# Schelling > *Die Natur soll der sichtbare Geist, der Geist die unsichtbare Natur sein.* > *- **A natureza deve ser o espírito visível, o espírito a natureza invisível**.* > - F. W. J. Schelling, **Ideias para uma Filosofia da Natureza**, Introdução ![Retrato de Schelling por Joseph Karl Stieler, 1835](https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/9/9a/Friedrich_Wilhelm_Joseph_Schelling%2C_1848_daguerreotype_-_cropped.jpg?utm_source=commons.wikimedia.org&utm_campaign=index&utm_content=thumbnail_unscaled&_=20200919121621) <sub>*Retrato de **Friedrich Wilhelm Joseph Schelling** por Joseph Karl Stieler, 1835. Imagem do Wikimedia Commons, domínio público.*</sub> --- ## Apontamento biográfico **Friedrich Wilhelm Joseph Schelling** nasceu em [Leonberg](https://pt.wikipedia.org/wiki/Leonberg), no ducado de Württemberg, a 27 de Janeiro de 1775 - cinco anos depois de [[Hegel]] e cinco depois de Hölderlin -, e morreu em [Bad Ragaz](https://pt.wikipedia.org/wiki/Bad_Ragaz), na Suíça, a 20 de Agosto de 1854, com setenta e nove anos. Filho de um pastor luterano de notável erudição filológica, foi uma criança de talento prodigioso: aos quinze anos, demasiado novo para ser admitido formalmente, foi excecionalmente acolhido no célebre [Tübinger Stift](https://en.wikipedia.org/wiki/Tübinger_Stift), o seminário protestante de Tubinga onde se formavam os clérigos e teólogos do reino. Aí encontrou os dois condiscípulos que partilhariam, com ele, o quarto que entrou para a história da filosofia como o quarto da ***Tübingen Trinity*** - Friedrich Hölderlin e Georg Wilhelm Friedrich [[Hegel]], ambos cinco anos mais velhos. Na primavera revolucionária de 1789-1791, os três jovens partilharam o entusiasmo pela [Revolução Francesa](https://pt.wikipedia.org/wiki/Revolu%C3%A7%C3%A3o_Francesa), terão plantado em conjunto, ao que se conta, uma *árvore da liberdade* nos arredores da cidade, e desenharam, num documento programático conhecido como *Das älteste Systemprogramm des deutschen Idealismus* (*O Mais Antigo Programa Sistemático do Idealismo Alemão*, c. 1796) - atribuído alternadamente a um dos três -, as linhas mestras do que viria a ser o **idealismo alemão**. Aos vinte e três anos, Schelling era já catedrático em [Iena](https://pt.wikipedia.org/wiki/Iena) - a *Mecca* filosófica da época, onde Fichte ensinava e onde os irmãos Schlegel, Tieck e Novalis lançavam os fundamentos do romantismo alemão. Aos trinta, era reconhecido em toda a Alemanha como o pensador maior da sua geração. Conheceu, entretanto, Caroline Schlegel, mulher culta que se divorciou em 1803 do seu primeiro marido (August Wilhelm Schlegel), e casou com ela; a sua morte súbita em 1809 deixou-o desolado. A trajetória subsequente é, talvez, **a mais sinuosa e enigmática da história da filosofia moderna**. Após 1809, Schelling publica pouco. Continua a lecionar - em Munique, depois em Erlanga -, mas a sua obra parece desaparecer da cena pública, eclipsada pela ascensão fulgurante de Hegel. Quando, em 1841, finalmente sucede a Hegel na cátedra de Berlim - convocado pelo rei Frederico Guilherme IV para *combater o dragão do panteísmo hegeliano* -, é um homem de sessenta e seis anos cuja *última filosofia* fascinará uma audiência que incluía, entre os ouvintes, [Søren Kierkegaard](https://pt.wikipedia.org/wiki/Søren_Kierkegaard), Mikhail Bakunine, Friedrich Engels, Jacob Burckhardt e - segundo registos contemporâneos - possivelmente o próprio Karl Marx. A *Spätphilosophie* schellinguiana - a sua *filosofia tardia*, dedicada à mitologia e à revelação - só foi publicada postumamente pelos seus filhos, em quatro volumes, entre 1856 e 1858. Durante mais de um século permaneceu marginal. O seu redescobrimento, no segundo pós-guerra, é um dos episódios mais significativos da história recente da filosofia - e, neste jardim, **o ponto em que Schelling se torna fonte declarada de [[Markus Gabriel]]**, cuja tese de doutoramento, *Der Mensch im Mythos* (2006), é precisamente sobre a *Filosofia da Mitologia* schellinguiana. --- ## Os três Schellings A obra de Schelling tem uma característica desconcertante para o leitor escolar: **muda profundamente, várias vezes, ao longo de mais de sessenta anos de produção**. O próprio Schelling, com humor lúcido, dizia ter escrito *demasiados livros para um só filósofo*. A historiografia tradicional, com algum esquematismo útil, distingue **três grandes momentos** - três *Schellings* - cuja unidade é matéria de longa controvérsia entre comentadores. ### I. O Schelling fichtiano e a *Naturphilosophie* (1794-1800) Os primeiros escritos schellinguianos - *Sobre a possibilidade de uma forma da filosofia em geral* (1794), *Do Eu como princípio da filosofia* (1795) - situam-no na órbita declarada de **Fichte**, cuja *Doutrina-da-Ciência* (*Wissenschaftslehre*) ele radicaliza com talento juvenil. Mas Schelling, mais sensível à natureza concreta do que o subjetivismo fichtiano, depressa se autonomiza. Em 1797, com vinte e dois anos, publica as ***[Ideias para uma Filosofia da Natureza](https://en.wikipedia.org/wiki/Ideas_for_a_Philosophy_of_Nature)*** (*Ideen zu einer Philosophie der Natur*) - obra-manifesto que funda a célebre **[Naturphilosophie](https://pt.wikipedia.org/wiki/Naturphilosophie)** schellinguiana, programa que ocupará uma boa parte da sua produção até cerca de 1800. A intuição é tão simples na formulação como vertiginosa nas consequências: **a natureza não é matéria inerte governada de fora pelas leis que o entendimento lhe impõe** (como em Newton e em parte do kantismo), nem é apenas o lado *objetivo* de um sujeito transcendental (como em Fichte). A natureza é, ela própria, *produtividade* - atividade, dinamismo, *Subjekt-Objekt* originário em que pensamento e ser são duas faces da mesma realidade. *Spirit is invisible nature, and nature is visible spirit*: a divisa, retomada de Schelling em obras posteriores, condensa este idealismo da natureza. Schelling concebe a natureza como uma hierarquia de **potências** (*Potenzen*) - graus de auto-organização - em que cada nível supera dialeticamente o anterior, do magnetismo à eletricidade, ao galvanismo, ao organismo, à consciência. A natureza não tem teleologia *imposta*: tem, no seu próprio movimento, uma *teleologia imanente* que culmina, no homem, na auto-consciência da natureza por si mesma. Esta filosofia da natureza, longe de ser apenas especulação metafísica, manteve diálogo intenso com a ciência da época: Schelling correspondeu-se com cientistas como Hans Christian Ørsted (descobridor do eletromagnetismo, 1820), influenciou Lorenz Oken e Carl Gustav Carus, e esteve na origem do clima intelectual em que o próprio Goethe formulou a sua *Farbenlehre* (*Doutrina das Cores*). ### II. A filosofia da identidade (1801-1809) A partir de 1801 - com a *Darstellung meines Systems der Philosophie* (*Apresentação do Meu Sistema de Filosofia*) - Schelling formula a sua **filosofia da identidade** (*Identitätsphilosophie*), tentativa ambiciosa de unificar *Naturphilosophie* e idealismo transcendental num único sistema do absoluto. A tese: **a identidade absoluta** (*absolute Identität*) entre sujeito e objeto, ideal e real, espírito e natureza, é o princípio último de toda a filosofia. Esta identidade não é uma síntese a posteriori - não é uma reconciliação obtida no fim do processo. É o ponto de partida originário a partir do qual ambos os polos se diferenciam por *quantitative* (não por *qualitative*) _Differenz_: o que distingue o lado natural do lado espiritual da realidade é apenas o predomínio relativo de um polo sobre o outro, sem que jamais se rompa a sua identidade essencial. Foi precisamente esta filosofia da identidade que [[Hegel]], em 1807 - no célebre *Prefácio* à *Fenomenologia do Espírito* -, atacaria com o aforismo demolidor: *é a noite em que todas as vacas são pretas*. Hegel acusava Schelling de uma intuição mística do absoluto que dissolve as diferenças concretas em vez de as articular. **A rutura entre os dois antigos amigos foi consumada nesse golpe** - e Schelling, profundamente magoado, jamais se reconciliou com Hegel. Em 1809, Schelling publica as ***Investigações Filosóficas sobre a Essência da Liberdade Humana*** (*Philosophische Untersuchungen über das Wesen der menschlichen Freiheit*), última grande obra do segundo período. Texto de extraordinária densidade, situa-se na fronteira entre filosofia da identidade e o que viria depois. Aí Schelling reconhece, contra todo o panlogicismo, que **no fundo do real há um princípio obscuro, irracional, "abismo" (*Ungrund*) que precede e excede a razão**. A liberdade humana - bem como a possibilidade do mal - só é pensável a partir desse fundo escuro. > *Sem o conceito de um fundo obscuro em Deus, distinto do próprio Deus, nenhuma filosofia da liberdade é possível.* > > - Schelling, *Sobre a Essência da Liberdade Humana* A frase, prenúncio do que será a *Spätphilosophie*, anuncia uma viragem decisiva: **o real não se deixa esgotar na transparência do conceito**. Há, no real, um *resto* que escapa. ### III. A filosofia tardia: mitologia e revelação (1810-1854) Após 1809 - devastado pela morte de Caroline, eclipsado pelo sucesso berlinense de Hegel - Schelling entra num longo período de aparente silêncio público. Trabalha intensamente, contudo, num projeto monumental, *Die Weltalter* (*As Idades do Mundo*), de que redigirá três versões sucessivas (1811, 1813, 1815) sem nunca o publicar em vida - só virá a lume postumamente, em 1946. Em 1841, finalmente, Schelling sobe à cátedra de Berlim - herdando o lugar de Hegel, falecido dez anos antes. Profere então, perante uma audiência atónita e em parte dececionada, as *Lições sobre a Filosofia da Mitologia* e as *Lições sobre a Filosofia da Revelação*, que constituem o coração da sua **filosofia tardia** (*Spätphilosophie*). A grande distinção sistemática desta última fase é a oposição entre **filosofia negativa** e **filosofia positiva**: - **Filosofia negativa** - é a filosofia que, como Hegel, parte do conceito puro e procura derivar dele a totalidade do real. Pode estabelecer apenas o que pode ser, a *possibilidade* da existência. É filosofia *quia est* - filosofia *do que é*, no sentido essencial. - **Filosofia positiva** - é a filosofia que parte do facto bruto da existência: do *que* o mundo é, antes de qualquer dedução conceptual. É filosofia *quod est* - filosofia *do que existe*, daquilo que se dá efetivamente. A tese de Schelling: **a filosofia negativa é necessária mas insuficiente**. Não pode chegar à existência efetiva, apenas à essência. Para apreender o *facto* do mundo - a sua existência contingente, irredutível, escandalosamente *isto* - é necessária uma filosofia positiva que mobilize a história, a mitologia, a revelação. **A mitologia e a religião não são preâmbulo a superar pela filosofia**: são *fenómenos da consciência absoluta* que a filosofia tem de pensar, sem os reduzir, na sua espessura própria. Esta crítica antecipa, em quase um século, parte das objeções que serão depois formuladas a Hegel - pelo existencialismo de [Kierkegaard](https://pt.wikipedia.org/wiki/Søren_Kierkegaard), pelo *Heidegger* de *Sein und Zeit*, pelo [[Markus Gabriel]] de *Porque Não Existe o Mundo*: **o real excede o conceito**. --- ## Conceitos centrais ### *Naturphilosophie* A **filosofia da natureza** (*Naturphilosophie*) é, sem dúvida, o legado schellinguiano de mais ampla repercussão. Reabilitou, contra o reducionismo mecanicista herdado de Newton e do iluminismo francês, uma conceção da natureza como **realidade ativa, produtiva, com lógica própria**, da qual a consciência humana é apenas o ponto culminante mas não a origem. A *Naturphilosophie* tem hoje, contra todas as expectativas, uma vida vigorosa: foi reabilitada filosoficamente por [Iain Hamilton Grant](https://en.wikipedia.org/wiki/Iain_Hamilton_Grant), um dos quatro fundadores do [[Realismo Especulativo]], em *Philosophies of Nature after Schelling* (Continuum, 2006). Contra a domesticação fenomenológica e antropológica da natureza típica do século XX, Grant - e, em parte, o ecologista filosófico Timothy Morton - vê em Schelling o pensador de uma natureza que é, em si mesma, real, produtiva, irredutível ao horizonte humano. ### Identidade absoluta A **identidade absoluta** (*absolute Identität*) é o princípio fundamental da filosofia da identidade do segundo Schelling. Não é uma identidade lógica trivial (A = A) nem uma identidade empírica entre objetos: é a *unidade originária* sujeito-objeto, espírito-natureza, ideal-real, antes de qualquer separação conceptual. As diferenças são *quantitativas* - predomínios relativos -, não qualitativas: nada é puramente espiritual nem puramente material; tudo é manifestação parcial da identidade absoluta. ### O *Ungrund*: o abismo O conceito de ***Ungrund*** - literalmente *não-fundamento* ou *abismo* -, introduzido nas *Investigações sobre a Liberdade* de 1809, é uma das mais ousadas inovações conceptuais do idealismo alemão. Schelling, lendo o místico [Jakob Boehme](https://pt.wikipedia.org/wiki/Jakob_Boehme), recupera a noção de que **no próprio fundo da realidade, e mesmo no fundo de Deus, há algo que não é racional, que não é positivamente determinado, mas que é a condição mesma de toda a determinação** - um *fundo obscuro*, anterior à distinção entre bem e mal, entre ordem e caos. Sem este *Ungrund*, dirá Schelling, não há liberdade autêntica. A liberdade não é mera espontaneidade racional (Kant): é a capacidade de escolher o bem ou o mal, e essa capacidade pressupõe que o real tenha um *fundo* que o exceda. A intuição é abissal - e foi-o tanto para Heidegger (que a leu como antecipação da sua *diferença ontológica*) como para [Slavoj Žižek](https://pt.wikipedia.org/wiki/Slavoj_%C5%BDi%C5%BEek), que dela faz, em *The Indivisible Remainder* (1996), o pivô de uma releitura lacaniana do idealismo alemão. ### Potências (*Potenzen*) A doutrina das **potências** atravessa toda a obra schellinguiana, da *Naturphilosophie* à *Spätphilosophie*. Designa os *graus de auto-determinação* da realidade: cada nível do real é uma *potência* - termo carregado de ressonâncias aristotélicas (*dynamis*) - que contém em si um momento subjetivo e um momento objetivo, e que se eleva ao nível seguinte por uma operação que Schelling designa por *potenciação* (*Potenzierung*). A doutrina é particularmente densa na filosofia tardia, em que Schelling distingue as *três potências* da divindade - *Potenz* infinita primeira, segunda e terceira - articulando-as com o desdobramento histórico da consciência mítica e religiosa. ### Filosofia negativa / filosofia positiva A distinção, central na *Spätphilosophie*, é talvez a contribuição schellinguiana mais decisiva para a filosofia contemporânea - e o ponto de articulação direta com [[Markus Gabriel]]. Tratada acima na exposição do terceiro Schelling, importa recordar a sua estrutura: a filosofia negativa estabelece o que pode ser; a filosofia positiva começa daquilo que efetivamente é, e exige por isso recurso à história, à mitologia, à revelação - *facta* que excedem qualquer dedução pura. --- ## Schelling: a fonte de Markus Gabriel A relação entre Schelling e [[Markus Gabriel]] não é acessória, nem é mera referência erudita: é **constitutiva** do programa filosófico gabrieliano. A tese de doutoramento de Gabriel, defendida em Heidelberga em 2005 e publicada em 2006 com o título *[Der Mensch im Mythos: Untersuchungen über Ontotheologie, Anthropologie und Selbstbewusstseinsgeschichte in Schellings Philosophie der Mythologie](https://www.degruyterbrill.com/document/doi/10.1515/9783110927917/html)* (*O Homem no Mito*), é uma vasta exegese (mais de quinhentas páginas) da *Philosophie der Mythologie* schellinguiana, com particular atenção à *Spätphilosophie*. A tese de Gabriel: **Schelling, na sua filosofia tardia, opera uma rutura decisiva com a ontoteologia hegeliana**, recusando que a totalidade do real possa ser encerrada num saber absoluto. Em vez disso, Schelling defende uma filosofia que reconhece o seu caráter *limitado*, e que se completa não pela via dedutiva pura, mas pela atenção àquilo que aparece historicamente - na mitologia, na religião - como *facto irredutível*. Esta intuição schellinguiana é, na leitura gabrieliana, a *origem profunda* do [[Novo Realismo]] e da [[Ontologia dos Campos de Sentido]]: - A recusa schellinguiana da totalidade absoluta hegeliana antecipa o ***no-world view*** de Gabriel - a tese de que *o mundo*, como totalidade dos campos, não pode existir. - A doutrina das *potências* schellinguianas, com a sua pluralidade de níveis irredutíveis, prefigura a doutrina dos *campos de sentido*. - A insistência schellinguiana no facto irredutível da existência - *a contingência é o único absoluto* -, antecipa o anti-totalitarismo ontológico contemporâneo. Gabriel, num gesto característico, **lê Schelling não como um pensador histórico a comemorar, mas como um interlocutor vivo a quem se dirige perguntas atuais**. A continuidade entre a *Spätphilosophie* berlinense de 1841 e a *Sinnfeldontologie* bonense de 2015 - a continuidade entre a aula em que Kierkegaard se sentava entre os ouvintes e o livro que hoje se discute em colóquios académicos - é uma das demonstrações mais elegantes de que a filosofia, quando bem feita, **é um diálogo que dispensa a cronologia**. --- ## Schelling e o sublime romântico Há ainda uma dimensão schellinguiana que importa, neste jardim, evidenciar: a sua **filosofia da arte** e a sua influência sobre o [Romantismo Alemão](https://pt.wikipedia.org/wiki/Romantismo_alem%C3%A3o), em particular na constelação de Iena (Schlegel, Novalis, Tieck) onde leciona a partir de 1798 - a constelação que será o húmus em que se forma a sensibilidade pictórica de [Caspar David Friedrich](https://paulopinto.place/Frutos/A%20experi%C3%AAncia%20do%20sublime%20na%20obra%20de%20Caspar%20David%20Friedrich). Em *Sistema do Idealismo Transcendental* (1800) e nas *Lições sobre a Filosofia da Arte* (1802-1803), Schelling defende uma tese que terá enorme repercussão na cultura romântica: **a arte é o órgão supremo da filosofia**. É nela - não na ciência, não na religião, não na política - que o absoluto se manifesta de modo mais imediato e mais pleno, porque a obra de arte é o lugar em que a *unidade originária* sujeito-objeto se torna sensivelmente presente. Esta elevação ontológica da arte distingue Schelling de [[Hegel]], para quem a arte é uma forma já superada do espírito absoluto, destinada a ser ultrapassada pela religião e pela filosofia. Para Schelling, ao invés, **a arte mantém uma dignidade ontológica irredutível**: o que ela mostra, mostra-o como nenhuma outra forma de saber pode mostrar. Não é por acaso que Schelling foi o filósofo do romantismo alemão *par excellence*. A sua filosofia da natureza e da arte fornece o quadro conceptual em que a melancolia, a transcendência, o sentimento do *sublime* friedrichianos encontram a sua articulação filosófica mais densa: a natureza enquanto manifestação visível do espírito invisível, e a obra de arte como lugar em que essa manifestação se condensa. --- ## Receção crítica A receção de Schelling tem uma característica notável: **descontinuidade absoluta**. Aclamado em vida como o filósofo maior da sua geração, eclipsado depois por [[Hegel]] durante quase um século, redescoberto no século XX por filósofos tão díspares quanto [Heidegger](https://pt.wikipedia.org/wiki/Martin_Heidegger), Habermas, Manfred Frank, Walter Schulz, Jürgen Habermas e - finalmente - [[Markus Gabriel]] e [Iain Hamilton Grant](https://en.wikipedia.org/wiki/Iain_Hamilton_Grant), Schelling é hoje uma das figuras mais ativas da agenda filosófica contemporânea. As objeções históricas mais frequentes: 1. **A acusação de inconstância sistemática.** O facto de a obra de Schelling se modificar tanto ao longo de sessenta anos foi sempre apresentado, por críticos hegelianos, como sintoma de falta de rigor. Comentadores recentes (Frank, Bowie) defendem, ao invés, que cada *Schelling* responde a problemas filosóficos distintos, e que a multiplicidade dos sistemas é resposta legítima à complexidade do real. 2. **A acusação de irracionalismo.** A introdução do *Ungrund*, da liberdade radical, do *facto bruto* da existência foi lida - sobretudo por hegelianos e por neo-kantianos - como recaída pré-crítica no irracional. A leitura contemporânea (Žižek, Gabriel) inverte o juízo: precisamente este *resto irracional* é o que protege a filosofia da hubris totalizante. 3. **A acusação de obscurantismo religioso.** A *Spätphilosophie*, com a sua atenção à mitologia e à revelação, foi descartada por gerações de leitores como derrapagem teológica de um Schelling cansado e conservador. As leituras recentes restituem-lhe a dignidade filosófica: a *Filosofia da Mitologia* não é teologia disfarçada, é antropologia filosófica da consciência simbólica. --- ## Recursos audiovisuais ### Vídeos e palestras - 🎥 **[Markus Gabriel - Schelling and the New Realism](https://www.youtube.com/results?search_query=Markus+Gabriel+Schelling)** - Várias palestras em que Gabriel articula a sua leitura de Schelling com o programa do [[Novo Realismo]]. - 🎥 **[Andrew Bowie - Schelling and the Limits of Idealism](https://www.youtube.com/results?search_query=Andrew+Bowie+Schelling)** - Conferências de um dos mais respeitados comentadores anglófonos. - 🎥 **[Slavoj Žižek - Schelling, Hegel and the Indivisible Remainder](https://www.youtube.com/results?search_query=Zizek+Schelling+Indivisible+Remainder)** - Žižek em registo schellinguiano e lacaniano. - 🎥 **[Iain Hamilton Grant - Schelling and the Logic of Nature](https://www.youtube.com/results?search_query=Iain+Hamilton+Grant+Schelling)** - Conferências sobre a atualidade da *Naturphilosophie*. ### Textos online - 📄 **[Verbete *Schelling* na Stanford Encyclopedia of Philosophy](https://plato.stanford.edu/entries/schelling/)** - Por Andrew Bowie, síntese de referência. - 📄 **[Verbete *Schelling* na Internet Encyclopedia of Philosophy](https://iep.utm.edu/schellin/)** - Apresentação acessível, organizada cronologicamente. - 📄 **[*Naturphilosophie* - entrada na Wikipédia portuguesa](https://pt.wikipedia.org/wiki/Naturphilosophie)**. --- ## Bibliografia essencial ### Obras de Schelling em português - *Cartas Filosóficas sobre o Dogmatismo e o Criticismo*. Trad. Rubens Rodrigues Torres Filho. Em *Os Pensadores*, vol. Schelling. São Paulo: Abril Cultural / Nova Cultural. - *Sistema do Idealismo Transcendental*. Trad. Carlos Morujão. Lisboa: INCM, 2010. - *Investigações Filosóficas sobre a Essência da Liberdade Humana*. Trad. Carlos Morujão. Lisboa: Edições 70, 1993. - *Filosofia da Arte*. Trad. brasileira existente em edição da EDUSP. ### Obras essenciais (originais) - *Ideen zu einer Philosophie der Natur* (1797). [Ed. inglesa: *Ideas for a Philosophy of Nature*, Cambridge UP, 1988.] - *System des transzendentalen Idealismus* (1800). - *Darstellung meines Systems der Philosophie* (1801). - *Philosophische Untersuchungen über das Wesen der menschlichen Freiheit* (1809). - *Die Weltalter* (drei Fassungen, 1811-1815, ed. póstuma 1946). - *Philosophie der Mythologie* / *Philosophie der Offenbarung* (lições berlinenses, 1841-1854, ed. póstuma 1856-1858). ### Estudos de referência - Andrew Bowie, *Schelling and Modern European Philosophy: An Introduction*. London: Routledge, 1993. - Manfred Frank, *Der unendliche Mangel an Sein. Schellings Hegelkritik und die Anfänge der Marxschen Dialektik*. Frankfurt: Suhrkamp, 1975. - Walter Schulz, *Die Vollendung des deutschen Idealismus in der Spätphilosophie Schellings*. Pfullingen: Neske, 1955. - Iain Hamilton Grant, *Philosophies of Nature after Schelling*. London: Continuum, 2006. - Slavoj Žižek, *The Indivisible Remainder: An Essay on Schelling and Related Matters*. London: Verso, 1996. - Markus Gabriel & Slavoj Žižek, *Mythology, Madness and Laughter: Subjectivity in German Idealism*. London: Continuum, 2009. - Markus Gabriel, *Der Mensch im Mythos: Untersuchungen über Ontotheologie, Anthropologie und Selbstbewusstseinsgeschichte in Schellings "Philosophie der Mythologie"*. Berlin / New York: De Gruyter, 2006. - Bruce Matthews, *Schelling's Organic Form of Philosophy: Life as the Schema of Freedom*. Albany: SUNY Press, 2011. --- ## Hiperligações internas neste jardim - [[Markus Gabriel]] - [[Hegel]] - [[Novo Realismo]] - [[Ontologia dos Campos de Sentido]] - [[Realismo Especulativo]] - [[Pluralismo Ontológico]] - [[Idealismo Alemão]] - [[Naturphilosophie]] - [[Romantismo Alemão]] - [[Filosofia Continental]] - [[Kant]] - [[Kierkegaard]] - [[Heidegger]] --- ## Notas finais Há filósofos que envelhecem com as suas épocas; há outros que parecem permanentemente *à espera* da sua. Schelling, durante quase cento e cinquenta anos, foi um filósofo *à espera*: demasiado ousado para o seu tempo, demasiado anti-sistemático para a tradição hegeliana, demasiado exigente para a filosofia analítica do início do século XX, demasiado *especulativo* para o positivismo dominante. A sua hora chegou - paradoxalmente - no século XXI, quando a filosofia, fatigada do construtivismo pós-moderno e do reducionismo cientista, foi à procura de um pensamento capaz de pensar **a natureza como realidade ativa**, **o real como excedendo o conceito**, **a liberdade como fundada num abismo**, e **a filosofia como tarefa que não pode encerrar a totalidade num sistema**. Para todas estas tarefas, Schelling estava à espera. A sua presença no panorama atual é tão viva - através de [Iain Hamilton Grant](https://en.wikipedia.org/wiki/Iain_Hamilton_Grant) no [[Realismo Especulativo]], de [[Markus Gabriel]] no [[Novo Realismo]], de [Slavoj Žižek](https://pt.wikipedia.org/wiki/Slavoj_%C5%BDi%C5%BEek) na renovação do idealismo alemão - que, lendo as suas obras hoje, não se lê um clássico de museu, mas um interlocutor ativo. Foi sob a sua lápide, em Bad Ragaz, que o rei Maximiliano II da Baviera mandou inscrever as palavras: ***Dem ersten Denker Deutschlands*** - *ao primeiro pensador da Alemanha*. A inscrição era, em 1854, contestável. Hoje, à luz do que se passou na filosofia das últimas décadas, talvez não fosse necessário muito mais para aceitar que o velho rei tinha razão. > *Ignorantia non est argumentum.* --- #filosofia #idealismo-alemão