegel. Sucessivos comentadores propuseram outras autorias: Wilhelm Böhm sustentou em 1926 que o autor era Hölderlin; outros, com maioria contemporânea, atribuem-no a [[Schelling]]. O debate continua aberto, embora a hipótese mais provável seja a de uma **autoria conjunta dos três**, com [[Hegel]] como copista. O *Programa* é breve — pouco mais de uma página — mas notavelmente denso. Defende, em traços largos: - **A primazia da ideia da liberdade**: a primeira ideia da nova filosofia é a do Eu como ser absolutamente livre. - **A superação da metafísica especulativa tradicional** em nome de uma filosofia que seja simultaneamente teórica e prática. - **Uma filosofia da natureza** que recupere a noção de natureza como organismo vivo, contra a sua redução mecanicista. - **A primazia da estética**: o ato supremo da razão é estético — a beleza unifica todas as ideias. - **Uma nova mitologia** — *uma mitologia da razão* — que torne sensíveis as ideias filosóficas e as comunique ao povo, num projeto de emancipação cultural radical. O documento condensa, em forma germinal, praticamente todos os temas que o Idealismo Alemão desenvolveria nas duas décadas seguintes: filosofia da liberdade, filosofia da natureza, filosofia da arte, filosofia da história, projeto de uma cultura nova. Dieter Henrich chamou-lhe, com razão, *um programa de agitação*. A *Trindade de Tubinga* dispersar-se-á em breve. Schelling, prodígio precoce, é catedrático em Iena aos vinte e três anos. Hegel parte para preceptor, depois professor, finalmente catedrático em Iena também. Hölderlin trilha o caminho da poesia, com a *Hipérion* e os grandes hinos, antes de cair, em 1806, na longa noite de loucura que duraria até à morte em 1843. Os três caminhos divergiram. Mas a matriz comum da formação tubinguesa permaneceu — e modela, até hoje, a leitura que se faz do movimento. --- ## Fichte: o Eu absoluto e a Doutrina-da-Ciência Entre Kant e Schelling, há uma figura intermediária cuja importância é decisiva e cuja presença é, contudo, mais frequentemente referida do que estudada: **Johann Gottlieb Fichte** (1762-1814). Filho de tecelão, autodidata, foi descoberto por Kant em 1791 quando lhe apresentou, em manuscrito, um *Ensaio de uma Crítica de toda a Revelação* (*Versuch einer Kritik aller Offenbarung*) que Kant ajudou a publicar — anonimamente, em 1792. A obra foi inicialmente atribuída ao próprio Kant. Quando se descobriu que era de Fichte, este tornou-se, em poucos meses, uma das figuras maiores da filosofia alemã. Em 1794, com trinta e dois anos, Fichte é nomeado catedrático em Iena — então a *Meca* filosófica da Europa, onde lecionavam Reinhold, Schiller, e onde Goethe vivia. Aí publica a sua obra capital, ***Grundlage der gesamten Wissenschaftslehre*** — *Fundamentos da Doutrina-da-Ciência inteira*, 1794-95 —, primeira versão de uma obra que reescreveria sucessivamente ao longo da vida, em quinze ou mais redações, sem jamais a publicar em forma definitiva. ### A radicalização do criticismo kantiano A *Wissenschaftslehre* fichtiana é uma das mais audaciosas tentativas filosóficas de todos os tempos. Fichte propõe-se completar o projeto crítico kantiano fazendo-o derivar de **um único princípio**: o **Eu absoluto** (*absolutes Ich*) que se põe a si mesmo na primeira ato originário da consciência. O argumento, drasticamente sintetizado: - **Tese**: o Eu põe-se a si mesmo (*Ich setzt sich selbst*). - **Antítese**: o Eu opõe a si mesmo um não-Eu (*Ich setzt ein Nicht-Ich entgegen*). - **Síntese**: o Eu opõe, no Eu, ao Eu divisível um não-Eu divisível. Esta tríade — assim formulada de modo escolar, e talvez demasiado esquemático — está na origem da popularização do esquema *tese-antítese-síntese* que viria depois a ser atribuído, equivocamente, a Hegel (cf. artigo dedicado a [[Hegel]] para a discussão). Em Fichte, a operação tem um sentido preciso: deduzir, da liberdade absoluta do Eu que se autopõe, toda a estrutura da consciência, da natureza, da moral, do direito. A consequência decisiva: **a coisa-em-si kantiana é eliminada**. Não há, fora do Eu, um real opaco e inacessível. O não-Eu é uma posição do próprio Eu — uma resistência que o Eu se dá a si mesmo para poder ser livre, para ter sobre o que exercer a sua atividade. **O idealismo fichtiano é, neste sentido, o primeiro idealismo absoluto**. ### O primado da prática Para Fichte, a filosofia teórica não é fundamental: derivar-se-á da filosofia prática. *No princípio era a ação* (*Im Anfang war die Tat*), escreverá ele, parafraseando Goethe. O Eu não é uma substância contemplativa; é uma **atividade infinita**, um esforço (*Streben*) que se realiza moralmente. Esta primazia da prática inscreve em Fichte uma dimensão revolucionária e emancipatória que terá grande eco: foi sob a sua influência, em parte, que o jovem [Marx](https://pt.wikipedia.org/wiki/Karl_Marx) leria o idealismo alemão. ### Polémica do ateísmo e exílio Em 1799, Fichte é acusado de ateísmo num artigo que publicara no *Philosophisches Journal* (***Über den Grund unsers Glaubens an eine göttliche Weltregierung*** — *Sobre o Fundamento da Nossa Crença num Governo Divino do Mundo*). O escândalo — célebre na historiografia filosófica como ***Atheismusstreit*** — leva à sua demissão de Iena. Refugia-se em Berlim, onde profere, em 1807-1808, sob ocupação napoleónica, os ***Discursos à Nação Alemã*** (*Reden an die deutsche Nation*) — texto fundador, com toda a sua complexidade ulterior, de uma certa ideia política da nação alemã. Fichte morre em 1814, vítima de tifo contraído da mulher enfermeira de soldados feridos. A sua obra mais conhecida do grande público é, paradoxalmente, esta última — os *Discursos* —, mas o coração filosófico do seu pensamento permanece nas sucessivas redações da *Wissenschaftslehre*, que comentadores recentes (Frederick Beiser, Robert Pippin, Daniel Breazeale) têm restituído à sua centralidade filosófica. --- ## Schelling: do idealismo transcendental à *Naturphilosophie* O leitor encontrará tratamento detalhado de [[Schelling]] no artigo dedicado a este filósofo. Recorde-se aqui apenas o essencial para situar o seu lugar no movimento. O jovem Schelling (1775-1854) começa como fichtiano militante. Mas, desde 1797, com as *Ideias para uma Filosofia da Natureza*, desenvolve um programa próprio: a **[[Naturphilosophie|filosofia da natureza]]**, que recusa o subjetivismo fichtiano e propõe pensar a natureza como produtividade ativa, autoorganizadora, em que o espírito não é introduzido de fora — pelo Eu — mas se manifesta como o lado interior da própria natureza. *A natureza é o espírito visível; o espírito é a natureza invisível*. A partir de 1801, com a *Apresentação do Meu Sistema de Filosofia*, Schelling propõe a sua **filosofia da identidade**: sujeito e objeto, espírito e natureza, ideal e real são duas faces de uma única identidade absoluta — diferenciadas apenas quantitativamente, jamais qualitativamente. A ruptura com [[Hegel]], consumada em 1807 com o *prefácio* à *Fenomenologia do Espírito* — e o famoso aforismo demolidor sobre *a noite em que todas as vacas são pretas* —, marca o fim do primeiro Schelling. A partir daí, e sobretudo na *Spätphilosophie* berlinense (1841-1854), Schelling desenvolverá uma filosofia da existência, da mitologia e da revelação que é hoje, paradoxalmente, **a sua contribuição mais lida e influente**, redescoberta sucessivamente por Heidegger, Habermas, Žižek e [[Markus Gabriel]] (cf. [[Schelling]] e [[Ontologia dos Campos de Sentido]]). --- ## Hegel: o sistema do espírito O artigo dedicado a [[Hegel]] (1770-1831) oferece o tratamento detalhado. Importa, no quadro deste artigo, situar o seu lugar como **coroamento — e termo — do movimento idealista**. Hegel é, dos quatro idealistas, **o mais sistemático**: a sua obra propõe uma articulação completa da totalidade, em que cada momento — natureza, lógica, espírito subjetivo, espírito objetivo (família, sociedade civil, Estado), espírito absoluto (arte, religião, filosofia) — é dialeticamente derivado dos anteriores. A *Fenomenologia do Espírito* (1807), a *Ciência da Lógica* (1812-16), a *Enciclopédia das Ciências Filosóficas* (1817-1830) e os *Princípios da Filosofia do Direito* (1821) constituem juntos a apresentação mais imponente do idealismo alemão como sistema. Onde Fichte parte do Eu absoluto, e Schelling da identidade indiferente sujeito-objeto, Hegel parte do **conceito** (*Begriff*) que se desdobra dialeticamente. O movimento dialético é a auto-explicitação progressiva do absoluto, que se reconhece a si mesmo no fim do processo — no *saber absoluto* — como o ponto que continha desde o início aquilo em que se tornou. A ambição é vertiginosa: pensar **a totalidade do real como auto-desdobramento do espírito**. Foi precisamente esta ambição — que [[Schelling]] na *Spätphilosophie*, depois Kierkegaard e Marx em chaves opostas, e por fim [[Markus Gabriel]] no século XXI, recusarão de modos diferentes — que define quer a grandeza quer o limite do projeto hegeliano. --- ## Romantismo e Idealismo: uma constelação inseparável O Idealismo Alemão não pode ser pensado isoladamente da sua constelação cultural mais ampla. Em particular, está intrinsecamente entrelaçado com o **[Romantismo Alemão](https://pt.wikipedia.org/wiki/Romantismo_alem%C3%A3o)** — movimento literário, artístico e filosófico que floresce em Iena entre 1798 e 1804, e em Heidelberga e Berlim nos anos seguintes. Os principais protagonistas do círculo de Iena — os irmãos **August Wilhelm** e **Friedrich Schlegel**, **Novalis** (Friedrich von Hardenberg), **Ludwig Tieck**, **Friedrich Schleiermacher**, **Caroline Schlegel-Schelling** — partilham com os idealistas pressupostos filosóficos comuns: o privilégio dado à criatividade do sujeito, a recusa do mecanicismo, a busca do absoluto, o fascínio pela natureza orgânica, o sentido do infinito. Schelling esteve fisicamente integrado neste círculo: leccionou em Iena entre 1798 e 1803, casou com Caroline em 1803, dialogou intensamente com os Schlegel e Novalis. Hegel chegou a Iena em 1801, atraído por Schelling, e publicou aí — em colaboração com este — o *Jornal Crítico de Filosofia* (1802-1803), órgão da causa idealista contra os seus adversários (sobretudo Reinhold e os neo-kantianos). A relação é fecunda em ambos os sentidos: o romantismo absorve a filosofia idealista, e a filosofia idealista absorve as inquietações estéticas do romantismo. O *Älteste Systemprogramm*, com a sua exigência de uma *mitologia da razão*, é tão um manifesto idealista como romântico. É neste húmus cultural — herdado simultaneamente do Idealismo Alemão e do Romantismo de Iena — que vai florescer toda uma sensibilidade artística europeia: a pintura de [Caspar David Friedrich](https://paulopinto.place/Frutos/A%20experi%C3%AAncia%20do%20sublime%20na%20obra%20de%20Caspar%20David%20Friedrich), a poesia de Hölderlin, a música de Schubert e Schumann, a Naturphilosophie científica de Oken e Carus. Os comentadores costumam usar a expressão *Frühromantik* (primeiro romantismo) para designar este tempo — sublinhando, justamente, que filosofia e poesia, idealismo e romantismo, eram aí indissociáveis. --- ## A receção crítica imediata O Idealismo Alemão suscitou, desde os seus primeiros passos, oposição vigorosa. Convém destacar três adversários que marcaram a sua receção: ### Jacobi e a polémica do panteísmo Friedrich Heinrich Jacobi (1743-1819) acusou o idealismo nascente — e em particular Fichte e Schelling — de **niilismo**, num livro célebre de 1799 (*Carta a Fichte*). A acusação: a filosofia transcendental, ao derivar tudo do Eu (Fichte) ou da identidade absoluta (Schelling), dissolve o mundo real numa abstração, conduz a uma negação implícita de toda a transcendência genuína, e desemboca num panteísmo que é apenas a face teológica do niilismo filosófico. *Niilismo* — o termo é, neste momento, criação de Jacobi — entrará no vocabulário filosófico europeu com esta carga negativa. ### Schopenhauer: o contraste vitalício [Arthur Schopenhauer](https://pt.wikipedia.org/wiki/Arthur_Schopenhauer) (1788-1860), profundamente devedor de Kant, dedicou toda a vida a uma polémica feroz contra o que considerava as derivações abusivas do criticismo: contra Fichte, Schelling, e sobretudo contra Hegel, que chamou *charlatão* sem reservas. Em *O Mundo como Vontade e Representação* (1818), Schopenhauer propõe uma alternativa — assente sobre uma metafísica da Vontade — que será, durante meio século, contradiscurso minoritário. Só após 1850, com a derrota do hegelianismo, Schopenhauer ganharia o público que sempre esperara. ### Kierkegaard: a singularidade contra o sistema [Søren Kierkegaard](https://pt.wikipedia.org/wiki/Søren_Kierkegaard) (1813-1855), que assistiu pessoalmente às lições berlinenses do velho Schelling em 1841, dedicou parte essencial da sua obra a uma crítica feroz do sistema hegeliano. *O sistema da existência não pode dar-se*, repete ele: a existência singular — o indivíduo concreto, com a sua angústia, a sua fé, o seu desespero — é irredutível ao universal conceptual. Kierkegaard abre, deste modo, o caminho ao existencialismo do século XX. --- ## O fim do Idealismo Alemão? A morte de Hegel em 1831 marca, simbolicamente, o fim do Idealismo Alemão clássico — embora Schelling continue a publicar lições até 1854. A geração seguinte fragmenta a herança em direções divergentes: ### Os hegelianos de direita e de esquerda A escola hegeliana cinde-se rapidamente. A **direita hegeliana** (David Strauss em momentos iniciais, Karl Rosenkranz, Bruno Bauer no começo da carreira) procura preservar a interpretação teológica e politicamente conservadora do sistema. A **esquerda hegeliana** (Ludwig Feuerbach, Max Stirner, [Karl Marx](https://pt.wikipedia.org/wiki/Karl_Marx), Friedrich Engels) radicaliza a dialética em direção materialista e revolucionária. **Marx**, em particular, propõe-se *colocar a dialética de cabeça para cima*, recolocando-a sobre os pés materiais da história e da economia — gesto que é, simultaneamente, herança e ultrapassagem. ### A reação positivista e neo-kantiana A partir de meados do século XIX, o positivismo (Comte, Mill) e, sobretudo na Alemanha, o **neokantismo** (Hermann Cohen, Paul Natorp, Heinrich Rickert) reagem ao excesso especulativo idealista com a divisa *de volta a Kant!* (*zurück zu Kant!*). O Idealismo Alemão entra num longo período de eclipse, do qual só sairá no século XX, com Lukács, com a Escola de Frankfurt (Adorno, Marcuse, Habermas), e finalmente com o ressurgimento contemporâneo a que assistimos hoje. --- ## O ressurgimento contemporâneo Desde os anos 1960, o Idealismo Alemão regressa, com força crescente, ao centro do debate filosófico. Três grandes linhas devem ser destacadas. ### A leitura analítica: Pippin, Pinkard, Brandom No espaço anglófono, **Robert Pippin** (*Hegel's Idealism*, 1989), **Terry Pinkard** (*Hegel's Phenomenology*, 1994; *Hegel: A Biography*, 2000) e sobretudo **Robert Brandom** (*A Spirit of Trust*, 2019) propõem uma leitura inferencialista, pragmática e normativa de Hegel — frequentemente alargada a Kant — que dialoga com a melhor tradição da filosofia analítica. Para Brandom, Hegel é, antes de tudo, o filósofo da normatividade racional e do *espaço dos motivos*. ### A leitura lacaniana e materialista: Žižek No espaço continental, **[Slavoj Žižek](https://pt.wikipedia.org/wiki/Slavoj_%C5%BDi%C5%BEek)** opera, desde os anos 1980, uma releitura sistemática do Idealismo Alemão em chave lacaniana. Em *The Indivisible Remainder* (1996), *The Ticklish Subject* (1999) e sobretudo *Less Than Nothing: Hegel and the Shadow of Dialectical Materialism* (2012), Žižek mobiliza Hegel — e o último Schelling — para refundar uma forma renovada de materialismo dialético, em diálogo com a psicanálise lacaniana. ### O Novo Realismo e a Naturphilosophie revisitada No contexto do [[Novo Realismo]] e do [[Realismo Especulativo]], o Idealismo Alemão é reabilitado em registos diversos. **[[Markus Gabriel]]** retoma de Hegel a noção de *espírito objetivo* como dimensão real e irredutível da socialidade humana; e de Schelling, sobretudo na sua tese de doutoramento sobre a *Filosofia da Mitologia*, a noção de uma filosofia que não pode encerrar a totalidade num sistema. **Iain Hamilton Grant**, em *Philosophies of Nature after Schelling* (2006), recupera a *Naturphilosophie* schellinguiana como matriz para uma filosofia da natureza contemporânea, livre do antropocentrismo correlacionista. --- ## A unidade do movimento: o que une os idealistas alemães? Apesar das divergências profundas entre Fichte, Schelling e Hegel — e apesar do distanciamento de [[Kant]] relativamente aos seus sucessores —, há um conjunto de teses estruturais que define o Idealismo Alemão enquanto movimento. 1. **Primazia da razão e do conceito**: contra todo o empirismo reducionista, a razão tem acesso à estrutura mais íntima do real, e essa estrutura é conceptual. 2. **Crítica do agnosticismo kantiano da coisa-em-si**: o real é conhecível na sua essência, não apenas nos seus fenómenos. 3. **Sistema como ideal filosófico**: a verdade só pode dar-se sistematicamente, na articulação total dos seus momentos. *A verdade é o todo* (Hegel) — divisa que tanto Fichte quanto Schelling subscreveriam. 4. **Liberdade como ponto fundamental**: a filosofia do Eu, do espírito ou do absoluto é sempre, ao mesmo tempo, uma filosofia da liberdade. O Idealismo Alemão é a filosofia da Revolução Francesa pensada nos seus pressupostos. 5. **Dialética como método ou movimento próprio do real**: cada conceito gera, do seu interior, o seu oposto, e ambos são integrados num conceito superior. A oposição não é destruição: é articulação produtiva. 6. **Unidade última entre pensar e ser**: a estrutura do real e a estrutura do pensamento são, em última instância, a mesma coisa. *O que é racional é real; o que é real é racional* (Hegel, *Filosofia do Direito*). 7. **Filosofia da história e do espírito**: o Idealismo Alemão é o primeiro grande pensamento filosófico para o qual a história não é acidente exterior à razão, mas o lugar mesmo em que a razão se desenrola. Estas sete teses, articuladas de modo distinto em cada um dos autores, constituem **a substância especulativa do movimento**. --- ## O Idealismo Alemão neste jardim O Idealismo Alemão é, neste jardim digital, **a matriz histórica e conceptual de boa parte da constelação que aqui se vem constituindo**: - Em [[Markus Gabriel]], ele é fonte declarada — através da tese de doutoramento sobre [[Schelling]] —, e a [[Ontologia dos Campos de Sentido]] retoma de Hegel (parcialmente, criticamente) o conceito de espírito objetivo. - No [[Realismo Especulativo]], **Iain Hamilton Grant** recupera a *Naturphilosophie* schellinguiana como antídoto contra o correlacionismo pós-kantiano. - Nos artigos individuais sobre [[Hegel]] e [[Schelling]], o Idealismo Alemão é o contexto que torna inteligível a sua obra. - Na monografia sobre [Caspar David Friedrich](https://paulopinto.place/Frutos/A%20experi%C3%AAncia%20do%20sublime%20na%20obra%20de%20Caspar%20David%20Friedrich), o classicismo de Weimar e a filosofia da tragédia partilhada por Schiller, Hegel, Schelling e Hölderlin enquadram a estética do sublime friedrichiano. Quem percorrer estes artigos perceberá rapidamente que o Idealismo Alemão **não é tópico filosófico entre outros**: é o ponto de articulação em torno do qual se organiza, em larga medida, a filosofia contemporânea que neste jardim se cultiva. --- ## Recursos audiovisuais ### Vídeos e palestras - 🎥 **[Robert Pippin — Lectures on Hegel and German Idealism](https://www.youtube.com/results?search_query=Robert+Pippin+German+Idealism)** — Conferências por um dos comentadores anglófonos mais respeitados. - 🎥 **[Terry Pinkard — The Course of German Idealism](https://www.youtube.com/results?search_query=Terry+Pinkard+German+Idealism)** — Apresentações da história e da continuidade entre Kant, Fichte, Schelling e Hegel. - 🎥 **[Slavoj Žižek — Lectures on Hegel and German Idealism](https://www.youtube.com/results?search_query=Slavoj+Zizek+German+Idealism)** — Žižek em chave lacaniana e materialista. - 🎥 **[Markus Gabriel — German Idealism and the New Realism](https://www.youtube.com/results?search_query=Markus+Gabriel+German+Idealism)** — Várias intervenções recentes que articulam o legado idealista com o [[Novo Realismo]]. ### Textos online - 📄 **[Verbete *German Idealism* na Stanford Encyclopedia of Philosophy](https://plato.stanford.edu/entries/hegel/)** — Síntese de referência. - 📄 **[*The Oldest Systematic Program of German Idealism* — texto bilingue](https://archive.org/details/the-oldest-system-program-of-german-idealism-en-de-1797)** — O documento fundador, em alemão e inglês, no Internet Archive. - 📄 **[Verbete *Friedrich Heinrich Jacobi* na Stanford Encyclopedia of Philosophy](https://plato.stanford.edu/entries/friedrich-jacobi/)** — Para a polémica do panteísmo. - 📄 **[Verbete *Johann Gottlieb Fichte* na Stanford Encyclopedia of Philosophy](https://plato.stanford.edu/entries/johann-fichte/)** — Síntese da obra fichtiana. --- ## Bibliografia essencial ### Obras dos protagonistas - Immanuel [[Kant]], *Crítica da Razão Pura* (1781). Trad. Manuela Pinto dos Santos e Alexandre Fradique Morujão, FCG, Lisboa. - J. G. Fichte, *A Doutrina-da-Ciência de 1794*. Trad. Rubens Rodrigues Torres Filho, em *Os Pensadores*, Abril Cultural. - F. W. J. [[Schelling]], *Sistema do Idealismo Transcendental* (1800). Trad. Carlos Morujão, INCM, Lisboa. - G. W. F. [[Hegel]], *Fenomenologia do Espírito* (1807). Trad. Paulo Meneses, Vozes / Editora Universitária São Francisco. - *O Mais Antigo Programa Sistemático do Idealismo Alemão* (1796/97). Trad. portuguesa em coletâneas. ### Estudos panorâmicos clássicos - Frederick Beiser, *German Idealism: The Struggle Against Subjectivism, 1781-1801*. Cambridge, MA: Harvard UP, 2002. - Frederick Beiser, *The Fate of Reason: German Philosophy from Kant to Fichte*. Harvard UP, 1987. - Terry Pinkard, *German Philosophy 1760-1860: The Legacy of Idealism*. Cambridge UP, 2002. - Karl Ameriks (ed.), *The Cambridge Companion to German Idealism*. Cambridge UP, 2000. ### Estudos por autor - Robert Pippin, *Hegel's Idealism: The Satisfactions of Self-Consciousness*. Cambridge UP, 1989. - Daniel Breazeale, *Thinking Through the Wissenschaftslehre: Themes from Fichte's Early Philosophy*. Oxford UP, 2013. - Andrew Bowie, *Schelling and Modern European Philosophy*. London: Routledge, 1993. - Dieter Henrich, *Between Kant and Hegel: Lectures on German Idealism*. Harvard UP, 2003. ### Contemporâneo - Robert Brandom, *A Spirit of Trust: A Reading of Hegel's Phenomenology*. Harvard UP, 2019. - Slavoj Žižek, *Less Than Nothing: Hegel and the Shadow of Dialectical Materialism*. London: Verso, 2012. - Markus Gabriel & Slavoj Žižek, *Mythology, Madness and Laughter: Subjectivity in German Idealism*. Continuum, 2009. - Markus Gabriel, *Der Mensch im Mythos*. De Gruyter, 2006. --- ## Hiperligações internas neste jardim - [[Kant]] - [[Hegel]] - [[Schelling]] - [[Markus Gabriel]] - [[Novo Realismo]] - [[Realismo Especulativo]] - [[Ontologia dos Campos de Sentido]] - [[Pluralismo Ontológico]] - [[Ontologia]] - [[Epistemologia]] - [[Naturphilosophie]] - [[Romantismo Alemão]] - [[Filosofia Continental]] - [[Dialética]] - [[Aufhebung]] - [[Fichte]] - [[Hölderlin]] - [[Marx]] - [[Kierkegaard]] - [[Schopenhauer]] --- ## Notas finais Há épocas filosóficas que se reconhecem pela **densidade do que nelas se pensa** — pela concentração, num espaço-tempo restrito, de obras que cada uma, isoladamente, bastaria para definir um pensamento maior. O Idealismo Alemão é uma dessas épocas. Entre a publicação da *Crítica da Razão Pura* (1781) e a morte de Hegel (1831), foram pensados, articulados, contestados e reformulados problemas que continuam a estruturar a filosofia atual: o sentido do conhecimento, a relação entre liberdade e natureza, a natureza do espírito, a constituição da socialidade, a presença do absoluto na história, o papel da arte na vida humana. Estes problemas não foram resolvidos. Talvez não possam sê-lo. Mas foram **formulados com uma precisão e uma radicalidade que ainda hoje, dois séculos depois, não foi superada**. É por isto que toda a filosofia continental posterior — de Marx a Heidegger, de Adorno a Žižek, de Habermas a [[Markus Gabriel]] — se constitui, em larga medida, **como diálogo continuado com a herança idealista**. Pensar com o Idealismo Alemão, pensar contra ele, pensar para além dele: nas três modalidades, a filosofia continua a alimentar-se daquela extraordinária constelação de pensadores que, entre Königsberg e Tubinga, entre Iena e Berlim, entre um seminário protestante e uma cátedra prussiana, ousaram **pensar a totalidade do real como exigência da própria razão livre**. Que essa totalidade seja, talvez, impossível — como sustentará dois séculos mais tarde [[Markus Gabriel]], no seu argumento contra o mundo — não diminui a grandeza da ambição. Pelo contrário: **só perante essa ambição, mesmo recusando-a, é que se pode medir a estatura do que veio depois**. > *Ignorantia non est argumentum.* --- *#filosofia #idealismo-alemão #frutos*