# A ironia pós-moderna #literatura #pos-modernismo #ironia #teoria-literaria A *ironia* - entendida como dispositivo retórico de duplicidade entre dito e querido-dizer - é categoria estruturante da estética pós-moderna anglófona da segunda metade do século XX. A sua centralidade na ficção de John Barth, Donald Barthelme, Robert Coover, Thomas Pynchon, Kurt Vonnegut e William Gaddis fez dela o índice mais visível da viragem metaficcional dos anos 1960 e 1970. É precisamente esta hegemonia que [[David Foster Wallace]] virá a problematizar no ensaio [[E Unibus Pluram]] (1993). ## Função inicial da ironia pós-moderna Na sua formulação inicial - particularmente nos ensaios de John Barth ("The Literature of Exhaustion", 1967, e "The Literature of Replenishment", 1979) - a ironia metaficcional cumpria função emancipatória: tratava-se de denunciar a ingenuidade representacional do realismo oitocentista, expondo as convenções de construção da ficção e devolvendo ao leitor a consciência crítica do dispositivo literário. Esta operação articulava-se, num plano mais vasto, com a desconstrução teórica das estruturas binárias da metafísica ocidental por Jacques Derrida, com a problematização foucaultiana das relações entre poder e saber, e com a teoria literária pós-estruturalista de Roland Barthes (a célebre «morte do autor»). A ironia era, neste enquadramento, gesto crítico de denúncia das hipocrisias culturais. ## A captura cultural A tese central de Wallace em [[E Unibus Pluram]] é a de que a ironia perdeu, no decurso dos anos 1980 e 1990, a sua capacidade subversiva. Absorvida pela televisão comercial e pela publicidade - domínios que dela se apropriaram como recurso de venda -, a ironia tornou-se ela mesma forma cultural dominante, indistinguível dos mecanismos de produção de consentimento que pretendia denunciar. > A ironia tirânica vê tudo, mas não pode oferecer nada. Para além de exposições, a ironia é particularmente inútil quando se trata de construir alguma coisa que possa substituir as hipocrisias que desmascara (Wallace, "E Unibus Pluram", 1993). A consequência cultural - argumenta Wallace - é o cinismo generalizado: uma disposição existencial que, sabendo já tudo o que há a saber sobre as patologias do mundo, abdica de qualquer projeto positivo, recolhendo-se na superioridade distanciada do espectador irónico. ## A proposta wallaceana A resposta de Wallace, formulada no mesmo ensaio, é a profecia de uma nova vanguarda de «anti-rebeldes» dispostos a correr o risco da exposição sentimental sem renunciar à sofisticação formal herdada da metaficção. Esta proposta inscreve-se numa linhagem de tentativas - também presentes em Jonathan Franzen, Dave Eggers e George Saunders - de elaborar formas literárias [[O pós-pós-modernismo|pós-pós-modernas]] capazes de ultrapassar o impasse cultural diagnosticado. ## Críticas à narrativa de superação A narrativa segundo a qual a obra de Wallace «supera» a ironia pós-moderna deve ser temperada por algumas reservas. Como observa Marshall Boswell em *Understanding David Foster Wallace*, a ficção wallaceana não abandona a ironia: pelo contrário, mobiliza-a com inusitada complexidade. O que muda é a *função* da ironia - que deixa de ser disposição existencial autosuficiente para se tornar momento dialético no interior de uma proposta ética mais vasta. Por outro lado, leituras teleológicas que apresentam Wallace como «superação» dos seus predecessores tendem a reduzir a complexidade tanto da metaficção pós-moderna - em que autores como Pynchon ou Gaddis cultivaram preocupações éticas explícitas - quanto da própria obra wallaceana, em que a ironia conserva papel constitutivo. ## Ver também - [[E Unibus Pluram]] - [[A Nova Sinceridade]] - [[O pós-pós-modernismo]] - [[David Foster Wallace]] ## Ligações externas - [Verbete sobre Postmodern literature na Wikipédia](https://en.wikipedia.org/wiki/Postmodern_literature) - [John Barth, "The Literature of Exhaustion" - *The Atlantic*](https://www.theatlantic.com/past/docs/issues/95sep/barth.htm)