# A depressão em Wallace
#literatura #david-foster-wallace #depressao #biografia
A experiência prolongada de [[David Foster Wallace]] com a depressão clínica constitui um dos aspetos mais delicados - e mais produtivos - da crítica do autor. Diagnosticado pela primeira vez no final da adolescência, Wallace conviveu com a doença durante mais de duas décadas, sendo medicado com fenelzina (Nardil) ao longo da maior parte da vida adulta. A interrupção da medicação em 2007, por reação adversa, conduziu a uma recaída severa que culminou no seu suicídio a 12 de setembro de 2008.
## A doença e a obra
A relação entre a experiência da depressão e a representação literária constitui terreno crítico exigente. Importa, nesta matéria, manter equilíbrio entre dois excessos simétricos: a leitura psicobiográfica, que reduziria a obra a sintoma da patologia; e o purismo formalista, que ignoraria o modo como a experiência da doença informa a estrutura tonal e temática da escrita.
A representação da depressão atravessa praticamente toda a produção wallaceana. Surge logo no conto juvenil "The Planet Trillaphon as It Stands in Relation to the Bad Thing" (1984), em que Wallace cunha a expressão «a coisa má» (*the Bad Thing*) para designar a fenomenologia do estado depressivo. Reaparece, com variações, em diversas passagens de [[Infinite Jest]] - particularmente nos passos sobre Kate Gompert e na descrição da decisão suicida do «professor de língua francesa» -, no conto _The Depressed Person_ (1998), e na figura, póstuma, do «fantasma» que percorre [[The Pale King]].
## A linguagem da depressão
Um dos contributos mais singulares de Wallace é, justamente, a invenção de uma linguagem capaz de representar com rigor estados mentais habitualmente refratários à palavra. A descrição clínica é muitas vezes insuficiente; a evocação metafórica corre o risco de embelezar aquilo que tem de ser representado em toda a sua aspereza. Wallace ensaia uma terceira via, mobilizando recursos formais - a digressão, a [[As notas finais como dispositivo formal em Infinite Jest|nota finalística]], o circuito sintático recorrente - para mimetizar a estrutura da própria experiência depressiva.
> Você é a doença. […] Quando se mata, está apenas a ser ordeiro. Já se matou onde realmente conta há muito tempo (Wallace, "The Planet Trillaphon", 1984, em paráfrase).
## A biografia de D. T. Max
A biografia de D. T. Max, *Every Love Story is a Ghost Story: A Life of David Foster Wallace* (2012), constitui referência incontornável para esta dimensão da obra. Max documenta o internamento no Hospital McLean em 1989 - instituição psiquiátrica afiliada à Harvard Medical School que serviu de cenário a memórias de Robert Lowell, Sylvia Plath, Anne Sexton e Susanna Kaysen - e o longo percurso terapêutico subsequente. A biografia tem suscitado debate: foi acusada por Mary Karr, antiga companheira do escritor, de minimizar episódios de violência atribuíveis a Wallace, debate que complicou a hagiografia que se construíra em torno do autor.
## A controvérsia editorial em *This Is Water*
A frase final do discurso [[This Is Water]] (2005) - referência indireta ao suicídio com arma de fogo - foi parcialmente truncada na edição póstuma do texto em livro, em decisão editorial controversa. A decisão polariza opiniões: para uns, alterar palavras autorais é inaceitável; para outros, como Tom Bissell, o contexto póstumo torna inevitável a ressignificação dramática da passagem.
## Crítica das leituras psicobiográficas
A leitura psicobiográfica deve ser temperada pela consciência das suas armadilhas. Como observam Adam Kelly, Mary K. Holland e Clare Hayes-Brady, reduzir a obra à patologia do autor é gesto crítico empobrecedor que ignora a complexa rede filosófica, ética e formal que estrutura a escrita wallaceana. Por outro lado, recusar liminarmente a relevância biográfica seria igualmente redutor, dada a centralidade da experiência da doença no projeto literário do autor.
## Ver também
- [[David Foster Wallace]]
- [[A anedonia em Wallace]]
- [[This Is Water]]
- [[The Pale King]]
- [[A receção pós-2018]]
- [[As linhas críticas da literatura de David Foster Wallace]]
## Ligações externas
- [D. T. Max, *Every Love Story is a Ghost Story*](https://www.penguinrandomhouse.com/books/308381/every-love-story-is-a-ghost-story-by-d-t-max/)
- [The Lost Years and Last Days of David Foster Wallace, por David Lipsky (*Rolling Stone*)](https://www.rollingstone.com/culture/culture-features/the-lost-years-and-last-days-of-david-foster-wallace-883224/)