# A Nova Sinceridade
O projeto literário e filosófico de [[David Foster Wallace]] — a tentativa de escrever ficção que se levasse a sério emocionalmente, depois de décadas em que o [[Pós-Modernismo Literário]] havia tornado a ironia o modo dominante da escrita culta.
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## O Problema que DFW Identificou
No ensaio *[[E Unibus Pluram|E Unibus Pluram: Television and U.S. Fiction]]* (1993), DFW diagnosticou o problema central da ficção americana da sua época: a televisão tinha colonizado a ironia. A ironia — que era originalmente uma arma da vanguarda contra a cultura de massas — tinha sido absorvida pela cultura de massas e usada para vender produtos. A ficção pós-moderna, ao continuar a usar ironia como modo dominante, estava agora a imitar a televisão em vez de resistir-lhe.
O resultado: uma literatura em que nada podia ser dito a sério sem risco de ser visto como kitsch ou ingenuidade. A ironia tornou-se um escudo. Protegia contra a vulnerabilidade, mas ao mesmo tempo tornava impossível a ligação genuína — que requer precisamente essa vulnerabilidade.
> "Irony and cynicism were just what's true, to a whole generation of us who grew up in the seventies... But their irony is the irony of slaves."
## A Proposta
A **Nova Sinceridade** não é a abolição da ironia. É a recusa de a usar como *destino final*. DFW queria escritores que usassem ironia mas que não ficassem nela — que a atravessassem para chegar a algo genuíno do outro lado.
O modelo literário era Dostoevsky: um escritor que não temia parecer sentimental, que punha personagens a dizer coisas verdadeiras diretamente, sem aspas de proteção irónica. DFW escreveu um ensaio fundamental — *Joseph Frank's Dostoevsky* — sobre o que o romance russo do século XIX pode ensinar ao romance americano do século XX.
A proposta concreta: ficção que tente *genuinamente* fazer o leitor sentir-se menos só. Não através de truques formais, mas através da honestidade sobre a dificuldade de estar vivo.
## Ligação à [[A depressão em Wallace|Depressão]]
Há uma ligação direta entre o projeto da Nova Sinceridade e a depressão de DFW. "A Coisa Má" isola precisamente porque não pode ser dita — o deprimido sente-se numa espécie diferente de existência, incomunicável. A literatura como tentativa de comunicar o incomunicável é, neste sentido, uma resposta direta à experiência da depressão.
Paradoxo: DFW teorizou a literatura como cure para o isolamento ao mesmo tempo que vivia um isolamento que a literatura não conseguiu curar.
## Ligações Filosóficas
- **Kierkegaard** — a passagem do estádio *estético* (distância irónica, gozo sem comprometimento) para o estádio *ético* (escolha, responsabilidade, ligação genuína) é a estrutura filosófica subjacente ao projeto de DFW
- **[[Wittgenstein e Wallace|Wittgenstein]]** — os limites da linguagem como problema real, não como pretexto para o silêncio; a tentativa de *dizer* o que resiste ao dizer
- **William James** — o pragmatismo como recusa do cinismo; a "vontade de acreditar" como ato filosófico e moral
## Herdeiros e Contexto
O termo "Nova Sinceridade" tem usos mais amplos na teoria cultural (música, artes visuais, internet), mas na literatura é indissociável de DFW. Escritores frequentemente associados à sua influência: Jonathan Franzen, Dave Eggers, Zadie Smith, George Saunders. O debate sobre se a "nova sinceridade" sobreviveu à cultura dos média sociais — onde a ironia e a sinceridade se tornaram indistinguíveis — continua em aberto.
## Ver Também
- [[David Foster Wallace]]
- [[Pós-Modernismo Literário]]
- [[A depressão em Wallace]]
- [[Infinite Jest]]
- [[The Planet Trillaphon]]