# E Unibus Pluram #literatura #ensaio #david-foster-wallace #ironia #televisao *"E Unibus Pluram: Television and U.S. Fiction"* é um ensaio de [[David Foster Wallace]] publicado em 1993 na *Review of Contemporary Fiction* (vol. 13, n.º 2, pp. 151-194) e mais tarde recolhido em *A Supposedly Fun Thing I'll Never Do Again* (1997). É considerado um dos textos mais importantes para a compreensão do programa estético e ético do autor, antecipando, em registo programático, aquilo que o romance [[Infinite Jest]] viria a tentar realizar em registo ficcional. ## Argumento central Wallace desenvolve aqui uma análise crítica do papel da [[A ironia pós-moderna|ironia pós-moderna]] na cultura literária norte-americana do final do século XX. Argumenta que a ironia, originalmente arma subversiva da ficção pós-moderna de John Barth, Donald Barthelme ou Robert Coover, foi progressivamente absorvida pela televisão comercial, perdendo qualquer capacidade crítica e tornando-se, ao invés, instrumento de perpetuação do *status quo* - humor cínico, passivo, autossuficiente, incapaz de propor alternativas àquilo que desconstrói. > A ironia tirânica vê tudo, mas não pode oferecer nada. Para além de exposições, a ironia é particularmente inútil quando se trata de construir alguma coisa que possa substituir as hipocrisias que desmascara (Wallace, "E Unibus Pluram", 1993). O título joga com o lema dos Estados Unidos - *E Pluribus Unum* («de muitos, um») - invertendo-o: «de um, muitos», numa referência ao modo como a televisão produz, a partir de uma única fonte, uma multiplicidade alienada de espectadores. ## Os «anti-rebeldes» A passagem mais citada do ensaio - e fundadora da ideia crítica da [[A Nova Sinceridade|nova sinceridade]] - é a previsão profética do surgimento de uma nova vanguarda literária: > Os próximos verdadeiros «rebeldes» literários neste país poderão emergir como um estranho grupo de «anti-rebeldes», observadores natos que ousam recuar do olhar irónico, com a coragem infantil de subscrever e instanciar valores de sentido único. Que tratam com reverência e convicção as velhas e nada modernas dificuldades e emoções humanas na vida americana. Que evitam a autoconsciência e o cansaço *hip*. Estes anti-rebeldes seriam, claro, ultrapassados antes mesmo de começarem. Demasiado sinceros. Claramente reprimidos. Atrasados, *quaint*, ingénuos, anacrónicos (Wallace, "E Unibus Pluram", 1993). ## Receção crítica O ensaio gerou abundante literatura secundária. Adam Kelly, em _David Foster Wallace and the New Sincerity in American Fiction_ (2010), considera-o documento fundador de uma viragem do paradigma cultural anglófono em direção ao [[O pós-pós-modernismo|pós-pós-modernismo]]. Outros comentadores - como Lee Konstantinou em *Cool Characters: Irony and American Fiction* (2016) - situam o texto num movimento mais vasto de reabilitação da sinceridade como categoria estética. Críticos menos benevolentes, como o autor da peça publicada na *Artforum* em 2008, observaram que o ensaio toma de empréstimo argumentos da polémica anti-televisão *Boxed In*, de Mark Crispin Miller, sem que isso comprometa a sua originalidade. ## Ver também - [[A Nova Sinceridade]] - [[O pós-pós-modernismo]] - [[A ironia pós-moderna]] - [[Infinite Jest]] - [[David Foster Wallace]] ## Ligações externas - [Texto integral em jsomers.net](https://jsomers.net/DFW_TV.pdf) - [Verbete sobre New Sincerity na Wikipédia](https://en.wikipedia.org/wiki/New_sincerity)