# Ontologia > *ἔστιν ἐπιστήμη τις ἣ θεωρεῖ τὸ ὂν ᾗ ὂν* > *- **Há uma ciência que estuda o ser enquanto ser**.* > - [[Aristóteles]], **Metafísica**, Γ 1, 1003a 21 ![Estátua de Aristóteles perto da entrada do Lyceum](https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/e/ea/The_statue_of_Aristotle_near_the_entrance%2C_The_School_of_Aristotle_%28The_Lyceum%29_%287263455202%29.jpg/960px-The_statue_of_Aristotle_near_the_entrance%2C_The_School_of_Aristotle_%28The_Lyceum%29_%287263455202%29.jpg?utm_source=commons.wikimedia.org&utm_campaign=imageinfo&utm_content=thumbnail) <sub>*Estátua de **Aristóteles** perto da entrada do Lyceum, na Grécia. Imagem do Wikimedia Commons, [CC BY-SA 3.0](https://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0/deed.pt). Foi com Aristóteles que se constituiu, na história ocidental, aquela disciplina que séculos depois seria batizada de *ontologia*.*</sub> --- ## Apresentação A **ontologia** é, na sua aceção mais larga, **o estudo filosófico do ser enquanto ser** - a disciplina que se interroga sobre o que existe, sobre o que significa existir, e sobre as estruturas mais gerais que partilham todos os entes precisamente por serem entes. É a disciplina central deste jardim digital: nela se enraízam, direta ou indiretamente, todos os outros artigos da série filosófica que aqui se pretende edificar, do [[Pluralismo Ontológico]] à [[Ontologia dos Campos de Sentido]] de [[Markus Gabriel]], passando pelo [[Novo Realismo]] e pelo [[Realismo Especulativo]]. A palavra é uma criação latino-grega tardia: do grego *ὄν* (genitivo *ὄντος*), particípio presente do verbo *εἶναι*, "ser" - donde o radical *onto-* -, conjugado com *λόγος*, "discurso", "tratado", "ciência". Literalmente: *discurso sobre o ser*. Mas a coisa, como veremos, é muito mais antiga do que a palavra que a designa. A ontologia procura responder a perguntas que, de tão fundamentais, parecem ingénuas até mesmo ao instante em que se medita sobre elas: **O que é existir? Existem entidades abstratas como os números, ou apenas os representamos? Existem os universais, ou apenas os indivíduos? Existem os possíveis e os impossíveis, ou somente o atual? O que distingue um objeto de uma propriedade? O que significa, para *este* livro, ser *este* livro e não outro?** Estas perguntas não são ornamentais. Toda a ciência, todo o discurso jurídico, toda a teoria política, toda a teologia, toda a estética pressupõem respostas - explícitas ou tácitas - a estas interrogações. Por isso [[Aristóteles]], primeiro a tematizar a disciplina, designou-a por **filosofia primeira** (*πρώτη φιλοσοφία*): não no sentido de ser a primeira na ordem do estudo, mas no sentido de ser aquela à qual todas as outras, em última instância, recorrem. --- ## A palavra: uma invenção tardia Sendo Aristóteles o fundador efetivo da disciplina, é útil saber que **a palavra "ontologia" só apareceu em 1606** - quase dois mil anos depois. A primeira ocorrência documentada encontra-se em *Ogdoas Scholastica* (1606), do filósofo alemão Jacob Lorhard (Lorhardus). Pouco depois, **Rudolf Goclenius** introduziu o termo no seu *Lexicon Philosophicum* (1613), e a forma latina *ontologia* começou a circular no meio escolástico do século XVII com tal naturalidade que as disputas sobre prioridade - Lorhard ou Goclenius - perderam relevância. A consagração definitiva veio com **[Christian Wolff](https://pt.wikipedia.org/wiki/Christian_Wolff)** (1679-1754), figura maior do racionalismo alemão pré-kantiano. Na sua obra *Philosophia Prima sive Ontologia* (1730) - *Filosofia Primeira ou Ontologia* -, Wolff sistematiza a disciplina como parte da **metafísica geral**, distinguindo-a das três metafísicas especiais: a *cosmologia* (estudo do mundo), a *psicologia* (estudo da alma) e a *teologia natural* (estudo de Deus). Esta arquitetura wolffiana - uma metafísica geral fundadora e três metafísicas especiais - exerceria influência decisiva sobre a estruturação da [Crítica da Razão Pura](https://pt.wikipedia.org/wiki/Cr%C3%ADtica_da_Raz%C3%A3o_Pura) de [[Kant]], cuja *Dialética Transcendental* tem precisamente como alvo a desconstrução das três metafísicas especiais. Antes de Lorhard, Goclenius e Wolff, contudo, a coisa existia: era apenas designada por outros nomes - *philosophia prima*, *metaphysica*, *scientia entis*. A história efetiva da ontologia começa, pois, muito antes da palavra que a designa. --- ## Ontologia e metafísica: uma distinção delicada A relação entre **ontologia** e **metafísica** é matéria de longa controvérsia, e o uso destes termos tem oscilado historicamente. Cabe aqui clarificá-lo, sob risco de confusão recorrente. Numa primeira aceção - wolffiana, escolástica -, **a ontologia é uma parte da metafísica**: a sua parte mais geral, que estuda o ser enquanto tal, distinta das partes especiais (cosmologia, psicologia, teologia natural). Nesta aceção, *toda a ontologia é metafísica, mas nem toda a metafísica é ontologia*. Numa segunda aceção - heideggeriana, contemporânea -, **a ontologia é distinta da metafísica**: a metafísica é uma certa forma histórica, agora suspeita, de tratar o ser (a "ontoteologia", como dirá [Heidegger](https://pt.wikipedia.org/wiki/Martin_Heidegger), que reduz o ser a um ente supremo); a ontologia, por seu lado, deveria ser refundada de modo mais originário, como questão pelo *sentido do ser*. Nesta aceção, ontologia e metafísica chegam a opor-se. Numa terceira aceção - particularmente interessante para este jardim - Markus Gabriel, em [[Ontologia dos Campos de Sentido|*Fields of Sense*]] (2015), propõe uma reformulação técnica decisiva: - **A ontologia** estuda o que significa "existir" - é uma disciplina semântico-categorial, sobre o conceito de existência. - **A metafísica** estuda a natureza última e total da realidade - é uma disciplina sobre o ser, no seu sentido cosmo-teológico. Para Gabriel, **a primeira é legítima e necessária; a segunda - quando entendida como teoria do todo - é incoerente** (cf. argumento contra o mundo, no artigo dedicado a [[Markus Gabriel]]). Esta separação categorial atravessa todo o programa do [[Novo Realismo]]. A oscilação entre as três aceções é real, e não há consenso terminológico universal. O que importa é que, em cada texto, se preste atenção ao sentido em que os termos são utilizados. --- ## Os grandes problemas da ontologia A história da disciplina, desde os pré-socráticos até hoje, organiza-se em torno de um conjunto recorrente de problemas. Eis os principais. ### Existência e ser A primeira pergunta da ontologia - e talvez a mais difícil - é: ***o que é existir?*** Existir é uma propriedade que algumas coisas têm e outras não? É um *predicado*, no sentido lógico, ou outra coisa? Como sustenta a tradição que vem de [[Kant]] (na refutação da prova ontológica) até Frege e Russell, *existir* parece comportar-se de modo categoricamente distinto de outras propriedades: não é informativo dizer de algo que existe, no sentido em que é informativo dizer que é vermelho ou pesado. A história da ontologia pode contar-se, em larga medida, como série de respostas a esta pergunta: - **Aristóteles**: o ser diz-se de muitos modos (***to on legetai pollachôs***), com prioridade focal da substância. - **Tomás de Aquino**: o ser tem analogia, distribuída hierarquicamente entre Deus e as criaturas. - **Wolff**: existir é ter uma essência logicamente coerente. - **Kant**: existir não é um predicado real, mas uma posição absoluta. - **Frege/Russell**: existir é uma propriedade de propriedades - *o conceito X é instanciado por algum objeto*. - **Quine**: existir é ser valor de uma variável ligada num discurso quantificado. - **Meinong**: há objetos que não existem nem subsistem, mas têm propriedades. - **Gabriel**: existir é aparecer num campo de sentido (cf. [[Ontologia dos Campos de Sentido]]). A diversidade das respostas atesta menos a desorientação da disciplina do que a profundidade da pergunta. ### Universais e particulares Uma segunda pergunta clássica, conhecida como **problema dos universais**: existem propriedades partilhadas - a brancura, a humanidade, a justiça - como entidades reais, ou apenas existem indivíduos concretos (este homem branco, este ato justo)? A polémica atravessa a Idade Média e divide os escolásticos em três famílias: - **Realismo platónico**: os universais existem em si mesmos, separadamente das coisas (a Forma da Brancura, num plano ideal). - **Realismo aristotélico-tomista**: os universais existem nas coisas (*in re*), como formas imanentes. - **Nominalismo** (Roscelino, Ockham): os universais não existem; são apenas nomes (*nomina*) que aplicamos a colecções de indivíduos semelhantes. - **Conceptualismo** (Abelardo): os universais existem apenas na mente, como conceitos. A polémica reapareceu, sob nova roupagem, no século XX - Quine, David Armstrong, David Lewis - e continua viva. ### Substância e atributos Outra distinção fundamental, herdada de Aristóteles: o que é uma **substância** (*ousia*), em que sentido é diferente dos seus *atributos* (qualidades, quantidades, relações)? Esta cadeira é uma substância, à qual *acrescem* a sua cor castanha, a sua dureza, o facto de estar à minha esquerda. Mas pode pensar-se a cadeira independentemente dos seus atributos? E os atributos podem existir sem suporte? O problema atravessa Descartes (que herda a noção escolástica de substância e a aplica à *res cogitans* e à *res extensa*), Espinosa (que reduz tudo a uma única substância infinita), Leibniz (que multiplica as substâncias em mónadas) e Hume (que dissolve a noção de substância em mero feixe de impressões). A história moderna da ontologia é, em larga medida, a história desta questão. ### Identidade e mudança Uma terceira família de problemas: **o que faz com que algo permaneça idêntico a si mesmo através do tempo e da mudança?** O barco de Teseu - substituídas todas as suas tábuas, é ainda o mesmo barco? - é o paradigma desta interrogação. As duas grandes posições contemporâneas: - **Endurantismo**: os objetos persistem inteiramente em cada momento; o barco de hoje *é* o barco de ontem, integralmente. - **Perdurantismo**: os objetos persistem como séries de partes temporais; o barco é uma sequência quadridimensional de fases. A discussão está densamente relacionada com a metafísica do tempo, com a teoria das possibilidades modais, e com a interpretação ontológica da relatividade einsteiniana. ### Modalidades: necessidade, possibilidade, contingência Que estatuto têm os possíveis e os necessários? Quando dizemos *é possível que chovesse amanhã*, ou *necessariamente, 2+2=4*, falamos de coisas reais ou apenas de modos de pensar? A teoria dos *mundos possíveis* - desenvolvida nos anos 1960-70 por Saul Kripke, David Lewis, Alvin Plantinga - propõe respostas tão diferentes que se torna divergência ontológica radical: para Lewis, todos os mundos possíveis existem realmente, com o mesmo estatuto que o nosso (*realismo modal*); para Kripke e Plantinga, são meros constructos abstratos. ### Tempo e espaço Existem o tempo e o espaço? São entidades reais (substantivismo, à maneira de Newton) ou apenas relações entre objetos (relacionismo, à maneira de Leibniz)? A filosofia do tempo - passado, presente e futuro existem todos do mesmo modo (eternalismo)? Apenas o presente existe (presentismo)? - é outra das grandes frentes da ontologia contemporânea. ### Mente e mundo A relação entre **mental** e **físico** é uma das mais densas zonas da ontologia. As entidades mentais - pensamentos, dores, intenções - têm o mesmo estatuto ontológico que as físicas? São redutíveis ao cérebro? Emergem dele sem se confundirem com ele? São propriedades irredutíveis da realidade? As posições - fisicalismo, dualismo, panpsiquismo, emergentismo, neutralismo - atravessam toda a filosofia da mente contemporânea, e [[Markus Gabriel]] dedicou-lhes uma obra inteira (*Eu Não Sou o Meu Cérebro*, 2015). --- ## A história da ontologia em traços largos Uma breve resenha, do nascimento à atualidade. ### Os pré-socráticos Antes mesmo de existir o termo, a ontologia nasce com os **pré-socráticos**. Tales propõe que tudo é água; Anaximandro, o *ápeiron* (o indeterminado); Heraclito, o *logos* e o devir; **Parménides** dá à disciplina o seu primeiro grande monumento, com o poema *Sobre a Natureza*: ***o ser é, o não-ser não é***. A tese parmenídica, levada às últimas consequências (não há devir, não há multiplicidade, o ser é uno e imutável), pôs a filosofia ocidental perante um problema que nunca a abandonaria: como pensar a unidade do ser sem suprimir a pluralidade do real? ### Platão [Platão](https://pt.wikipedia.org/wiki/Plat%C3%A3o), em diálogos como *Sofista*, *Parménides*, *Timeu*, *República*, propõe o primeiro grande sistema ontológico: a teoria das **Formas** ou **Ideias**, entidades inteligíveis, eternas, separadas, das quais as coisas sensíveis são meras cópias imperfeitas. O ser autêntico é o das Formas; o ser sensível é uma participação degradada. ### Aristóteles [[Aristóteles]] é, por consenso largamente partilhado, **o verdadeiro fundador da ontologia como disciplina**. Nos livros centrais da *Metafísica* - Γ, Δ, Ε, Ζ, Η, Θ - distingue cuidadosamente diversos sentidos de *ser*, identifica a substância como sentido focal, e formula a tese, decisiva, de que ***o ser não é um género*** - não há um conceito unívoco que se aplique a tudo o que é, apenas analogias e referências focais. Esta tese funda toda a tradição posterior do [[Pluralismo Ontológico]]. ### A escolástica A Idade Média herda Aristóteles através das traduções árabes e latinas, e desenvolve a ontologia em registo teológico. Os grandes nomes - **Avicena**, **Tomás de Aquino**, **Duns Escoto**, **Guilherme de Ockham** - debatem-se em torno da relação entre essência e existência, das categorias do ser, da univocidade *versus* analogia, do estatuto dos universais. É no seio desta escolástica tardia que, no início do século XVII, surge a palavra *ontologia*. ### O racionalismo moderno Do século XVII ao XVIII, a ontologia é refeita pelas grandes filosofias racionalistas: **Descartes** (substância pensante e substância extensa), **[Espinosa](https://pt.wikipedia.org/wiki/Baruch_Spinoza)** (substância única infinita, com seus modos e atributos), **Leibniz** (mónadas como substâncias simples), **Wolff** (a sistematização escolar referida acima). ### A reviravolta crítica de Kant Com [[Kant]] dá-se uma reviravolta sem precedentes. Na *Crítica da Razão Pura* (1781), Kant sustenta que **a ontologia tradicional, como teoria do ser-em-si, é impossível**: não temos acesso ao ser tal como é em si mesmo, mas apenas tal como é constituído pelas formas a priori da nossa sensibilidade e pelos conceitos puros do entendimento. A *coisa-em-si* é incognoscível; o que conhecemos é o fenómeno. A "ontologia altiva" é assim substituída por uma "modesta analítica do entendimento puro" - gesto que abrirá toda a filosofia continental subsequente. ### O idealismo alemão [[Hegel]], radicalizando o gesto kantiano, sustentará - contra Kant - que a coisa-em-si pode ser conhecida, contanto que a razão se eleve ao saber absoluto. Na *Ciência da Lógica* (1812-1816), Hegel oferece uma das mais ambiciosas reconstruções da ontologia da história da filosofia: as categorias do pensamento são, simultaneamente, categorias do real. O ser, o nada, o devir, a qualidade, a quantidade, a essência, o conceito, a ideia - toda a estrutura categorial do real é apresentada como auto-desdobramento dialético. [[Schelling]], pelo contrário, denunciará na sua *Spätphilosophie* a hubris hegeliana e proporá uma "filosofia positiva" que parte do facto bruto da existência. ### A fenomenologia No início do século XX, **[Edmund Husserl](https://pt.wikipedia.org/wiki/Edmund_Husserl)** funda a fenomenologia, na qual a ontologia se desdobra em duas: a *ontologia formal*, sobre as estruturas vazias (objeto, propriedade, relação) que valem para qualquer região do ser; e as *ontologias regionais* (natureza material, vida, espírito, objetos ideais), cada uma com leis próprias. Esta doutrina é uma das matrizes diretas do [[Pluralismo Ontológico]] contemporâneo. **[Martin Heidegger](https://pt.wikipedia.org/wiki/Martin_Heidegger)**, discípulo de Husserl, opera nova reviravolta em *Sein und Zeit* (1927): a tradição metafísica ocidental, desde Platão, teria *esquecido* a questão fundamental - o sentido do ser (*Sinn von Sein*) - confundindo-o com os entes. A *ontologia fundamental* heideggeriana parte da análise existencial do *Dasein* (o ente humano, o "ser-aí") como ponto de acesso privilegiado à questão do ser. ### A reviravolta linguística Em paralelo, no espaço analítico, **Frege**, **Russell**, **Carnap** e **Quine** reformulam a ontologia em chave logicista e linguística. A célebre fórmula quineana - *to be is to be the value of a bound variable*, *ser é ser valor de uma variável ligada* - pretende decidir as questões ontológicas pela análise do nosso melhor discurso científico: a ontologia de uma teoria é o que essa teoria, regimentada em forma lógica, exige que exista. Esta abordagem dominou a metaontologia analítica até aos anos 1990. ### O ressurgimento ontológico contemporâneo Desde finais do século XX, a ontologia conhece um ressurgimento vigoroso, em registos diversos: - A **metaontologia analítica**, com Theodore Sider, [Kris McDaniel](https://en.wikipedia.org/wiki/Kris_McDaniel), Jason Turner, David Chalmers, Karen Bennett. - O **[[Realismo Especulativo]]** anglófono-francófono, com Meillassoux, Harman, Brassier, Grant. - O **[[Novo Realismo]]** germano-italiano, com [[Markus Gabriel]] e Maurizio Ferraris. - A **[[Object-Oriented Ontology]]** de Graham Harman. A ontologia, declarada morta em alguns capítulos da filosofia do século XX, está hoje **mais viva do que nunca**. --- ## Disputas internas: ontologia descritiva vs ontologia revisionária Uma distinção útil, proposta pelo filósofo britânico **P. F. Strawson** em *Individuals* (1959), permite organizar boa parte do trabalho ontológico contemporâneo: - A **ontologia descritiva** procura *descrever* a estrutura do nosso pensamento sobre o real, tal como ela aparece na linguagem comum, no senso comum, na nossa prática quotidiana. - A **ontologia revisionária** procura *inspecionar* essa estrutura, propondo reformas radicais - eliminações de categorias, introduções de novas, simplificações ou complexificações - em nome de um critério de adequação ao real. Strawson é descritivista; Quine é revisionista; Heidegger pretende ser descritivista (de uma estrutura mais profunda do que a quotidiana); Gabriel oscila entre os dois. A distinção não é pacífica, mas é heurística útil. --- ## A ontologia neste jardim digital A ontologia é a disciplina que sustenta praticamente toda a constelação filosófica deste jardim digital: - Em [[Markus Gabriel]] e na sua [[Ontologia dos Campos de Sentido]], é reconfigurada como teoria semântico-categorial do existir, em rutura com a metafísica da totalidade. - No [[Pluralismo Ontológico]], é o terreno em que se debate se há um ou múltiplos modos de ser. - No [[Novo Realismo]] e no [[Realismo Especulativo]], é convocada como instância de retorno à realidade independente da mente, depois de décadas de construtivismo. - Em [[Hegel]] e [[Schelling]], é o coração do projeto idealista alemão - a tentativa de pensar a estrutura conceptual do real. - Em [[Aristóteles]], é simplesmente *a filosofia primeira*. Quem quiser entender o que se discute, hoje, nas franjas mais vivas da filosofia contemporânea, fica obrigado a familiarizar-se com a ontologia - disciplina cuja morte, anunciada com regularidade ao longo dos séculos por positivistas, pragmatistas, linguicistas e construtivistas, **se revelou, todas as vezes, prematura**. --- ## Recursos audiovisuais ### Vídeos e palestras - 🎥 **[Markus Gabriel - Why The World Does Not Exist (IAI Academy)](https://iai.tv/iai-academy/courses/info?course=why-the-world-does-not-exist)** - Curso introdutório sobre ontologia em chave do [[Novo Realismo]]. - 🎥 **[Theodore Sider - Ontology and Metaphysics](https://www.youtube.com/results?search_query=Theodore+Sider+ontology)** - Conferências sobre metaontologia analítica. - 🎥 **[Graham Harman - Object-Oriented Ontology](https://www.youtube.com/results?search_query=Graham+Harman+Object+Oriented+Ontology)** - Várias conferências introdutórias. ### Textos online - 📄 **[Verbete *Logic and Ontology* na Stanford Encyclopedia of Philosophy](https://plato.stanford.edu/entries/logic-ontology/)** - Síntese rigorosa por Thomas Hofweber. - 📄 **[Verbete *Ontology* na Encyclopaedia Britannica](https://www.britannica.com/topic/ontology-metaphysics)** - Apresentação histórica acessível. - 📄 **[Verbete *História da Ontologia* - *Crítica*](https://criticanarede.com/tes_conscihistorica.html)** - Síntese em português europeu, pela revista *Crítica*. - 📄 **[Verbete *Ontologia* na Wikipédia portuguesa](https://pt.wikipedia.org/wiki/Ontologia)**. --- ## Bibliografia essencial ### Textos clássicos - Parménides, *Sobre a Natureza* (fragmentos). Várias edições portuguesas. - Platão, *Sofista*, *Parménides*, *Timeu*. Várias edições portuguesas. - [[Aristóteles]], *Metafísica*, livros Γ, Δ, Ε, Ζ, Η, Θ. Trad. Edson Bini, Edipro, ou trad. Lucas Angioni, Editora UFMG. - Tomás de Aquino, *Summa Theologiae*, I, Quaestiones 1-13. Várias edições. - Christian Wolff, *Philosophia Prima sive Ontologia* (1730). [Sem tradução portuguesa integral; ed. crítica em curso na *Wolff Gesammelte Werke*.] ### Modernidade e idealismo alemão - René Descartes, *Meditações sobre a Filosofia Primeira* (1641). Trad. portuguesa em várias edições. - Baruch [Espinosa](https://pt.wikipedia.org/wiki/Baruch_Spinoza), *Ética* (1677). Trad. Joaquim Carvalho et al., INCM, Lisboa. - G. W. Leibniz, *Monadologia* (1714). Várias edições portuguesas. - [[Kant]], *Crítica da Razão Pura* (1781). Trad. Manuela Pinto dos Santos e Alexandre Fradique Morujão, FCG, Lisboa. - [[Hegel]], *Ciência da Lógica* (1812-1816). Trad. Christian Iber et al., Vozes (3 vols.), 2016-2018. ### Século XX - Edmund Husserl, *Ideias para uma Fenomenologia Pura e para uma Filosofia Fenomenológica* (1913). Várias edições. - Martin Heidegger, *Ser e Tempo* (1927). Trad. Fausto Castilho, Vozes/Editora Unicamp, 2012. - W. V. O. Quine, *On What There Is* (1948). [Em português, em coletâneas.] - P. F. Strawson, *Individuals* (1959). ### Contemporâneo - Theodore Sider, *Writing the Book of the World*. Oxford UP, 2011. - Kris McDaniel, *The Fragmentation of Being*. Oxford UP, 2017. - Markus Gabriel, *[Fields of Sense: A New Realist Ontology](https://edinburghuniversitypress.com/book-fields-of-sense.html)*. Edinburgh UP, 2015. - Graham Harman, *The Quadruple Object*. Zero Books, 2011. - Quentin Meillassoux, *Após a Finitude*. Trad. portuguesa pela Imago, Rio de Janeiro. ### Manuais e introduções - Aloísio Loureiro Pinto Jr., *Introdução à Ontologia*. Loyola, São Paulo. - Ricki Bliss & J. T. M. Miller (eds.), *The Routledge Handbook of Metametaphysics*. Routledge, 2020. --- ## Hiperligações internas neste jardim - [[Markus Gabriel]] - [[Ontologia dos Campos de Sentido]] - [[Pluralismo Ontológico]] - [[Novo Realismo]] - [[Realismo Especulativo]] - [[Hegel]] - [[Schelling]] - [[Aristóteles]] - [[Kant]] - [[Metafísica]] - [[Epistemologia]] - [[Filosofia Continental]] - [[Filosofia Analítica]] - [[Heidegger]] - [[Husserl]] --- ## Notas finais Há disciplinas filosóficas cujo objeto se modifica com o tempo, à medida que se acumulam saberes, instrumentos, perspetivas. A ontologia tem uma característica peculiar: **o seu objeto é, desde os pré-socráticos, exatamente o mesmo** - o ser, aquilo que existe, o que se diz quando se diz que algo é. Aquilo que mudou foi a nossa atitude perante esse objeto: a nossa confiança em pensá-lo, os instrumentos que mobilizamos, as estratégias com que nos aproximamos dele. Por isso a ontologia tem uma temporalidade própria. Cada geração filosófica que se julga libertada dela - pela viragem linguística, pelo construtivismo pós-moderno, pelo positivismo lógico, pelo pragmatismo - descobre, mais cedo ou mais tarde, que **o ser não desapareceu**, apenas se ausentou da consciência filosófica explícita. E volta-se para ele, reformulando as suas perguntas com os instrumentos do seu tempo. É talvez por isto que [[Markus Gabriel]], em pleno século XXI, depois de duzentos anos de críticas anti-metafísicas - de Kant a Carnap, de Wittgenstein a Derrida -, pôde voltar a escrever um livro inteiro sobre ontologia, e fazê-lo com a serenidade de quem regressa a casa. Os campos de sentido podem mudar; o ser permanece como aquilo que aparece neles. Pensar o ser é pensar essa aparição - e, eventualmente, pensar o que escapa a qualquer aparição. **A ontologia, neste sentido, é a forma mais antiga e mais permanente da filosofia**: a forma em que ela se confronta, sem mediação, com a pergunta mais simples e mais difícil que se pode fazer: ***por que há algo, e não antes nada?*** > *Ignorantia non est argumentum.* --- #filosofia #ontologia #frutos