# Hegel > *Was vernünftig ist, das ist wirklich; und was wirklich ist, das ist vernünftig.* > *- **O que é racional é real; e o que é real é racional**.* > - G. W. F. Hegel, **Princípios da Filosofia do Direito**, Prefácio ![Retrato de Hegel por Jakob Schlesinger, 1831](https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/b/bf/1831_Schlesinger_Philosoph_Georg_Friedrich_Wilhelm_Hegel_anagoria.JPG/960px-1831_Schlesinger_Philosoph_Georg_Friedrich_Wilhelm_Hegel_anagoria.JPG?utm_source=commons.wikimedia.org&utm_campaign=index&utm_content=thumbnail&_=20201014015346) <sub>*Retrato de **Georg Wilhelm Friedrich Hegel** por Jakob Schlesinger, 1831, ano da morte do filósofo. Alte Nationalgalerie, Berlim. Imagem do Wikimedia Commons, domínio público.*</sub> --- ## Apontamento biográfico **Georg Wilhelm Friedrich Hegel** nasceu a 27 de Agosto de 1770 em [Estugarda](https://pt.wikipedia.org/wiki/Estugarda), no ducado de Württemberg, e morreu a 14 de Novembro de 1831 em [Berlim](https://pt.wikipedia.org/wiki/Berlim), provavelmente vítima de cólera. A sua trajetória intelectual é inseparável de três cidades alemãs: **Tubinga**, onde estudou no célebre [Tübinger Stift](https://en.wikipedia.org/wiki/Tübinger_Stift) ao lado dos seus amigos [[Schelling]] e Friedrich Hölderlin (1788-1793) - uma camaradagem fundadora a que se chamará a *Tübingen Trinity*; **Iena**, onde redigiu, sob o trovejar dos canhões napoleónicos da batalha homónima de 1806, a sua primeira grande obra, a *Fenomenologia do Espírito*; e **Berlim**, onde, a partir de 1818, ocupou a cátedra deixada vaga por Fichte e exerceu um magistério sem rival no panorama filosófico do seu tempo. Hegel é, sem reservas, **uma das figuras maiores da história da filosofia**. A sua obra constitui o coroamento - e, segundo muitos comentadores, o termo - daquilo que se convencionou chamar **idealismo alemão**, o movimento que, partindo de [Kant](https://pt.wikipedia.org/wiki/Immanuel_Kant) e atravessando Fichte e [[Schelling]], pretendeu radicalizar o programa crítico até à sua mais ambiciosa consequência: a apreensão filosófica da totalidade do real. A sua influência é notável: sem Hegel, dificilmente teríamos [Marx](https://pt.wikipedia.org/wiki/Karl_Marx), [Kierkegaard](https://pt.wikipedia.org/wiki/Søren_Kierkegaard), [Nietzsche](https://pt.wikipedia.org/wiki/Friedrich_Nietzsche), a fenomenologia de [Husserl](https://pt.wikipedia.org/wiki/Edmund_Husserl) e [Heidegger](https://pt.wikipedia.org/wiki/Martin_Heidegger), o existencialismo francês de Sartre e Beauvoir, a teoria crítica da Escola de Frankfurt, a desconstrução de [Derrida](https://pt.wikipedia.org/wiki/Jacques_Derrida), a psicanálise lacaniana, o pragmatismo inferencialista de [Robert Brandom](https://en.wikipedia.org/wiki/Robert_Brandom) - ou, mais perto deste jardim digital, o pluralismo realista de [[Markus Gabriel]]. --- ## A obra A obra publicada de Hegel pode reduzir-se a quatro grandes corpos sistemáticos, complementados por extensos cursos editados postumamente. ### *Fenomenologia do Espírito* (1807) A *Phänomenologie des Geistes* é a obra que projetou Hegel para o primeiro plano da filosofia europeia. Concebida inicialmente como mera *introdução* ao sistema, acabou por se tornar uma das obras mais densas, ambiciosas e influentes da modernidade filosófica. O seu projeto é descrever a **viagem da consciência** desde a forma mais imediata e ingénua de saber - a *certeza sensível* - até ao **saber absoluto**, passando por uma série dramaticamente encadeada de figuras: perceção, entendimento, autoconsciência, razão, espírito, religião. Não se trata de uma sequência arbitrária de doutrinas: cada figura nasce da insuficiência interna da anterior, e cada novo patamar **conserva, anula e eleva** o precedente - operação que Hegel designa pelo verbo intraduzível *aufheben*. A *Fenomenologia* é, assim, a primeira obra-prima do método dialético hegeliano, e contém algumas das suas páginas mais célebres: a [**dialética do senhor e do servo**](https://en.wikipedia.org/wiki/Master%E2%80%93slave_dialectic), o tratamento da *consciência infeliz*, a análise do iluminismo e do terror jacobino. ### *Ciência da Lógica* (1812-1816) A *Wissenschaft der Logik* é o coração técnico do sistema hegeliano. Não é "lógica" no sentido formal moderno - é, antes, **uma ontologia das categorias do pensamento**, que pretende mostrar como cada categoria fundamental (ser, nada, devir, qualidade, quantidade, medida, essência, conceito, ideia) se gera necessariamente a partir das anteriores, num movimento auto-desdobrante que constitui simultaneamente a estrutura do pensar e do real. A célebre fórmula com que se abre - *o ser puro e o nada puro são idênticos* - escandalizou os contemporâneos e continua a inspirar leituras diametralmente opostas. Para Hegel, a *Lógica* é a apresentação sistemática da estrutura do absoluto antes da sua exteriorização na natureza e da sua interiorização no espírito. ### *Enciclopédia das Ciências Filosóficas* (1817, ed. revistas em 1827 e 1830) A *Enzyklopädie der philosophischen Wissenschaften im Grundrisse* é a apresentação compendiosa do sistema completo, organizado em três partes: **Lógica** (versão abreviada e didática da grande Lógica), **Filosofia da Natureza**, **Filosofia do Espírito**. Esta última subdivide-se ainda em três momentos - *espírito subjetivo* (antropologia, fenomenologia, psicologia), *espírito objetivo* (direito, moralidade, eticidade) e *espírito absoluto* (arte, religião, filosofia) -, articulando uma das mais ambiciosas arquiteturas conceptuais da história da filosofia. ### *Princípios da Filosofia do Direito* (1821) A *Grundlinien der Philosophie des Rechts* expande a secção do *espírito objetivo* da *Enciclopédia* e oferece a filosofia política e moral mais sistemática do idealismo alemão. É nela que se encontra a divisa célebre - e amplamente mal interpretada - *o que é racional é real, e o que é real é racional*. ### Cursos editados postumamente A docência berlinense de Hegel deu lugar a cursos memoráveis cujas notas, transcritas pelos alunos e editadas por discípulos, constituem hoje obras de referência: as **Lições sobre a Filosofia da História**, as **Lições sobre a Estética**, as **Lições sobre a Filosofia da Religião** e as **Lições sobre a História da Filosofia**. --- ## Conceitos centrais A travessia da obra hegeliana exige a familiaridade com um conjunto de conceitos técnicos cuja compreensão é o portal de entrada do sistema. Eis os principais. ### Dialética Para o senso comum, *dialética* designa frequentemente o esquema escolar **tese–antítese–síntese**. Importa saber, contudo, que esta tríade explícita não é hegeliana: foi popularizada por Heinrich Moritz Chalybäus em 1837, e Hegel jamais a utilizou nesta forma esquemática. A dialética hegeliana é mais subtil e mais arriscada: é o **movimento imanente** pelo qual cada conceito, levado às suas últimas consequências, revela contradições internas que o impelem para um conceito superior, no qual as oposições anteriores são simultaneamente *negadas*, *conservadas* e *elevadas*. A dialética não é um *método* aplicado de fora ao real, como se fosse uma régua: é, segundo Hegel, **o movimento próprio das coisas mesmas e do pensamento que as pensa**. Pensar dialeticamente é seguir o desdobramento auto-contraditório dos conceitos, sem o pretender forçar a partir de fora. ### *Aufhebung* A palavra alemã ***Aufhebung*** - substantivo do verbo *aufheben* - é a chave técnica da dialética e uma das mais célebres ambiguidades da língua alemã: significa simultaneamente *suprimir/cancelar*, *conservar/preservar* e *elevar*. Hegel, fascinado por esta polissemia, faz dela o nome próprio do movimento dialético: na *Aufhebung*, um momento é negado na sua forma imediata, conservado naquilo que tinha de verdadeiro, e elevado a um patamar superior em que essa verdade parcial se integra numa totalidade mais rica. A tradução portuguesa hesita entre *suprassunção*, *supressão* e *superação*. Nenhuma é inteiramente satisfatória. Por isso, é frequente conservar o termo alemão, ou usar a paráfrase *negação determinada* - outra expressão hegeliana que designa o mesmo movimento. ### Espírito (*Geist*) O termo ***Geist*** é talvez o mais difícil de traduzir do vocabulário hegeliano: oscila entre *espírito* (no sentido teológico e filosófico) e *mente* (no sentido cognitivo). Em Hegel, *Geist* designa simultaneamente: - A **realidade subjetiva** da consciência humana individual; - A **realidade intersubjetiva** das instituições, costumes, leis, línguas e culturas em que essa consciência se forma e se realiza; - A **realidade absoluta** que se manifesta na arte, na religião e na filosofia, e que constitui o ponto culminante do sistema. O *espírito*, em Hegel, **não é uma coisa**, nem uma substância simples: é um *movimento* - o movimento pelo qual o real toma consciência de si, exterioriza-se em formas objetivas, e regressa a si enriquecido pela travessia. Esta tríade - *espírito subjetivo*, *espírito objetivo*, *espírito absoluto* - estrutura toda a terceira parte da *Enciclopédia*. ### Idealismo absoluto Por *idealismo absoluto* (*absoluter Idealismus*) entende-se a posição filosófica hegeliana, distinta do idealismo subjetivo de Berkeley (para quem só existem mentes e suas ideias) e do idealismo transcendental de [Kant](https://pt.wikipedia.org/wiki/Immanuel_Kant) (para quem o mundo em si é inacessível ao conhecimento). Hegel sustenta - e nisto separa-se decisivamente do mestre de Königsberg - que **a coisa-em-si não é incognoscível**: o que aparece à consciência *é* o real, contanto que a consciência se eleve até ao ponto em que apreende a estrutura conceptual que constitui simultaneamente o pensamento e o ser. A divisa *o que é racional é real* condensa esta tese: o real não é um caos opaco que o pensamento ordene de fora; é, na sua estrutura íntima, racional, conceptualmente articulado, e por isso compreensível pela razão filosófica que ascende ao saber absoluto. ### Eticidade (*Sittlichkeit*) Na *Filosofia do Direito*, Hegel distingue cuidadosamente: - ***Moralität*** - a moralidade do indivíduo subjetivo, da consciência interior do dever (a posição kantiana); - ***Sittlichkeit*** - a *eticidade*, isto é, o complexo das instituições objetivas (família, sociedade civil, Estado) em que a liberdade individual se realiza e ganha conteúdo concreto. A tese hegeliana - fundamental para entender porque rejeitou o formalismo kantiano do imperativo categórico - é que **a moralidade abstrata é vazia sem a eticidade concreta**: a liberdade não é mera autonomia interior, mas realiza-se nas instituições partilhadas que dão consistência objetiva ao agir humano. --- ## A dialética do senhor e do servo Nenhuma página de Hegel teve repercussão comparável à secção sobre a *Independência e dependência da autoconsciência: senhorio e servidão* (capítulo IV-A da *Fenomenologia do Espírito*, parágrafos 178-196), conhecida na bibliografia portuguesa como **dialética do senhor e do escravo** (ou *senhor-servo*, mais fiel ao alemão *Herr und Knecht*). A narrativa em traços largos: duas autoconsciências encontram-se. Cada uma exige da outra o reconhecimento da sua própria liberdade - pois a autoconsciência só pode confirmar-se enquanto tal sendo reconhecida por uma outra autoconsciência igualmente livre. Nasce daí uma **luta de morte**: aquele que estiver disposto a arriscar a própria vida pela liberdade afirma-se como *senhor*; aquele que recua perante a morte e se submete torna-se *servo*. Mas a dialética subverte rapidamente esta vitória aparente. O senhor, que parecia triunfante, descobre-se preso a uma dependência paradoxal: o reconhecimento que recebe vem de quem ele próprio recusou reconhecer como livre, e portanto não é um reconhecimento autêntico. Vive na ociosidade do consumo, sem mediação com o mundo. O servo, ao invés, na sua relação laboriosa com a natureza - é ele quem trabalha, quem transforma o real, quem produz -, descobre, na sua própria atividade, uma forma autêntica de autoconsciência: o objeto trabalhado devolve-lhe, sob a forma de obra, a sua própria essência. **A liberdade efetiva, em Hegel, não está no senhor, mas no servo.** A repercussão deste passo é incalculável: serviu de matriz à teoria marxista do trabalho, à leitura existencialista de Alexandre Kojève e Jean-Paul Sartre, às análises psicanalíticas do desejo de reconhecimento em Lacan, à teoria crítica de Axel Honneth sobre a *luta pelo reconhecimento*, e à crítica feminista contemporânea (Beauvoir, Butler). --- ## Constelações: com quem dialoga Hegel A obra hegeliana é simultaneamente uma síntese da tradição filosófica anterior e o ponto de partida de uma sucessão tão fértil que se confunde com toda a filosofia continental posterior. ### Fontes principais - **[Aristóteles](https://pt.wikipedia.org/wiki/Arist%C3%B3teles)** - Hegel é, em larga medida, um aristotélico moderno. A noção de *substância como sujeito*, a teleologia interna, a primazia do conceito sobre a representação, são heranças aristotélicas declaradas. - **[Espinosa](https://pt.wikipedia.org/wiki/Baruch_Spinoza)** - *começa-se a filosofar pela filosofia de Espinosa*, escreve Hegel. O monismo da substância única é o ponto de partida que Hegel pretende ultrapassar pela introdução do *sujeito* na própria substância. - **[Kant](https://pt.wikipedia.org/wiki/Immanuel_Kant)** - interlocutor crítico permanente. Hegel aceita a revolução transcendental kantiana mas recusa o agnosticismo da coisa-em-si. - **Fichte** - a doutrina-da-ciência fichtiana é fonte direta da dialética hegeliana, embora Hegel rejeite o seu subjetivismo residual. - **[[Schelling]]** - amigo de juventude, condiscípulo em Tubinga, o filósofo da *Naturphilosophie* foi durante anos o aliado teórico mais próximo de Hegel. A rutura, consumada com o famoso *prefácio* da *Fenomenologia* (1807) - onde Hegel ironiza sobre *a noite em que todas as vacas são pretas*, alusão à filosofia da identidade schellinguiana -, foi uma das fraturas filosóficas mais consequentes do século XIX. ### Posteridade hegeliana A escola hegeliana cindiu-se rapidamente, após a morte do mestre, em duas alas: - **Hegelianos de direita** (David Strauss, Bruno Bauer no início) - leram Hegel como teólogo cristão sistemático. - **Hegelianos de esquerda** ou *jovens hegelianos* (Feuerbach, Stirner, [Marx](https://pt.wikipedia.org/wiki/Karl_Marx)) - radicalizaram a crítica hegeliana da religião e do Estado em direção materialista e revolucionária. [Marx](https://pt.wikipedia.org/wiki/Karl_Marx) é, indiscutivelmente, o herdeiro mais consequente: a sua célebre fórmula sobre *colocar a dialética de cabeça para cima*, recolocando-a sobre os pés materiais, é simultaneamente confissão de dívida e gesto de emancipação. [Søren Kierkegaard](https://pt.wikipedia.org/wiki/Søren_Kierkegaard), em registo oposto, dedicou parte da sua obra a uma crítica feroz do sistema hegeliano em nome da existência singular irredutível ao universal - abrindo o caminho ao [existencialismo](https://pt.wikipedia.org/wiki/Existencialismo). ### Renascimento contemporâneo Depois de longas décadas de descrédito - sobretudo no espaço analítico, sob a influência do anti-hegelianismo de Russell e do positivismo lógico -, Hegel conhece desde os anos 1980 um vigoroso ressurgimento. Três correntes destacam-se: - A **leitura inferencialista e pragmática** de [Robert Brandom](https://en.wikipedia.org/wiki/Robert_Brandom) (*A Spirit of Trust*, 2019) e John McDowell - que vêem em Hegel um pensador da normatividade racional e do *espaço de razões*. - A **leitura ontológica e política** de [Slavoj Žižek](https://pt.wikipedia.org/wiki/Slavoj_%C5%BDi%C5%BEek) (*Less Than Nothing*, 2012) - que, em chave lacaniana, mobiliza Hegel contra o pós-modernismo e a favor de uma radicalidade dialética renovada. - A **leitura idealista contemporânea** de [[Markus Gabriel]] - que, embora pluralista e crítico da totalidade, retoma de Hegel a noção de **espírito objetivo** como dimensão real da socialidade humana, irredutível tanto ao naturalismo quanto ao construtivismo. --- ## Hegel e a sua importância no meu jardim Hegel é, neste jardim, **figura tutelar implícita**. A sua presença atravessa praticamente todos os artigos já constituídos: - No artigo sobre [[Markus Gabriel]] aparece como *interlocutor de fundo* da [[Ontologia dos Campos de Sentido]] - sobretudo pela noção de espírito objetivo. - No artigo sobre [[Schelling]] (a constituir) é interlocutor crítico decisivo. - Na monografia sobre [Caspar David Friedrich](https://paulopinto.place/Frutos/A%20experi%C3%AAncia%20do%20sublime%20na%20obra%20de%20Caspar%20David%20Friedrich) é referido a propósito da filosofia da tragédia partilhada por Schiller, Schelling, Hölderlin e Hegel - a **filosofia do Eu ensimesmado** que tipifica o classicismo de Weimar e do qual a pintura friedrichiana é, em certo sentido, contrapartida estética. Para [[Markus Gabriel]] em particular, Hegel é fonte ambivalente: por um lado, a noção de espírito como realidade objetiva é decisiva para a defesa gabrieliana de *factos sociais*, *normas* e *valores* contra o reducionismo naturalista. Por outro, a ambição hegeliana de **totalidade absoluta** - o saber absoluto que apreende o todo do real num sistema fechado - é precisamente o que Gabriel recusa no seu *no-world view*. O Hegel de Gabriel é, assim, **um Hegel parcialmente resgatado e parcialmente combatido** - atitude, aliás, característica de toda a receção contemporânea. --- ## Receção crítica A obra de Hegel é, há quase dois séculos, palco de polémicas vigorosas. As objeções organizam-se historicamente em torno de quatro eixos: 1. **A acusação de panlogicismo.** Já em vida, Hegel foi acusado de submeter o real à camisa-de-força da lógica conceptual, de fazer derivar a natureza e a história do desdobramento puro do conceito. [Schopenhauer](https://pt.wikipedia.org/wiki/Arthur_Schopenhauer) chamou-lhe *charlatão* sem qualquer reserva; Kierkegaard parodiou o sistema; uma longa tradição vê na ambição hegeliana de totalidade a matriz teórica de todo totalitarismo intelectual. 2. **A acusação de obscuridade voluntária.** O estilo de Hegel é, mesmo para alemães cultos, notoriamente difícil. Para alguns críticos - sobretudo no espaço analítico clássico -, a dificuldade não esconde profundidade, mas confusão. Para outros, ela é incontornável: pensar dialeticamente exige *fazer violência* à linguagem ordinária. 3. **A acusação política.** A célebre identificação hegeliana entre racionalidade e realidade foi lida, sobretudo após [Karl Popper](https://pt.wikipedia.org/wiki/Karl_Popper) (*A Sociedade Aberta e os Seus Inimigos*, 1945), como apologia do Estado prussiano e antecipação do totalitarismo. Comentadores contemporâneos (Charles Taylor, Robert Pippin, Frederick Beiser, Terry Pinkard) têm contestado vigorosamente esta leitura, mostrando que Hegel é, na realidade, um liberal moderado e crítico do absolutismo. 4. **A acusação de eurocentrismo e racismo.** As lições sobre a filosofia da história contêm passagens chocantes sobre a África e o mundo extra-europeu. A discussão pós-colonial contemporânea de Hegel - sobretudo a partir de Susan Buck-Morss (*Hegel, Haiti and Universal History*, 2009) - tem procurado distinguir o que na obra é parte integral do sistema do que é mero preconceito de época. Estas críticas, longe de invalidarem o pensamento hegeliano, têm constituído algumas das suas leituras mais frutíferas - o que talvez confirme uma das próprias teses hegelianas: *a verdade é o todo*, e o *todo* só se revela através do trabalho da contradição. --- ## Recursos audiovisuais ### Vídeos e palestras - 🎥 **[Stephen Houlgate - An Introduction to Hegel's Philosophy](https://www.youtube.com/results?search_query=Stephen+Houlgate+Hegel+introduction)** - Conferências introdutórias por um dos mais respeitados comentadores anglófonos. - 🎥 **[Robert Brandom - A Spirit of Trust](https://www.youtube.com/results?search_query=Robert+Brandom+Spirit+of+Trust+Hegel)** - Várias conferências sobre a sua leitura inferencialista da *Fenomenologia*. - 🎥 **[Slavoj Žižek - Hegel and the Wired Brain](https://www.youtube.com/results?search_query=Slavoj+Zizek+Hegel+Wired+Brain)** - Žižek em chave lacaniana e contemporânea. - 🎥 **[Gregory B. Sadler](https://www.youtube.com/results?search_query=Gregory+Sadler+Hegel)** - Recursos pedagógicos. ### Textos online - 📄 **[Verbete *Hegel* na Stanford Encyclopedia of Philosophy](https://plato.stanford.edu/entries/hegel/)** - Síntese académica de referência, por Paul Redding. - 📄 **[Verbete *Master–Slave Dialectic* na Wikipédia anglófona](https://en.wikipedia.org/wiki/Master%E2%80%93slave_dialectic)**. - 📄 **[*Phenomenology of Spirit* - Archive.org](https://archive.org/details/phenomenology-of-spirit-g-w-f-hegel)**. - 📄 **[hegel.net](https://hegel.net/en/)** - Portal dedicado, com sínteses temáticas acessíveis. --- ## Bibliografia essencial ### Obras de Hegel em português - *Fenomenologia do Espírito*. Trad. Paulo Meneses. Petrópolis: Vozes / São Paulo: Editora Universitária São Francisco, 1992 (várias reimpressões). [Tradução portuguesa também disponível pela Edições 70.] - *Ciência da Lógica*. Trad. Christian G. Iber, Marloren L. Miranda e Federico Orsini. Petrópolis: Vozes, 2016-2018, 3 vols. - *Enciclopédia das Ciências Filosóficas em Compêndio*. Trad. Paulo Meneses. São Paulo: Loyola, 1995, 3 vols. - *Princípios da Filosofia do Direito*. Trad. Orlando Vitorino. Lisboa: Guimarães Editores, 1990. - *Lições sobre a Estética*. Várias edições portuguesas e brasileiras. - *Lições sobre a Filosofia da História*. Várias edições. ### Estudos críticos clássicos - Alexandre Kojève, *Introdução à Leitura de Hegel*. Rio de Janeiro: Contraponto / Eduerj, 2002. [As lições célebres ministradas em Paris entre 1933 e 1939, decisivas para a receção francesa.] - Charles Taylor, *Hegel*. Cambridge: Cambridge University Press, 1975. - Frederick Beiser, *Hegel*. London: Routledge, 2005. - Terry Pinkard, *Hegel: A Biography*. Cambridge: Cambridge UP, 2000. - Stephen Houlgate, *An Introduction to Hegel: Freedom, Truth and History*. Oxford: Blackwell, 2005. ### Estudos contemporâneos - Robert Pippin, *Hegel's Idealism: The Satisfactions of Self-Consciousness*. Cambridge: Cambridge UP, 1989. - Robert Brandom, *A Spirit of Trust: A Reading of Hegel's Phenomenology*. Cambridge, MA: Harvard UP, 2019. - Slavoj Žižek, *Less Than Nothing: Hegel and the Shadow of Dialectical Materialism*. London: Verso, 2012. - Susan Buck-Morss, *Hegel, Haiti and Universal History*. Pittsburgh: University of Pittsburgh Press, 2009. - Markus Gabriel & Slavoj Žižek, *Mythology, Madness and Laughter: Subjectivity in German Idealism*. London: Continuum, 2009. --- ## Hiperligações internas neste jardim - [[Markus Gabriel]] - [[Schelling]] - [[Novo Realismo]] - [[Ontologia dos Campos de Sentido]] - [[Pluralismo Ontológico]] - [[Idealismo Alemão]] - [[Dialética]] - [[Aufhebung]] - [[Espírito Objetivo]] - [[Filosofia Continental]] - [[Kant]] - [[Marx]] - [[Kierkegaard]] - [[Schopenhauer]] --- ## Notas finais Há filósofos com quem se concorda; há filósofos com quem se discorda. Hegel pertence a uma terceira categoria, mais rara: **a dos filósofos com quem é preciso lutar**. Quase todos os grandes pensamentos filosóficos dos últimos dois séculos podem ser lidos como tentativas - de fidelidade ou de combate - perante o sistema hegeliano. [Marx](https://pt.wikipedia.org/wiki/Karl_Marx) inverte-o; [Kierkegaard](https://pt.wikipedia.org/wiki/Søren_Kierkegaard) escarnece dele; [Nietzsche](https://pt.wikipedia.org/wiki/Friedrich_Nietzsche) atravessa-o sem o nomear; [Heidegger](https://pt.wikipedia.org/wiki/Martin_Heidegger) lê-o como o cume - e o termo - da metafísica ocidental; [Adorno](https://pt.wikipedia.org/wiki/Theodor_Adorno) dele extrai uma *dialética negativa*; [Derrida](https://pt.wikipedia.org/wiki/Jacques_Derrida) procura escapar-lhe sabendo de antemão que tal não é possível; [Brandom](https://en.wikipedia.org/wiki/Robert_Brandom) e [[Markus Gabriel]] reabilitam-no para responder aos problemas filosóficos contemporâneos. Esta inescapabilidade hegeliana **não é defeito do leitor** - é traço do próprio pensamento hegeliano, que se concebeu desde o início como **a tentativa de pensar a totalidade do pensável**. Pode-se considerar a tentativa fracassada (e o fracasso da totalidade é, precisamente, o que [[Markus Gabriel]] sustenta no seu argumento contra o mundo); mas mesmo o fracasso só ganha sentido na medida em que se mede contra a ambição que pretende refutar. Pensar com Hegel, pensar contra Hegel, pensar para além de Hegel: nas três modalidades, a filosofia continental dos últimos dois séculos é, em larga medida, **um diálogo continuado com o filósofo de Estugarda**. E esse diálogo é, talvez, o mais alto elogio que se pode prestar a um pensador. > *Ignorantia non est argumentum.* --- *#filosofia #idealismo-alemão #frutos*