# Realismo Especulativo
> _"Conhecemos o real apenas correlativamente: nunca em si mesmo, mas sempre como dado a um sujeito que pensa. Sair desse círculo, regressar ao 'grande exterior' do pensamento pré-crítico - eis a tarefa."_ - Quentin Meillassoux, paráfrase de **Après la finitude**
 <sub>_Fóssil de amonite (_Asteroceras obtusum_) da Costa Jurássica, Charmouth. Imagem do Wikimedia Commons, [CC BY-SA 4.0](https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0/deed.pt). O fóssil - mais precisamente, o **arqui-fóssil** - é a figura emblemática do desafio meillassouxiano ao correlacionismo._</sub>
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## Apresentação
O **Realismo Especulativo** (_Speculative Realism_, abreviado _SR_) é um movimento filosófico contemporâneo nascido nos primeiros anos do século XXI, no espaço da [filosofia continental](https://pt.wikipedia.org/wiki/Filosofia_continental) anglófona, e dedicado a uma tarefa comum: **reabrir o pensamento ao real exterior à mente humana**, contra a hegemonia, herdada de [Kant](https://pt.wikipedia.org/wiki/Immanuel_Kant), das filosofias que confinam o pensável à esfera do que é dado a um sujeito.
Diferentemente do [[Novo Realismo]] gabrieliano e ferrarisiano - surgido cinco anos mais tarde, em 2011, em Nápoles -, o Realismo Especulativo não se reúne em torno de uma tese positiva única. É antes uma **constelação de programas filosóficos divergentes** que partilham um adversário comum, designado por uma palavra-conceito que se tornou divisa do movimento: o _**correlacionismo**_. A unidade do SR é, por isso, mais polémica que doutrinal: une-os o que recusam, mais do que aquilo que afirmam.
> _A realidade não é o que parece._
Esta lapidar formulação dos editores de uma retrospetiva recente (Voosholz, _15 Years of Speculative Realism_, 2022) condensa o gesto fundador. Mas cada um dos quatro fundadores entende, em chaves filosóficas profundamente distintas, _o que_ a realidade é, _o que_ ela parece, e _como_ o pensamento pode passar do segundo para o primeiro.
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## Génese: o colóquio de Goldsmiths
A 27 de Abril de 2007, no [Goldsmiths College](https://en.wikipedia.org/wiki/Goldsmiths,_University_of_London) da Universidade de Londres, sob os auspícios do _Centre for the Study of Invention and Social Process_ e em co-patrocínio com a revista [_Collapse_](https://www.urbanomic.com/series/collapse/), realizou-se uma jornada filosófica intitulada _Speculative Realism: A One-Day Workshop_. Moderada por Alberto Toscano, reuniu pela primeira vez quatro filósofos cujos trabalhos, vindos de tradições distintas, convergiam num gesto anti-correlacionista:
- **Ray Brassier** (então na Middlesex University, hoje na American University of Beirut),
- **Iain Hamilton Grant** (University of the West of England),
- **Graham Harman** (então na American University in Cairo),
- **Quentin Meillassoux** (École Normale Supérieure, Paris).
A designação _Speculative Realism_ é geralmente atribuída a Brassier, ainda que Meillassoux tivesse já cunhado, em paralelo, a expressão _materialismo especulativo_ para designar a sua própria posição. As atas do encontro foram publicadas no terceiro número da revista _[Collapse](https://www.urbanomic.com/chapter/collapse-iii-ray-brassier-iain-hamilton-grant-graham-harman-quentin-meillassoux-speculative-realism/)_ (2007).
Um segundo colóquio, intitulado _Speculative Realism / Speculative Materialism_, realizou-se a 24 de Abril de 2009 na Universidade do Oeste de Inglaterra (UWE Bristol), com Brassier, Grant, Harman e - em substituição de Meillassoux, ausente - Alberto Toscano. Foi precisamente nesse segundo encontro que se revelaram, com nitidez crescente, **as fissuras internas do movimento**: as divergências entre os quatro mostraram-se talvez maiores do que a convergência polémica que os reunira em 2007.
Os anos subsequentes confirmaram esta dispersão. Como observou [[Slavoj Žižek]] em _Less Than Nothing_ (2012), o Realismo Especulativo _fragmentou-se em fações_ logo após o evento de Goldsmiths. Mas é precisamente esta fragmentação que torna o movimento intelectualmente fecundo: cada uma das suas quatro veredas constituiu, no decénio seguinte, um programa filosófico desenvolvido com profundidade própria.
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## O alvo comum: o correlacionismo
A palavra-chave do movimento - quase a sua palavra-passe - é **correlacionismo**, conceito cunhado por **Quentin Meillassoux** no seu livro _[Après la finitude](https://en.wikipedia.org/wiki/After_Finitude)_ (Seuil, 2006), traduzido em inglês por Ray Brassier como _After Finitude_ (Continuum, 2008).
### Definição
Designa-se por _correlacionismo_ a tese, dominante na filosofia europeia desde [Kant](https://pt.wikipedia.org/wiki/Immanuel_Kant), segundo a qual **só temos acesso à correlação entre pensamento e ser, nunca a um ou outro tomados isoladamente**. Não há pensamento sem objeto pensado, nem objeto pensado sem sujeito que o pensa: ser e pensar dão-se sempre juntos, e qualquer tentativa de aceder ao ser-em-si - ao real _fora_ da relação com o sujeito - é, na perspetiva correlacionista, ou ilusão pré-crítica ou questão sem sentido.
Nas palavras de Meillassoux, o correlacionismo é a posição que consiste em afirmar que _nunca temos acesso a um ser que existiria independentemente da nossa relação com ele_. As filosofias que dele se reclamam, ainda que sob outros nomes, formam, segundo Meillassoux, a **moeda corrente** da [filosofia continental](https://pt.wikipedia.org/wiki/Filosofia_continental) pós-kantiana - incluindo a [fenomenologia](https://pt.wikipedia.org/wiki/Fenomenologia) husserliana, o pensamento de [Heidegger](https://pt.wikipedia.org/wiki/Martin_Heidegger), a hermenêutica de [Gadamer](https://pt.wikipedia.org/wiki/Hans-Georg_Gadamer), boa parte do estruturalismo e da pós-modernidade.
> _Os filósofos contemporâneos perderam o grande exterior, o absoluto fora dos pensadores pré-críticos._ - Meillassoux, _Après la finitude_
### O argumento do arqui-fóssil
A pedra de toque do anti-correlacionismo de Meillassoux é o célebre **argumento do arqui-fóssil** (_arche-fossile_), exposto no primeiro capítulo de _Après la finitude_. A estratégia é simples e devastadora.
A ciência empírica produz hoje, com confiança crescente, **enunciados ancestrais**: afirmações sobre realidades anteriores ao aparecimento da vida na Terra - a idade do universo, do sistema solar, da formação dos primeiros seres vivos - datadas com precisão por isótopos radioativos, os tais _arqui-fósseis_ que servem de evidência material desses enunciados.
A questão de Meillassoux: **que sentido pode dar o correlacionista a estes enunciados?** Se _ser_ é sempre _ser-para-um-sujeito_, como pode haver eventos ancestrais, anteriores a qualquer sujeito? O correlacionista pode tentar reformular: _para a comunidade científica presente, é verdadeiro que houve, há 4,5 mil milhões de anos, um sistema solar_. Mas, observa Meillassoux, este _para nós_ trai a literalidade do enunciado científico: a ciência diz que as coisas se passaram _em si mesmas_, não _para os cientistas de hoje_. Aceitar a reformulação correlacionista equivale a sustentar uma __espécie de criacionismo_ invertido_*: o que é precedeu, no tempo, a manifestação do que é.
A conclusão de Meillassoux: o correlacionismo é incompatível com a literalidade do discurso científico moderno; logo, é insustentável. É necessário sair do **círculo correlacionista**, regressar ao _grande exterior_ - não, contudo, por restauração do realismo ingénuo pré-kantiano, mas por uma via _especulativa_ que reabilite a possibilidade do absoluto.
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## Os quatro fundadores: quatro caminhos
A originalidade do Realismo Especulativo está em que os quatro filósofos de Goldsmiths, partilhando o diagnóstico anti-correlacionista, **propuseram quatro caminhos profundamente diferentes** para sair do círculo. Cada um merece tratamento próprio.
### Quentin Meillassoux: materialismo especulativo
[Quentin Meillassoux](https://en.wikipedia.org/wiki/Quentin_Meillassoux) (n. 1967), discípulo de [Alain Badiou](https://pt.wikipedia.org/wiki/Alain_Badiou) na École Normale Supérieure, é o autor do livro fundador da corrente: _[Após a finitude - Ensaio sobre a necessidade da contingência](https://en.wikipedia.org/wiki/After_Finitude)_ (2006).
A sua proposta - chamada _materialismo especulativo_ - desenvolve-se em duas teses paradoxais:
- **A contingência é necessária.** O único absoluto que o pensamento pode alcançar é o da _facticidade_: o facto de que as leis da natureza, as constantes físicas, todas as estruturas da realidade _poderiam ser de outro modo_. Esta contingência radical não é, ela mesma, contingente - é o único traço necessário de tudo o que há.
- **As propriedades primárias do real são matemáticas.** Recuperando a distinção cartesiana entre _qualidades primárias_ (matemáticas, próprias das coisas em si) e _qualidades secundárias_ (dependentes da perceção), Meillassoux defende que a matemática é o veículo do acesso especulativo ao absoluto - e a ciência moderna, baseada nesta matematização, não é uma construção cultural, mas o discurso adequado ao real.
A obra de Meillassoux desenvolveu-se desde então em direções inesperadas: a _divindade virtual_ (a possibilidade especulativa de um Deus que ainda não existe), a hermenêutica obsessiva de Mallarmé (_Le Nombre et la sirène_, 2011), e o silêncio relativo dos últimos anos sobre o seu projeto sistemático _L'Inexistence divine_, há muito anunciado e ainda inédito.
### Graham Harman: ontologia orientada-a-objetos
[Graham Harman](https://en.wikipedia.org/wiki/Graham_Harman) (n. 1968) é o mais prolífico e mediático dos quatro, e o que mais contribuiu para a difusão internacional do Realismo Especulativo, em particular na sua interseção com a arquitetura, as artes visuais e os _media studies_.
A sua posição própria, desenvolvida desde _Tool-Being_ (2002), é a [Object-Oriented Ontology](https://en.wikipedia.org/wiki/Object-oriented_ontology) (OOO, lê-se _triple-O_). As suas teses basilares:
- **Ontologia plana.** Tudo é objeto: quarks, instituições, personagens fictícios, números, paisagens, cebolas, a Comunidade Britânica das Nações. Nenhum tipo de objeto goza de estatuto ontológico privilegiado.
- **Retração (_withdrawal_).** Cada objeto encerra uma interioridade que **se retrai** a qualquer relação. Mesmo quando dois objetos se encontram, nunca se tocam _em si mesmos_: cada um excede a relação em que entra.
- **Objeto quádruplo.** Em _The Quadruple Object_ (2011), Harman formaliza a sua doutrina numa estrutura de quatro polos - **objeto real / objeto sensual / qualidades reais / qualidades sensuais** - herdada de uma leitura cruzada de [Heidegger](https://pt.wikipedia.org/wiki/Martin_Heidegger) (a análise do utensílio em _Ser e Tempo_) e de [Husserl](https://pt.wikipedia.org/wiki/Edmund_Husserl) (a fenomenologia das essências).
- **Causação vicária.** Como podem objetos retraídos interagir, se nunca se tocam diretamente? A resposta de Harman é a _causação vicária_ (_vicarious causation_): toda a interação é mediada por _objetos sensuais_ - proxies fenoménicos que coabitam no campo da experiência de um terceiro objeto. A doutrina recupera, em registo contemporâneo, intuições do **ocasionalismo** de Malebranche.
- **Estética como ontologia primeira.** A retração dos objetos torna a _metáfora_ - e, mais geralmente, a experiência estética - o lugar privilegiado de alusão àquilo que, por princípio, não é diretamente acessível.
### Ray Brassier: niilismo especulativo
[Ray Brassier](https://en.wikipedia.org/wiki/Ray_Brassier) (n. 1965) é o mais analítico e o mais austero dos quatro. Tradutor de Meillassoux e de [François Laruelle](https://en.wikipedia.org/wiki/Fran%C3%A7ois_Laruelle), distanciou-se publicamente do Realismo Especulativo já em 2011, considerando que a designação se tornara _moda_ sem correspondência substantiva.
A sua obra capital, _Nihil Unbound: Enlightenment and Extinction_ (Palgrave Macmillan, 2007), é uma **defesa ofensiva do niilismo**. Brassier conjuga, contra a tendência dominante da filosofia continental e analítica do final do século XX:
- O **materialismo eliminativo** dos Churchland - a tese de que conceitos como _crença_, _desejo_ ou _intenção_ (a _folk psychology_) serão, no limite do progresso da neurociência, eliminados como o flogisto ou os humores hipocráticos.
- O **realismo científico** de [Wilfrid Sellars](https://pt.wikipedia.org/wiki/Wilfrid_Sellars) e da sua célebre distinção entre _imagem manifesta_ e _imagem científica_ do mundo.
- A **não-filosofia** de Laruelle, instrumento de crítica radical à _decisionalidade_ - a estrutura constitutiva da filosofia como discurso.
A tese de fundo é que o pensamento, levado às suas últimas consequências, se confronta com a **extinção** - o sol, dentro de cerca de 4,5 mil milhões de anos, queimar-se-á; e essa extinção definitiva do horizonte da experiência humana já é, agora, _real_, e desafia qualquer filosofia que faça do sentido humano o último refúgio do absoluto. Não há resgate fenomenológico, hermenêutico ou pragmático: o niilismo, em Brassier, não é doença a curar, mas oportunidade especulativa.
### Iain Hamilton Grant: idealismo da natureza
[Iain Hamilton Grant](https://en.wikipedia.org/wiki/Iain_Hamilton_Grant) (n. 1963) é, dos quatro, o menos visível mediaticamente, mas talvez o mais sistemático. A sua obra principal, _Philosophies of Nature after Schelling_ (Continuum, 2006), recupera a [_Naturphilosophie_](https://pt.wikipedia.org/wiki/Naturphilosophie) do idealismo alemão - em particular a de [F. W. J. Schelling](https://pt.wikipedia.org/wiki/Friedrich_Schelling) - para propor um realismo monista em que a natureza não é objeto entre objetos, mas **produtividade infinita** que precede e excede toda a forma individual.
Para Grant, os objetos discretos, longe de constituírem o mobiliário básico do real (como em Harman), são **produtos efémeros** de uma hipernatureza geradora subjacente. A oposição entre os dois é interna ao Realismo Especulativo e profunda: onde a OOO multiplica os objetos, o idealismo grantiano dissolve-os no fluxo da génese.
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## Linhas de fratura interna
A dispersão do Realismo Especulativo, longe de ser acidente, decorre da incompatibilidade estrutural dos quatro programas. Eis as principais fraturas:
### Materialismo vs idealismo
**Brassier e Meillassoux** orientam-se para um materialismo (eliminativo no primeiro, matemático no segundo). **Grant** retoma o idealismo da _Naturphilosophie_ schellinguiana. **Harman**, paradoxalmente, recusa as duas etiquetas: o seu _realismo dos objetos_ não é nem material no sentido reducionista, nem ideal no sentido subjetivista.
### Objetos vs processos
Para Harman, a unidade fundamental é o **objeto discreto**, retraído. Para Grant, é o **processo produtivo** da hipernatureza - os objetos são derivados, transitórios. Esta divergência ontológica fundamental tornou já em 2009, no segundo colóquio, evidente que os quatro programas mal podiam dialogar.
### Lugar da ciência
**Meillassoux** atribui à matemática moderna a chave do absoluto. **Brassier**, embora informado pela ciência, recusa qualquer naturalismo metafísico que lhe atribua estatuto transcendental. **Harman** é frequentemente acusado de não dar conta adequada das ciências naturais. **Grant** reabilita uma noção pré-crítica de natureza com pouca relação com a ciência contemporânea.
### Atitude perante a metafísica
**Harman** assume sem reservas o seu projeto como _metafísica_. **Brassier** prefere falar de uma _transcendência negativa_. **Meillassoux** propõe uma _metafísica não-metafísica_, sem necessidade. **Grant** retoma o gesto especulativo do idealismo alemão sem hesitação.
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## Realismo Especulativo e Novo Realismo: aproximações e diferenças
Embora frequentemente confundidos, [[Novo Realismo]] e Realismo Especulativo designam projetos distintos, com tempos, geografias e estilos próprios. A tabela que se segue sintetiza os principais traços diferenciais.
||**Realismo Especulativo**|**Novo Realismo**|
|---|---|---|
|**Origem**|Goldsmiths College, Londres, 27 de Abril de 2007|Restaurante _Al Vinacciolo_, Nápoles, 23 de Junho de 2011|
|**Adversário declarado**|Correlacionismo pós-kantiano|Construtivismo pós-moderno|
|**Estilo dominante**|Especulativo, sistemático, frequentemente abstrato|Argumentativo, atento à intervenção pública|
|**Figuras centrais**|Meillassoux, Harman, Brassier, Grant|Ferraris, [[Markus Gabriel]], De Caro, Eco|
|**Coesão interna**|Movimento polémico, fragmentado desde 2009|Programa relativamente coeso|
|**Atitude perante a metafísica**|Reabilitação especulativa (sobretudo Harman, Meillassoux, Grant)|Suspeição (sobretudo em Gabriel)|
Há **convergência no espírito anti-correlacionista**: ambos os movimentos pretendem reabrir a filosofia ao real. Mas a diferença é mais do que cronológica. [[bd/autores/Markus Gabriel]] critica explicitamente em [Meillassoux](https://en.wikipedia.org/wiki/Quentin_Meillassoux) a permanência de uma **aspiração metafísica residual** que considera incompatível com a recusa coerente da totalidade - recusa que constitui, ela mesma, o coração da [[Ontologia dos Campos de Sentido]] gabrieliana. Inversamente, alguns proponentes do Realismo Especulativo (Harman, em particular) consideram a posição de Gabriel demasiado próxima da fenomenologia para ser plenamente realista.
A diferença é ainda **temperamental**: o Realismo Especulativo é mais especulativo no sentido literal - admite o salto especulativo para além do dado -, enquanto o Novo Realismo é mais argumentativo, mais atento à crítica cultural e à intervenção na esfera pública.
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## Influência e ressonâncias
Apesar da fragmentação interna, o Realismo Especulativo exerceu - e continua a exercer - influência considerável muito para além dos círculos académicos da filosofia. As suas ondas alcançam:
- **Ecologia e pensamento ambiental** - sobretudo através de [Timothy Morton](https://en.wikipedia.org/wiki/Timothy_Morton), próximo da OOO, e do seu conceito de _hyperobject_ (em _Hyperobjects: Philosophy and Ecology after the End of the World_, 2013).
- **Teoria da arte e arquitetura** - Harman tem sido lido com particular interesse por arquitetos e curadores que vêem na OOO uma alternativa ao construtivismo dominante na _theory_.
- **Estudos dos media e _digital humanities_** - a noção de objeto retraído e a ontologia plana inspiraram leituras pós-humanistas dos artefactos técnicos.
- **Filosofia política** - em registo crítico, autores como [Steven Shaviro](https://en.wikipedia.org/wiki/Steven_Shaviro) prolongaram o programa em diálogo com [Whitehead](https://pt.wikipedia.org/wiki/Alfred_North_Whitehead) e com a teoria política contemporânea.
- **Aceleracionismo** - algumas figuras da nebulosa aceleracionista (Reza Negarestani, parte do círculo da Urbanomic) vieram da órbita brassieriana.
O movimento contribuiu também, de forma decisiva, para **reabilitar a filosofia da natureza** no espaço continental, depois de décadas de hegemonia das filosofias da linguagem, do sujeito e do social.
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## Receção crítica
As objeções ao Realismo Especulativo, abundantes e nem sempre amistosas, organizam-se em torno de quatro eixos:
1. **Caricatura do correlacionismo.** Críticos vindos da [fenomenologia](https://pt.wikipedia.org/wiki/Fenomenologia) e da hermenêutica argumentam que o conceito meillassouxiano de _correlacionismo_ simplifica indevidamente as posições de Kant, Husserl e Heidegger, atribuindo-lhes um anti-realismo que nenhum deles abraçaria.
2. **Insuficiência crítica face à ciência.** Filósofos da ciência observam que o argumento do arqui-fóssil pressupõe uma leitura literalista dos enunciados científicos que a própria filosofia da ciência contemporânea (de [Kuhn](https://pt.wikipedia.org/wiki/Thomas_Kuhn) a Latour) não subscreve.
3. **Resíduos metafísicos.** O Realismo Especulativo é por vezes acusado - sobretudo no caso de Harman - de reintroduzir, sob o disfarce do realismo, uma metafísica das essências e das substâncias que a [filosofia analítica](https://pt.wikipedia.org/wiki/Filosofia_anal%C3%ADtica) tinha laboriosamente desmontado ao longo do século XX.
4. **Falta de unidade doutrinal.** A fragmentação rápida do movimento, observada por Žižek e outros, leva alguns a considerar o Realismo Especulativo _mais um momento sociológico do que uma corrente filosófica_ propriamente dita.
A polémica, contudo, é também medida da fecundidade: poucos movimentos filosóficos das últimas décadas geraram uma bibliografia secundária tão volumosa em tão pouco tempo.
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## Recursos audiovisuais
### Vídeos e palestras
- 🎥 **[Quentin Meillassoux - Time without Becoming (Middlesex University, 2008)](https://www.youtube.com/results?search_query=Meillassoux+Time+without+Becoming)** - Versão sintética do argumento de _Après la finitude_.
- 🎥 **[Graham Harman - Object-Oriented Ontology (várias palestras)](https://www.youtube.com/results?search_query=Graham+Harman+Object+Oriented+Ontology)** - Apresentações abundantes em vídeo, incluindo a célebre conferência _Aesthetics as First Philosophy_ (2007).
- 🎥 **[Ray Brassier - Prometheanism and its Critics](https://www.youtube.com/results?search_query=Ray+Brassier+Prometheanism)** - Brassier em registo de filosofia política contemporânea.
- 🎥 **[Iain Hamilton Grant on Schelling and Naturphilosophie](https://www.youtube.com/results?search_query=Iain+Hamilton+Grant+Schelling)** - Conferências sobre o seu programa de _Naturphilosophie_ contemporânea.
### Documentos fundadores
- 📄 **[_Speculative Realism_ - atas do colóquio de Goldsmiths em _Collapse III_ (Urbanomic, 2007)](https://www.urbanomic.com/chapter/collapse-iii-ray-brassier-iain-hamilton-grant-graham-harman-quentin-meillassoux-speculative-realism/)** - Transcrição completa das intervenções dos quatro fundadores.
- 📄 **[Verbete _Speculative Realism_ na Wikipédia anglófona](https://en.wikipedia.org/wiki/Speculative_realism)**.
- 📄 **[Verbete _Object-Oriented Ontology_ na Wikipédia anglófona](https://en.wikipedia.org/wiki/Object-oriented_ontology)**.
- 📄 **[Recensão a _Speculative Realism: An Introduction_ de Harman, em Notre Dame Philosophical Reviews](https://ndpr.nd.edu/reviews/speculative-realism-an-introduction/)** - Excelente síntese da história interna do movimento.
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## Bibliografia essencial
### Textos fundadores
- Quentin Meillassoux, _Après la finitude. Essai sur la nécessité de la contingence_. Paris: Seuil, 2006. [Trad. inglesa: _After Finitude_, trad. Ray Brassier, London: Continuum, 2008.]
- Ray Brassier, _Nihil Unbound: Enlightenment and Extinction_. Basingstoke: Palgrave Macmillan, 2007.
- Graham Harman, _Tool-Being: Heidegger and the Metaphysics of Objects_. Chicago: Open Court, 2002.
- Graham Harman, _The Quadruple Object_. Winchester: Zero Books, 2011.
- Iain Hamilton Grant, _Philosophies of Nature after Schelling_. London: Continuum, 2006.
### Volumes coletivos e introduções
- Levi Bryant, Nick Srnicek & Graham Harman (eds.), _The Speculative Turn: Continental Materialism and Realism_. Melbourne: re.press, 2011. (Disponível em [acesso aberto](https://re-press.org/book-files/OA_Version_Speculative_Turn_9780980668346.pdf).)
- Graham Harman, _Speculative Realism: An Introduction_. Cambridge: Polity Press, 2018.
- Peter Gratton, _Speculative Realism: Problems and Prospects_. London: Bloomsbury, 2014.
- Steven Shaviro, _The Universe of Things: On Speculative Realism_. Minneapolis: University of Minnesota Press, 2014.
### Prolongamentos e diálogos
- Timothy Morton, _Hyperobjects: Philosophy and Ecology after the End of the World_. Minneapolis: University of Minnesota Press, 2013.
- Tristan Garcia, _Forme et objet. Un traité des choses_. Paris: PUF, 2011.
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## Hiperligações internas
- [[Markus Gabriel]]
- [[Novo Realismo]]
- [[Ontologia dos Campos de Sentido]]
- [[Pluralismo Ontológico]]
- [[Ontologia]]
- [[Epistemologia]]
- [[Filosofia Continental]]
- [[Filosofia Analítica]]
- [[Schelling]]
- [[Hegel]]
- [[Correlacionismo]]
- [[Naturphilosophie]]
- [[Object-Oriented Ontology]]
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## Notas finais
O Realismo Especulativo é, no panorama da filosofia das primeiras décadas do século XXI, **menos uma escola do que um sintoma** - sintoma de uma fadiga geracional perante a hegemonia, longa e por vezes asfixiante, das filosofias do sujeito, da linguagem e do texto. Os seus quatro fundadores não construíram uma doutrina comum, e o movimento dispersou-se rapidamente nas suas componentes; mas o gesto inicial - _sair do círculo correlacionista, regressar ao grande exterior_ - abriu o espaço em que se viriam a inscrever, com modalidades distintas, o [[Novo Realismo]] de [[Markus Gabriel]] e Ferraris, a Object-Oriented Ontology de Harman, o ressurgimento da filosofia da natureza, a ecologia escura de Morton, e parte significativa das filosofias contemporâneas da técnica e dos _media_.
Que o real preceda o pensamento, que pense para além daquilo que pensa de si mesmo, que haja **mundo antes e depois de nós** - esta convicção, antiga como a própria filosofia, voltou a tornar-se filosoficamente respeitável graças ao trabalho destes quatro pensadores, no salão do Goldsmiths College, numa tarde de Abril de 2007.
Resta a tarefa, em larga medida ainda em aberto, de **traduzir esta convicção em filosofia rigorosa** - sem regredir ao realismo ingénuo, sem capitular ao cientismo, sem reverter ao dogmatismo metafísico que o próprio Kant tinha, com razões tão sérias, denunciado.
> _Ignorantia non est argumentum._
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#filosofia #ontologia #realismo-especulativo