# A adição como metáfora civilizacional em Infinite Jest
#literatura #infinite-jest #adicao #david-foster-wallace
Uma das linhas críticas mais férteis em [[Infinite Jest]] orbita em torno do tema da *adição*. Esta leitura, partilhada por comentadores tão diversos como Marshall Boswell em *Understanding David Foster Wallace* (2003), Stephen J. Burn em *David Foster Wallace's Infinite Jest: A Reader's Guide* (2012) e D. T. Max em *Every Love Story is a Ghost Story* (2012), interpreta o romance como uma vasta meditação sobre as estruturas do desejo na sociedade tardo-capitalista - para além da sua dimensão estritamente farmacológica.
## A arquitetura dual do romance
A composição do romance é ela mesma reveladora desta tese. Os dois núcleos espaciais centrais - a *Enfield Tennis Academy*, onde se forma o ténis prodígio Hal Incandenza, e a *Ennet House Drug and Alcohol Recovery House*, onde se recupera Don Gately - coexistem em proximidade geográfica e em correspondência estrutural. O paralelismo não é fortuito: ambos os espaços documentam, cada um à sua maneira, a economia da compulsão. O atleta de alto rendimento e o toxicodependente partilham, na visão wallaceana, uma mesma estrutura de subjetividade reorganizada em torno de um objeto totalizante.
## Adição em sentido alargado
O alcance da metáfora é amplo. Em *Infinite Jest*, viciam-se substâncias químicas, certamente - mas também o entretenimento (paradigma das adições, encarnado no [[O cartucho fílmico letal|cartucho fílmico letal]], o desempenho desportivo, a beleza física (no caso da personagem Joelle van Dyne), a conjugalidade obsessiva (em Orin Incandenza), a ansiedade gramatical e mesmo a [[A ironia pós-moderna|ironia pós-moderna]] enquanto disposição existencial. Wallace parece sugerir que a adição não é exceção patológica num continuum saudável, mas figura paradigmática do desejo na modernidade tardia.
## A sabedoria dos Alcoólicos Anónimos
Um dos gestos mais notáveis do romance é a apresentação séria, e mesmo reverente, das práticas e linguagem dos [Alcoólicos Anónimos](https://www.alcoholicsanonymous.com/). As secções da Ennet House documentam clichês do programa de doze passos - *One Day at a Time*, *Fake It Till You Make It*, *Hand It Over* - sem o filtro irónico que seria expectável num escritor formado na tradição metaficcional. Don Gately, personagem rude, tatuada, com passado de violência, torna-se, contra todas as expectativas, uma das figuras éticas mais densas da ficção wallaceana - porventura a mais íntegra. Esta dignificação de saberes desprezados pela cultura letrada é coerente com a proposta da [[A Nova Sinceridade|nova sinceridade]] formulada em [[E Unibus Pluram]].
## Adição e anedonia
A leitura desta dimensão cruza-se produtivamente com o conceito de [[A anedonia em Wallace|anedonia]] - incapacidade de sentir prazer - que percorre a obra wallaceana e culmina no romance póstumo [[The Pale King]]. A adição surge, neste enquadramento, não como busca de prazer mas como tentativa desesperada de resgatá-lo num quadro afetivo onde já não está disponível: a substância, o ecrã, o ténis, prometem uma intensidade que a vida quotidiana deixou de oferecer. É também esta a razão pela qual a [[A adição como metáfora civilizacional em Infinite Jest|adição]] e [[A depressão em Wallace|depressão]] se entrelaçam tão intimamente na obra do autor.
## Ver também
- [[Infinite Jest]]
- [[O entretenimento letal]]
- [[A anedonia em Wallace]]
- [[A depressão em Wallace]]
- [[A Nova Sinceridade]]
- [[As linhas críticas da literatura de David Foster Wallace]]