# As notas finais como dispositivo formal em Infinite Jest #literatura #infinite-jest #david-foster-wallace [[Infinite Jest]] inclui 388 notas finais (*endnotes*), algumas com várias páginas, outras com as suas próprias subnotas. Ocupam, na edição original, cerca de cem páginas e exigem do leitor uma navegação contínua entre o corpo do texto e o aparato paratextual - aquilo a que Wallace, em entrevista a Charlie Rose em 1997, chamou um «workout cardiovascular para o leitor». ## Função formal e cognitiva A função das notas não é meramente erudita ou ornamental. Wallace ofereceu, em diferentes momentos, justificações distintas para a sua opção. Em conversa com [[A entrevista a Larry McCaffery|Larry McCaffery]] (1993), associou-as à fragmentação da consciência contemporânea, à coexistência simultânea de múltiplos planos de atenção. Noutro lugar, sugeriu que constituíam um modo de quebrar a ilusão de continuidade narrativa sem renunciar à informação que essa continuidade exigia. A consequência mais radical é a transformação da experiência de leitura numa prática descontínua, que torna o leitor agente ativo da construção da história. Não há ordem de leitura óbvia: cada nota interrompe o fluxo, e o regresso ao texto principal nem sempre é imediato. Esta descontinuidade obrigada produz um efeito de atenção que, segundo críticos como Stephen Burn ou Mary K. Holland, constitui a estratégia ética central do livro. ## Genealogia literária O recurso à nota finalística como dispositivo ficcional tem ascendência clara em Vladimir Nabokov - particularmente em *Pale Fire* (1962), romance constituído inteiramente por um poema e o seu comentário em notas - e, antes dele, em Jorge Luis Borges, cujos contos das *Ficciones* multiplicam aparatos eruditos fictícios. Wallace conhecia bem ambas as tradições e citou-as expressamente como precedentes. Outros autores próximos da sua sensibilidade, como Nicholson Baker (*The Mezzanine*, 1988), também tinham explorado o potencial narrativo da nota. ## Paratexto e dispersão As notas de [[Infinite Jest]] são heterogéneas: algumas são meramente referenciais (filmografias completas de James Incandenza, glossários farmacêuticos), outras desenvolvem episódios narrativos autónomos, outras ainda são piadas eruditas ou comentários autorreflexivos. Esta heterogeneidade contribui para o efeito de maximalismo que Ercolino identifica como característica do género: o paratexto excede a economia da narrativa principal, propondo-se ele mesmo como objeto de leitura. ## Receção crítica A crítica dividiu-se quanto ao dispositivo. James Wood, no contexto da sua polémica sobre o realismo histérico, considerou-o sintoma de um virtuosismo que sufoca a representação da consciência. Marshall Boswell, em *Understanding David Foster Wallace*, defende-o como dispositivo essencialmente ético, que recusa a simulação de uma totalidade narrativa já não disponível na experiência contemporânea. Stephen Burn, na sua *Reader's Guide*, propõe lê-lo como exigência de uma «estética em camadas» que recusa as leituras redutoras. ## Ver também - [[Infinite Jest]] - [[O romance enciclopédico]] - [[A forma como ética]] - [[As linhas críticas da literatura de David Foster Wallace]]