# A forma como ética #literatura #david-foster-wallace #forma #etica #leitura Uma das teses mais finas da fortuna crítica de [[David Foster Wallace]] sustenta que a complexidade formal da sua escrita - densa, recursiva, fragmentada por [[As notas finais como dispositivo formal em Infinite Jest|notas finalísticas]] e digressões - não é manifestação de virtuosismo gratuito mas dispositivo eticamente intencionado. Esta linha interpretativa, desenvolvida sobretudo por Marshall Boswell, Stephen J. Burn, Mary K. Holland e Clare Hayes-Brady, propõe ler a forma wallaceana como exigência de uma prática de leitura que corresponda, em ato, ao programa ético que a obra defende em registo discursivo. ## Da ironia à atenção O argumento pode ser sintetizado da seguinte forma: se a obra de Wallace propõe, contra o solipsismo da [[wiki/literatura/DFW/A ironia pós-moderna|ironia pós-moderna]], uma reabilitação da [[A Nova Sinceridade|sinceridade]] e da empatia como práticas constitutivas da vida ética, então a forma do texto deve, ela mesma, exigir do leitor essas mesmas disposições. Ler [[Infinite Jest]] é uma prática difícil: requer paciência, persistência, atenção sustentada, capacidade de relacionar episódios distantes, tolerância à descontinuidade. A leitura é, assim, microexercício das virtudes que o livro defende em registo programático. ## A leitura como contrário do entretenimento Nesta linha, a forma wallaceana opõe-se estruturalmente ao [[O entretenimento letal|entretenimento letal]] que o romance tematiza. O cartucho fílmico letal de [[Infinite Jest]] é a hipérbole de uma forma de prazer absorvente que dispensa qualquer esforço do consumidor. O livro que o tematiza, pelo contrário, exige do leitor um trabalho cognitivo árduo - quase desconfortável. A oposição é deliberada: o romance é, em sentido literal, antídoto formal daquilo que tematiza. ## *This Is Water* e a leitura Esta articulação encontra confirmação no discurso [[This Is Water]] (2005), em que Wallace descreve a verdadeira liberdade como capacidade de escolher aquilo a que se presta atenção. A leitura paciente - particularmente a leitura paciente de uma obra difícil - é, neste enquadramento, exercício de uma liberdade que a vida quotidiana raramente solicita. Há, no projeto wallaceano, uma fé tipicamente moderna na função formativa da literatura: a leitura faz quem lê. ## Críticas à tese A tese da forma como ética não é, contudo, unanimemente aceite. James Wood, no contexto da sua polémica sobre o [[O realismo histérico|realismo histérico]], considera que a complexidade formal da escrita wallaceana sufoca a representação da consciência interior, sendo sintoma de um intelectualismo cerebral que se distancia da experiência humana ordinária. Outros críticos, em registo menos hostil, observam que a equiparação entre dificuldade formal e exigência ética corre o risco de elitismo: faria da obra literária privilégio de leitores com tempo e formação para a perseguir, contra a vocação democrática que o próprio Wallace declarava. ## Ver também - [[Infinite Jest]] - [[As notas finais como dispositivo formal em Infinite Jest]] - [[O romance enciclopédico]] - [[This Is Water]] - [[A Nova Sinceridade]] - [[O realismo histérico]] - [[As linhas críticas da literatura de David Foster Wallace]]