# Kant > *Sapere aude!* > *- **Ousa saber!*** > Immanuel Kant, **Resposta à pergunta: O que é o Iluminismo?** (1784) ![Retrato de Immanuel Kant, gravura por A. L. Zeelander, século XIX](https://iiif.wellcomecollection.org/image/V0003178/full/800,/0/default.jpg) <sub>*Retrato de **Immanuel Kant** em gravura por Abraham Lion Zeelander (1789-1856), século XIX. Imagem da [Wellcome Collection](https://wellcomecollection.org/works/sfxtfbtz), [CC BY 4.0](https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/).*</sub> --- ## Apontamento biográfico **Immanuel Kant** nasceu a 22 de abril de 1724 em [Königsberg](https://pt.wikipedia.org/wiki/K%C3%B6nigsberg), capital da Prússia Oriental - hoje Kaliningrado, enclave russo no Báltico -, e aí morreu a 12 de fevereiro de 1804. **Da cidade onde nasceu, jamais se afastou mais de cento e cinquenta quilómetros em oitenta anos de vida.** A imobilidade biográfica contrasta de modo tão flagrante com a amplitude da viagem intelectual que dela emergiu que se tornou ela própria parte da lenda kantiana: uma das mais ambiciosas reformas do pensamento ocidental foi pensada por um homem que nunca viu o mar, nunca viu uma montanha, nunca pôs os pés fora da sua província. Filho de um seleiro de origem escocesa e de uma mãe pietista - Anna Regina -, Kant cresceu num lar de luteranismo austero. O pietismo dará à sua filosofia um cunho duradouro, sobretudo na ética: o sentido do dever, a interioridade da consciência moral, a recusa do conformismo religioso aparente. Estudou na Universidade de Königsberg desde 1740, primeiro com inclinação para a filosofia natural - leu intensamente Newton -, depois para a metafísica de tradição leibniziano-wolffiana. A morte do pai obrigou-o, em 1746, a interromper os estudos e a trabalhar como preceptor durante quase uma década, nos arredores rurais da cidade. Só em 1755 regressou à universidade como *Privatdozent* (docente livre, sem cátedra), com a dissertação *Principiorum primorum cognitionis metaphysicae nova dilucidatio*. Manter-se-ia neste estatuto humilde, leccionando todos os semestres, durante **quinze anos**. Em 1770, com quarenta e seis anos, foi finalmente nomeado catedrático de Lógica e Metafísica em Königsberg, com a *Dissertatio de mundi sensibilis atque intelligibilis forma et principiis* (*Sobre a forma e os princípios do mundo sensível e do inteligível*) - texto que marca uma viragem decisiva. Seguir-se-ia o que os comentadores chamam o ***silenzioso decennio*** (1770-1781): onze anos de quase total silêncio editorial, durante os quais Kant elaborou, no quase isolamento intelectual da sua cidade, a obra que mudaria a história da filosofia. A 1781, com cinquenta e sete anos, publicou a ***Kritik der reinen Vernunft*** - a **[Crítica da Razão Pura](https://pt.wikipedia.org/wiki/Cr%C3%ADtica_da_Raz%C3%A3o_Pura)**. A partir desse ano, e até 1798, produziria uma obra cuja densidade não tem rival nos anais modernos: as três *Críticas*, os pequenos escritos sobre a religião, sobre a história, sobre a política, sobre a paz perpétua, sobre o Iluminismo. Quando morreu, em 1804, **deixava praticamente refeita a agenda filosófica do Ocidente** - refundada a metafísica, a epistemologia, a ética, a estética, a filosofia política, a filosofia da religião. Poucos filósofos podem ostentar curriculum semelhante. A vida quotidiana de Kant era de uma regularidade tão estrita que os habitantes de Königsberg, conta-se, acertavam os relógios pelo seu passeio vespertino - uma anedota provavelmente apócrifa mas reveladora do mito. Nunca casou. Comeu sozinho durante décadas, antes de - segundo o testemunho do seu biógrafo Borowski - descobrir, em meados da vida, o prazer da conversação à mesa, que cultivou até ao fim. Foi um homem sociável, espirituoso, leitor voraz de relatos de viagens (ele que nunca viajava), interessado pela astronomia, pela geografia física, pela antropologia. **Era um cosmopolita preso a uma cidade.** --- ## O período pré-crítico Como é hábito na historiografia kantiana, a obra divide-se em dois grandes períodos: o **pré-crítico** (até 1770) e o **crítico** (a partir de 1781). O período intermediário - o *decénio do silêncio* - corresponde à gestação do segundo. O Kant pré-crítico é um pensador de tradição leibniziano-wolffiana, autor de obras de filosofia natural e de metafísica especulativa. Os títulos mais notáveis: - *Pensamentos sobre a verdadeira avaliação das forças vivas* (1747) - primeira obra publicada, sobre física newtoniana. - *História geral da natureza e teoria do céu* (1755) - antecipa, com base apenas em hipóteses newtonianas, a chamada *hipótese de Kant-Laplace* sobre a formação do sistema solar a partir de uma nebulosa primordial. Notável intuição cosmológica para a época. - *O único fundamento possível de uma demonstração da existência de Deus* (1763) - onde Kant, embora dentro do quadro racionalista, já mostra reservas quanto à prova ontológica. - *Sonhos de um visionário explicados pelos sonhos da metafísica* (1766) - sátira do espiritualismo de Swedenborg, que esconde uma crítica corrosiva à própria metafísica racionalista. - *Dissertatio* (1770) - viragem: Kant distingue rigorosamente o mundo sensível (governado por espaço e tempo, formas da intuição) do mundo inteligível (acessível só ao intelecto puro), antecipando temas centrais da *Crítica*. O período pré-crítico testemunha um Kant em busca, ainda dentro de quadros herdados. **A verdadeira revolução vem depois.** --- ## A reviravolta crítica Em junho de 1771, numa carta a Marcus Herz, Kant anuncia que está a trabalhar numa obra sobre *os limites da sensibilidade e da razão*. Pensava completá-la em meses. Levou dez anos. O acontecimento intelectual decisivo destes anos é a leitura de [David Hume](https://pt.wikipedia.org/wiki/David_Hume), e em particular do **problema da causalidade**. Hume tinha mostrado, na *Investigação sobre o Entendimento Humano* (1748), que **a causalidade não é dada pela experiência**: vejo o primeiro bilhar tocar o segundo e vejo o segundo mover-se, mas a *necessidade* da ligação entre os dois eventos - *o segundo move-se porque o primeiro o tocou* - nunca a vejo. A necessidade causal é uma adição da mente, um hábito psicológico, e o seu fundamento racional é, no fim, nulo. A consequência humeana é cética: toda a ciência empírica assenta sobre um fundamento que a razão não consegue justificar. Kant lê Hume - provavelmente nas paráfrases que dele dá Beattie, e mais tarde no próprio texto - e, segundo a sua confissão célebre no *Prolegómenos a toda a Metafísica Futura* (1783), **é despertado do seu sono dogmático**. Não pode aceitar a conclusão cética humeana - porque a ciência newtoniana funciona, indubitavelmente, e funciona com leis universais e necessárias -, mas reconhece que o problema humeano é genuíno e exige uma resposta de fundo. Como podem haver, na nossa cognição, juízos que sejam simultaneamente **necessários** (não derivados da contingência empírica) e **informativos** (não meras tautologias)? A pergunta tornar-se-á a pergunta-rainha de toda a *Crítica da Razão Pura*: ***como são possíveis os juízos sintéticos a priori?*** --- ## A revolução copernicana A resposta kantiana à pergunta humeana é o que ele próprio, no prefácio à segunda edição (1787) da *Crítica*, designará pela analogia da **revolução copernicana**. Tal como Copérnico, perante a impossibilidade de explicar os movimentos celestes a partir da imobilidade do observador terrestre, inverteu a perspetiva e fez o observador girar enquanto os corpos ficavam quietos, Kant inverte a relação tradicional entre sujeito e objeto: > *Até hoje supôs-se que todo o nosso conhecimento se devia regular pelos objetos. Mas, partindo deste pressuposto, malograram-se todas as tentativas de mediante conceitos saber algo a priori sobre os objetos. Tente-se, pois, uma vez se não progrediremos melhor nos problemas da metafísica, supondo que os objetos se devem regular pelo nosso conhecimento.* > > - Kant, *Crítica da Razão Pura*, B XVI O sentido da reviravolta: em vez de pensar o conhecimento como conformação do espírito a um real previamente dado, Kant propõe pensá-lo como conformação do real às estruturas do espírito. **Não somos espelhos passivos do mundo; somos legisladores ativos da experiência**. O que conhecemos não são as coisas tais como elas são em si mesmas, mas tais como nos aparecem - e nos aparecem necessariamente segundo as estruturas a priori da nossa sensibilidade (espaço e tempo) e do nosso entendimento (as doze categorias). Esta inversão **explica de uma só vez** porque há juízos sintéticos a priori. Se as estruturas espaciais, temporais e categoriais não estão *nas coisas* mas em *nós*, então elas valem necessariamente para tudo o que nos pode aparecer como objeto. A geometria euclidiana descreve necessariamente o espaço - porque o espaço é forma a priori da nossa sensibilidade. A causalidade vincula necessariamente todos os eventos - porque a causalidade é uma das categorias do entendimento, condição da própria experiência. Mas o preço é elevado: aquilo que ganhamos em certeza para os fenómenos, perdemo-lo em acesso ao em-si. **A coisa-em-si (*Ding an sich*) é pensável, mas incognoscível.** É contra este *agnosticismo do númeno* que todo o [[Idealismo Alemão]] posterior - Fichte, [[Schelling]], [[Hegel]] - irá rebelar-se, e contra o qual, mais de dois séculos depois, [[Markus Gabriel]] no [[Novo Realismo]] e Meillassoux no [[Realismo Especulativo]] continuam a polemizar. --- ## A *Crítica da Razão Pura* Publicada em 1781 (edição A), profundamente revista em 1787 (edição B), a *Crítica da Razão Pura* é o monumento central da filosofia kantiana e, por consenso largo, **uma das mais difíceis e influentes obras da filosofia ocidental**. A sua arquitetura geral organiza-se em duas grandes partes, depois da introdução: a **Doutrina Transcendental dos Elementos** e a **Doutrina Transcendental do Método**. A doutrina dos elementos subdivide-se ainda em: ### Estética Transcendental Estuda a **sensibilidade** e as suas formas a priori: **o espaço e o tempo**. Kant argumenta que espaço e tempo não são propriedades das coisas em si, nem conceitos abstratos derivados da experiência, mas **formas a priori da intuição sensível** - condições sob as quais qualquer objeto pode aparecer-nos. O espaço é a forma da intuição externa; o tempo, a forma da intuição interna. Por isso a geometria (ciência do espaço) e a aritmética (Kant pensava-a como ciência do tempo) são sintéticas a priori: universais e necessárias, mas informativas. ### Analítica Transcendental Estuda o **entendimento** e os seus conceitos puros: **as doze categorias** - substância, causalidade, possibilidade, e assim sucessivamente, organizadas em quatro grupos de três (quantidade, qualidade, relação, modalidade). As categorias não são derivadas da experiência; são condições da experiência. Sem elas, o múltiplo dos dados sensíveis seria um caos indiferenciado. O coração técnico da Analítica é a **Dedução Transcendental** - uma das peças mais difíceis e mais comentadas de toda a filosofia ocidental -, que pretende mostrar **porque as categorias se aplicam necessariamente a toda a experiência possível**. O argumento culmina na noção de **unidade transcendental da apercepção**: o *eu penso* que tem de poder acompanhar todas as minhas representações, garantindo a unidade da consciência sem a qual nenhum objeto pode ser pensado como objeto. ### Dialética Transcendental Esta é a parte negativa, e nem por isso menos importante. Kant mostra que a razão, **quando se aventura para além dos limites da experiência possível**, cai inevitavelmente em contradições. As três grandes ilusões da metafísica clássica são desmontadas: - A **psicologia racional** (alma como substância imortal) - refutada nos *paralogismos da razão pura*. - A **cosmologia racional** (mundo como totalidade) - abalada pelas quatro **antinomias da razão pura**, em que teses opostas (o mundo é finito / infinito; tudo é causalmente determinado / há liberdade; etc.) podem ser ambas defendidas com a mesma força argumentativa. - A **teologia racional** (provas filosóficas da existência de Deus) - refutadas uma a uma: a prova ontológica, a cosmológica, a físico-teológica. A Dialética é particularmente significativa: nela Kant **desfere o golpe mortal na metafísica especulativa tradicional** que vinha de Wolff, de Leibniz, da escolástica. A coisa-em-si, a alma, o mundo como totalidade, Deus - todos eles são pensáveis, mas o seu conhecimento positivo excede irremediavelmente as nossas capacidades. --- ## A *Crítica da Razão Prática* e a ética kantiana Em 1788, Kant publica a ***Kritik der praktischen Vernunft*** - *Crítica da Razão Prática* -, complementada já antes pela curta mas fundamental ***Fundamentação da Metafísica dos Costumes*** (1785). Aqui o tema é outro: depois de fixar os limites do conhecimento, Kant pergunta-se pelos fundamentos da ação moral. A tese central da ética kantiana é tão simples na formulação quanto exigente nas consequências: **uma ação só tem valor moral se for praticada por dever, e não por inclinação, por interesse ou por consequências esperadas**. O critério não é a felicidade que da ação resulte (como queria o utilitarismo nascente), nem o cumprimento de uma natureza dada (como queria o aristotelismo), mas a **conformidade com a lei moral** que a razão prática impõe a si mesma. A formulação dessa lei é o famosíssimo **imperativo categórico**: > *Age só segundo uma máxima tal que possas ao mesmo tempo querer que ela se torne lei universal.* E, numa segunda formulação igualmente célebre, a **fórmula da humanidade**: > *Age de tal modo que uses a humanidade, tanto na tua pessoa como na pessoa de qualquer outro, sempre e simultaneamente como fim e nunca apenas como meio.* A ética kantiana é assim uma **ética deontológica**: o que importa não são os resultados das ações (deontologia *versus* consequencialismo) mas a sua estrutura intencional. A pessoa humana, enquanto ser racional capaz de auto-legislação moral, possui uma **dignidade** (*Würde*) - não um preço - que a torna fim em si mesma. Esta é a base filosófica de toda a teoria moderna dos direitos humanos. Kant introduz ainda, na *Crítica da Razão Prática*, três **postulados da razão prática**: a **liberdade** da vontade (sem a qual a moralidade seria impossível), a **imortalidade da alma** (necessária para a possibilidade do bem supremo) e a **existência de Deus** (como garante da realização do bem supremo). Não são teoremas - não podem sê-lo, depois da Dialética da primeira *Crítica* -, mas exigências da razão prática. --- ## A *Crítica da Faculdade do Juízo* e a estética kantiana Em 1790, Kant publica a terceira e última grande *Crítica*: a ***Kritik der Urteilskraft*** - *Crítica da Faculdade do Juízo*. A obra divide-se em duas partes principais: a *Crítica do Juízo Estético* e a *Crítica do Juízo Teleológico*. A estética kantiana é, com Hume e com Burke, um dos pilares fundadores da disciplina moderna. As suas teses centrais: - O **juízo de gosto** (*isto é belo*) tem uma estrutura paradoxal: é **subjetivo** (não decorre da aplicação de um conceito) e **universal** (pretende valer para todos). Não é a sensação privada de prazer, mas uma exigência da razão de que o outro partilhe do meu sentimento perante o belo. - O **belo** é o que apraz sem conceito e sem interesse: contemplo a obra de arte ou a flor sem desejar possuí-la, sem aplicar-lhe uma regra fixa. - O **sublime**, distinto do belo, surge quando a imaginação se vê confrontada com o absolutamente grande (sublime matemático) ou o absolutamente poderoso (sublime dinâmico) - perante as estrelas, perante a tempestade, perante a montanha - e descobre, na sua incapacidade de representar, a grandeza da sua própria destinação racional. **Foi esta noção kantiana do sublime que viria a dar contornos filosóficos à pintura de [Caspar David Friedrich](https://paulopinto.place/Frutos/A%20experi%C3%AAncia%20do%20sublime%20na%20obra%20de%20Caspar%20David%20Friedrich)** - cf. monografia dedicada neste jardim. A *Crítica do Juízo Teleológico*, por sua vez, lida com a questão da finalidade na natureza - em particular dos organismos vivos, que não podem ser inteiramente reduzidos ao mecanicismo. Sem afirmar que há, na natureza, fins reais, Kant sustenta que somos *forçados* a pensá-la *como se* nela houvesse finalidade. Esta tese terá enorme influência sobre toda a *[[Naturphilosophie]]* posterior. A *Crítica do Juízo* é, em larga medida, o livro-charneira do sistema kantiano: nele se procura **a articulação entre o reino da natureza (objeto da primeira Crítica) e o reino da liberdade (objeto da segunda)**, através de um *terceiro* (a faculdade do juízo) que vê na beleza e na vida sinais de uma possível harmonia entre os dois domínios. --- ## Os pequenos escritos: política, história, religião Para além das três *Críticas*, Kant produziu uma série de textos breves de extraordinária densidade, que constituem alguns dos mais influentes documentos do pensamento iluminista. ### *Resposta à pergunta: O que é o Iluminismo?* (1784) Talvez o mais célebre dos pequenos escritos. Kant define o Iluminismo como **a saída do homem da sua menoridade autoinfligida**, e propõe a divisa **sapere aude!** - *ousa saber!* - como mote do programa iluminista. A liberdade requerida é precisamente a do **uso público da razão**, sem tutelas eclesiásticas ou políticas. É um dos textos fundadores da modernidade política. ### *Ideia para uma história universal de um ponto de vista cosmopolita* (1784) Esboça uma **filosofia da história** em chave teleológica: a humanidade caminha, através de conflitos e contradições - *a insociável sociabilidade* dos homens -, em direção a uma constituição civil perfeita e a uma federação de Estados livres. Texto antecipador do pensamento sobre os direitos humanos e a comunidade internacional. ### *À Paz Perpétua* (1795) Talvez o mais visionário texto político kantiano. Esboça os princípios de uma **federação republicana mundial** que possa pôr fim à guerra. Os artigos definitivos - todas as constituições devem ser republicanas; o direito internacional deve fundar-se numa federação de Estados livres; o direito cosmopolita deve permitir-se à hospitalidade universal - antecipam, em mais de um século e meio, a Sociedade das Nações, a Organização das Nações Unidas, a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Foi um texto seminal para [Hans Kelsen](https://pt.wikipedia.org/wiki/Hans_Kelsen), para [Jürgen Habermas](https://pt.wikipedia.org/wiki/J%C3%BCrgen_Habermas), para [John Rawls](https://pt.wikipedia.org/wiki/John_Rawls). ### *A Religião nos Limites da Simples Razão* (1793) Trata-se de obra controversa, que valeu a Kant uma admoestação régia do novo monarca prussiano, Frederico Guilherme II. Kant aí defende uma religião **dentro dos limites da razão prática** - sem dogmas revelados, sem milagres, fundada apenas no imperativo moral. **Não é deísmo, mas também não é cristianismo ortodoxo.** Antecipa boa parte da teologia liberal protestante do século XIX. --- ## Conceitos centrais Atravessar a filosofia kantiana exige a familiaridade com um vocabulário técnico que se tornou, em larga medida, **a língua-mãe da filosofia continental moderna**. ### *A priori* / *a posteriori* Conhecimentos **a priori** são independentes da experiência (geometria, matemática, princípios metafísicos); **a posteriori** dependem dela (todas as informações empíricas). A distinção é tradicional, mas Kant articula-a com a seguinte. ### Analítico / sintético **Analíticos** são os juízos em que o predicado já está contido no sujeito (*os solteiros não são casados*) - são tautológicos. **Sintéticos** são aqueles em que o predicado acrescenta algo ao sujeito (*há um livro sobre a mesa*) - são informativos. Combinando as duas distinções, obtêm-se quatro casos: - **Analíticos a priori** - *os corpos são extensos* - tautológicos, certos. - **Sintéticos a posteriori** - *este corpo é pesado* - empíricos, falíveis. - **Analíticos a posteriori** - categoria vazia, sem realizações. - **Sintéticos a priori** - *7+5=12*; *todo o evento tem uma causa*. O caso decisivo: informativos e necessários. **Como são possíveis?** Esta é a pergunta-mãe da *Crítica*. ### Transcendental Termo técnico fundamental. **Transcendental** não significa *transcendente*. Em Kant, *transcendental* designa **as condições a priori da experiência possível** - aquilo que torna possível o conhecimento, sem ser ele próprio um objeto empírico do conhecimento. A *estética transcendental* não estuda objetos belos; estuda as condições a priori da sensibilidade. A *dedução transcendental* não deduz uma religião; legitima a aplicação das categorias. ### Fenómeno / Númeno **Fenómenos** são as coisas tal como nos aparecem, sob as formas a priori da sensibilidade e do entendimento; **númenos** (ou *coisas-em-si*) são as coisas tal como elas seriam independentemente da nossa cognição. **O númeno é pensável, mas incognoscível**. A distinção é o coração do *idealismo transcendental* kantiano - e o ponto contra o qual se rebelará todo o [[Idealismo Alemão]] posterior. ### Imperativo categórico / imperativo hipotético **Imperativos hipotéticos** são condicionais (*se queres ser saudável, faz exercício*); **imperativos categóricos** são incondicionais (*não mintas*). Só este último é propriamente moral. ### Heteronomia / Autonomia Vontade **heterónoma** é a que se determina por uma causa exterior (inclinação, interesse, autoridade); vontade **autónoma** é a que se determina pela lei moral que a si mesma se dá. **Autonomia é a fórmula da liberdade kantiana** - e o conceito central da modernidade ética. --- ## Polémicas e controvérsias A obra de Kant foi, desde o início, objeto de polémicas vigorosas que importa registar. ### Em vida: a contestação contemporânea Já nos primeiros anos pós-1781, Kant foi objeto de objeções poderosas: Garve e Feder acusaram-no de idealismo subjetivo (à maneira de Berkeley); Jacobi formulou a célebre objeção da coisa-em-si - *sem a coisa-em-si não se pode entrar no sistema kantiano; com a coisa-em-si não se pode permanecer nele*; Schulze (em *Aenesidemus*, 1792) levantou objeções céticas devastadoras. Foi para responder a estas críticas que Kant reescreveu profundamente, em 1787, a segunda edição da *Crítica*, introduzindo a famosa *Refutação do Idealismo*. ### A herança dividida A história da filosofia ocidental subsequente pode ser lida, em larga medida, **como série de respostas à filosofia kantiana**. Esquematizemos as principais linhas: - **A radicalização idealista** - Fichte, [[Schelling]], [[Hegel]] -, que recusa o agnosticismo da coisa-em-si e procura levar o programa kantiano até às suas últimas consequências (cf. [[Idealismo Alemão]]). - **A reação romântica** - Jacobi, Hamann, Herder -, que vê em Kant um racionalismo excessivo e procura reabilitar a fé, o sentimento, a história. - **O materialismo crítico** - [Karl Marx](https://pt.wikipedia.org/wiki/Karl_Marx) e seus herdeiros -, que retomam o gesto crítico kantiano mas o aplicam às condições materiais e sociais do conhecimento. - **O neokantismo** - Hermann Cohen, Paul Natorp, Heinrich Rickert -, que a partir de 1860 propõe um *de volta a Kant!* (*zurück zu Kant!*) contra os excessos especulativos do idealismo. Dominará a filosofia académica alemã até cerca de 1920. - **A fenomenologia** - Husserl, Heidegger -, que herda do transcendentalismo kantiano o método mas o transforma. - **A filosofia analítica** - Strawson, Bennett, Putnam, McDowell, Brandom -, que retoma Kant como interlocutor central da metaepistemologia contemporânea. Em todas estas direções, Kant é **a fonte ou o adversário**. Raros são os filósofos modernos que escapam ao seu magnetismo. ### As acusações de eurocentrismo e racismo A receção crítica recente tem dado especial atenção a passagens problemáticas dos textos antropológicos kantianos - sobretudo na *Antropologia de um ponto de vista pragmático* (1798) e nas *Lições de geografia física* - que contêm formulações de **estereótipos raciais profundamente perturbadores**. A discussão dividiu os comentadores: para alguns (Pauline Kleingeld, em particular), Kant teria evoluído ao longo da vida, desligando-se progressivamente das suas posições racistas mais cruas em prol do universalismo moral que se tornaria a marca da sua filosofia madura; para outros (Robert Bernasconi, Charles Mills), o racismo é mais sistemático na obra do que o universalismo de fachada quer admitir. O debate, vivo, é parte integrante da receção contemporânea. --- ## Kant neste jardim Kant é, **neste jardim digital, presença generalizada e fundadora**. A sua sombra alonga-se sobre praticamente todos os outros artigos: - No artigo sobre [[Idealismo Alemão]], Kant é o ponto de partida e o adversário-mestre - o ponto contra o qual e a partir do qual Fichte, [[Schelling]] e [[Hegel]] se constituem. - Em [[Hegel]], a *Ciência da Lógica* é uma reformulação direta da Analítica Transcendental kantiana. - Em [[Schelling]], a *[[Naturphilosophie]]* nasce como resposta à filosofia transcendental kantiana - e a *Crítica do Juízo Teleológico* é referência decisiva. - Em [[Markus Gabriel]] e no [[Novo Realismo]], a primeira tese cardinal - *apreendemos as coisas em si mesmas* - é uma rejeição direta do agnosticismo kantiano do númeno. - No [[Realismo Especulativo]], o conceito-pivô de **correlacionismo** (cunhado por Meillassoux) designa precisamente a tese pós-kantiana de que só temos acesso à correlação sujeito-objeto, jamais ao ser em si. O Realismo Especulativo é, em larga medida, **uma tentativa de sair do círculo aberto por Kant**. - Na [[Ontologia]] e na [[Epistemologia]], o gesto kantiano de reflexão sobre as condições a priori do conhecimento é incontornável. - Na monografia sobre [Caspar David Friedrich](https://paulopinto.place/Frutos/A%20experi%C3%AAncia%20do%20sublime%20na%20obra%20de%20Caspar%20David%20Friedrich), o sublime kantiano fornece o léxico filosófico em que a pintura friedrichiana encontra a sua articulação mais densa. Por isso, **Kant não é apenas um filósofo entre outros neste jardim**. É o eixo em torno do qual se organiza, em larga medida, toda a filosofia continental moderna que nele se cultiva - quer pela continuidade quer pela ruptura. --- ## Recursos audiovisuais ### Vídeos e palestras - 🎥 **[Robert Paul Wolff - Lectures on Kant's *Critique of Pure Reason*](https://www.youtube.com/results?search_query=Robert+Paul+Wolff+Critique+Pure+Reason)** - Série lendária de aulas, livremente disponível em vídeo, por um dos mais respeitados comentadores anglófonos. - 🎥 **[Dan Robinson (Oxford) - Kant Lectures](https://www.youtube.com/results?search_query=Daniel+Robinson+Kant+Oxford)** - Conferências introdutórias rigorosas. - 🎥 **[Allen Wood - On Kant's Ethics](https://www.youtube.com/results?search_query=Allen+Wood+Kant+ethics)** - Apresentações sobre a *Fundamentação* e a *Crítica da Razão Prática* por um dos seus mais finos intérpretes. - 🎥 **[Crash Course Philosophy - Kant](https://www.youtube.com/playlist?list=PL8dPuuaLjXtNgK6MZucdYldNkMybYIHKR)** - Episódios introdutórios acessíveis. ### Textos online - 📄 **[Verbete *Immanuel Kant* na Stanford Encyclopedia of Philosophy](https://plato.stanford.edu/entries/kant/)** - Síntese de referência por Michael Rohlf. - 📄 **[Verbete *Kant's Aesthetics* na SEP](https://plato.stanford.edu/entries/kant-aesthetics/)** - Para a *Crítica do Juízo*. - 📄 **[*Critique of Pure Reason* - texto integral em inglês no Project Gutenberg](https://www.gutenberg.org/ebooks/4280)** (trad. J. M. D. Meiklejohn). - 📄 **[Verbete *Kant* na *Crítica*](https://criticanarede.com/)** - Recursos em português europeu. --- ## Bibliografia essencial ### Obras de Kant em português - *Crítica da Razão Pura*. Trad. Manuela Pinto dos Santos e Alexandre Fradique Morujão, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, várias edições. **Tradução portuguesa de referência.** - *Prolegómenos a Toda a Metafísica Futura*. Trad. Artur Morão, Edições 70, Lisboa. - *Fundamentação da Metafísica dos Costumes*. Trad. Paulo Quintela, Edições 70, Lisboa. - *Crítica da Razão Prática*. Trad. Artur Morão, Edições 70, Lisboa. - *Crítica da Faculdade do Juízo*. Trad. António Marques e Valério Rohden, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Lisboa. - *A Paz Perpétua e Outros Opúsculos*. Trad. Artur Morão, Edições 70, Lisboa. (Inclui *O que é o Iluminismo?*, *Ideia de uma história universal*, e outros.) - *A Religião nos Limites da Simples Razão*. Trad. Artur Morão, Edições 70. ### Estudos clássicos - Frederick Copleston, *História da Filosofia*, vol. VI: Kant. Lisboa: Editorial Verbo. Apresentação acessível e rigorosa. - Frederick Beiser, *The Fate of Reason: German Philosophy from Kant to Fichte*. Harvard UP, 1987. - Henry Allison, *Kant's Transcendental Idealism: An Interpretation and Defense*. Yale UP, 1983 (ed. revista 2004). - Paul Guyer, *Kant and the Claims of Knowledge*. Cambridge UP, 1987. - Otfried Höffe, *Immanuel Kant*. Lisboa: Edições 70. ### Estudos contemporâneos - P. F. Strawson, *The Bounds of Sense: An Essay on Kant's Critique of Pure Reason*. London: Methuen, 1966. Releitura clássica de Kant pela filosofia analítica. - John McDowell, *Mind and World*. Harvard UP, 1994. Diálogo crítico decisivo com Kant. - Robert Pippin, *Kant's Theory of Form*. Yale UP, 1982. - Béatrice Longuenesse, *Kant and the Capacity to Judge*. Princeton UP, 1998. - Pauline Kleingeld, *Kant and Cosmopolitanism: The Philosophical Ideal of World Citizenship*. Cambridge UP, 2012. ### Manuais em português - Paul Guyer (org.), *The Cambridge Companion to Kant*. Cambridge UP, 1992. (Há tradução brasileira.) - Daniel Tourinho Peres, *A Filosofia da Religião de Kant*. EDUFBA. - Diversas introduções em coleções universitárias portuguesas. --- ## Hiperligações internas neste jardim - [[Idealismo Alemão]] - [[Hegel]] - [[Schelling]] - [[Markus Gabriel]] - [[Novo Realismo]] - [[Realismo Especulativo]] - [[Ontologia dos Campos de Sentido]] - [[Ontologia]] - [[Epistemologia]] - [[Pluralismo Ontológico]] - [[Filosofia Continental]] - [[Filosofia Analítica]] - [[Iluminismo]] - [[Idealismo Transcendental]] - [[Imperativo Categórico]] - [[Coisa-em-si]] - [[Sublime]] - [[Hume]] - [[Fichte]] --- ## Notas finais Há filósofos que se ultrapassam, e filósofos que se atravessam - mas que não se contornam. **Kant pertence à segunda categoria.** Pode-se discordar de Kant em quase tudo. Pode-se sustentar - como sustentaram os idealistas alemães - que a coisa-em-si é uma sobrevivência dogmática que o próprio programa crítico deveria ter eliminado. Pode-se sustentar - como sustenta hoje o [[Novo Realismo]] - que o agnosticismo do númeno é uma capitulação injustificada perante o real. Pode-se objetar ao formalismo do imperativo categórico, à excessiva confiança no carácter sintético a priori da geometria euclidiana, ao otimismo iluminista quanto ao destino da razão. Mas, **discordando ou não, é forçoso passar por ele**. Não há, na filosofia ocidental, uma só obra equivalente em densidade e influência: nem em Aristóteles, nem em Descartes, nem em Hegel. Pensar a possibilidade do conhecimento, sem confrontar a Estética e a Analítica Transcendentais, é pensar abaixo do nível em que a discussão filosófica moderna se desenrola. Pensar a moralidade, sem o imperativo categórico, é regredir a um plano em que as objeções kantianas continuariam de pé. Pensar a estética, sem a teoria do belo desinteressado e do sublime, é desconhecer um dos mais finos exercícios da filosofia da arte que jamais se produziram. Por isto, Kant é, neste jardim - como em qualquer jardim filosófico que mereça o nome -, **uma figura tutelar permanente**. Não está em todo o lado porque é o autor preferido. Está em todo o lado porque, sem ele, **as perguntas que neste jardim se fazem nem sequer poderiam ser corretamente formuladas**. O homem de Königsberg nunca viu o mar. Mas o seu pensamento atravessou todos os mares do pensamento moderno - e neles continua hoje a navegar, dois séculos depois. > *Ignorantia non est argumentum.* --- *#filosofia #idealismo-alemão #frutos*