# O transcendentalismo americano #filosofia #transcendentalismo-americano #emerson #thoreau O *transcendentalismo americano* foi um movimento filosófico, literário e religioso desenvolvido na Nova Inglaterra a partir da década de 1830, com epicentro em Concord, Massachusetts. Tem como figuras de proa [Ralph Waldo Emerson](https://plato.stanford.edu/entries/emerson/) (1803-1882) e [Henry David Thoreau](https://plato.stanford.edu/entries/thoreau/) (1817-1862), e influência decisiva sobre poetas (Walt Whitman, Emily Dickinson) e pensadores posteriores. Constitui uma das matrizes filosóficas do pensamento norte-americano e é muitas vezes invocado como influência subterrânea da obra de [[David Foster Wallace]]. ## Núcleo doutrinal O movimento articula-se em torno de algumas teses fundamentais: A confiança numa intuição direta da verdade - a chamada *Reason* (em sentido kantiano e coleridgeano), distinta do *Understanding* discursivo -, que faria do indivíduo bem disposto canal de uma sabedoria espiritual que o transcende. A correspondência entre natureza e mente: a natureza não é mero substrato físico, mas tecido simbólico que o sujeito atento pode ler em chave espiritual. A *self-reliance* (autoconfiança) como virtude cardinal: a recusa do conformismo social em nome da fidelidade à voz interior. A crítica das mediações institucionais (a Igreja, o Estado, o convencionalismo cultural) que se interpõem entre o indivíduo e o seu acesso direto à dimensão espiritual da vida. ## Wallace e o transcendentalismo A leitura transcendentalista da obra de [[David Foster Wallace]] foi proposta, com particular acuidade, por críticos como Adam Kelly e Robert Bolger, que defendem que a [[A Nova Sinceridade|nova sinceridade]] wallaceana representa um regresso a ideais de matriz emersoniana - a confiança na possibilidade de uma comunicação direta, a defesa da atenção concreta como prática espiritual, a recusa do cinismo como horma de relação com o mundo. O discurso [[This Is Water]] (2005) é, deste ponto de vista, especialmente revelador. A insistência na atenção como liberdade, a recusa da *default setting* solipsista, a sugestão de que a vida adulta exige uma disciplina espiritual quotidiana - todos estes elementos têm ressonância clara em ensaios de Emerson como "Self-Reliance" (1841) ou "Experience" (1844), e em Thoreau, particularmente em *Walden* (1854). ## Pontos de tensão A inscrição de Wallace na linhagem transcendentalista não é, contudo, inteiramente pacífica. Wallace é, como demonstra a sua relação com [[Wittgenstein e Wallace|Wittgenstein]], pensador profundamente atento à dimensão linguística e comunitária da subjetividade - dimensão que o transcendentalismo, com a sua confiança no acesso direto à verdade, tende a subestimar. A síntese que a obra wallaceana ensaia entre uma fenomenologia da atenção de matriz transcendentalista e uma compreensão pragmática e wittgensteiniana da linguagem é, neste sentido, conquista filosófica original. ## Ver também - [[David Foster Wallace]] - [[A Nova Sinceridade]] - [[Wittgenstein e Wallace]] - [[This Is Water]] ## Ligações externas - [Verbete sobre Transcendentalismo na Stanford Encyclopedia of Philosophy](https://plato.stanford.edu/entries/transcendentalism/) - [Ralph Waldo Emerson, "Self-Reliance" - texto integral](https://www.gutenberg.org/files/16643/16643-h/16643-h.htm) - [Henry David Thoreau, *Walden* - texto integral](https://www.gutenberg.org/files/205/205-h/205-h.htm)