# O pós-pós-modernismo
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O *pós-pós-modernismo* (*post-postmodernism*) é a designação utilizada por parte da crítica literária e cultural anglófona para nomear o período e a sensibilidade estética que sucederam à hegemonia do [[pós-modernismo]] a partir, sobretudo, do final do século XX. A categoria é instável, contestada, e tem rivais - *metamodernismo*, *altermodernismo*, *digimodernismo*, *cosmodernismo* - sem que nenhum termo se tenha imposto como consensual.
## Periodização
Não há acordo sobre a data exata da viragem. Várias propostas têm sido formuladas:
A queda do Muro de Berlim (1989) e o fim da Guerra Fria como pano de fundo geopolítico que destitui as oposições estruturantes do pós-modernismo.
A publicação do ensaio [[E Unibus Pluram]] (1993) de [[David Foster Wallace]], que diagnostica e prescreve uma viragem cultural.
A publicação de [[Infinite Jest]] (1996) como performance ficcional desta viragem.
Os atentados de 11 de setembro de 2001 e a sua mobilização simbólica como ponto de inflexão histórica.
A emergência das redes sociais (a partir de 2004-2006) e a transformação digital da esfera pública.
## Características
Os críticos identificam, com graus variáveis de consenso, algumas características recorrentes da sensibilidade pós-pós-moderna:
A recuperação da [[A Nova Sinceridade|sinceridade]] e do compromisso ético, em substituição da ironia distanciada do pós-modernismo.
A reabilitação do autor como sujeito presente no texto (por oposição à «morte do autor» barthesiana), embora num registo amiúde autoirónico ou autoreflexivo.
O regresso de preocupações com a experiência fenomenológica concreta - atenção, empatia, presença - em contraponto ao desconstrucionismo textualista.
A hibridez de registos: pós-pós-modernismo não nega o pós-modernismo, antes o integra criticamente, conservando-lhe os recursos formais (autoreflexividade, pastiche, fragmentação) e abandonando-lhe (ou problematizando-lhe) a disposição cínica.
A valorização da forma narrativa convencional, sem que isso implique regresso a um realismo ingénuo.
## Wallace como figura paradigmática
[[David Foster Wallace]] é amiúde apresentado como figura paradigmática desta viragem. Adam Kelly, em "David Foster Wallace and the New Sincerity in American Fiction" (2010), e Robert L. McLaughlin, em "Post-Postmodern Discontent: Contemporary Fiction and the Social World" (2004), defendem que a obra do autor performa exemplarmente a transição: integra recursos formais herdados da metaficção pós-moderna - [[As notas finais como dispositivo formal em Infinite Jest|notas finalísticas]], digressão recursiva, autoirónica - e mobiliza-os ao serviço de uma proposta ética antitética àquela que a tradição metaficcional havia sustentado.
## Outros autores associados
A categoria tem sido aplicada, com graus variáveis de aceitação por parte dos próprios autores, a Jonathan Franzen, Dave Eggers, George Saunders, Zadie Smith, Jennifer Egan, Junot Díaz, Karl Ove Knausgård, Roberto Bolaño, Rachel Cusk, Sally Rooney, entre outros. Em estudos académicos, é frequentemente articulada com fenómenos extraliterários: a estética cinematográfica de Wes Anderson, Spike Jonze ou Sofia Coppola; os movimentos artísticos da chamada *relational aesthetics* teorizada por Nicolas Bourriaud; e mesmo certos fenómenos televisivos do início do século XXI.
## Críticas à categoria
Nem toda a crítica aceita a categoria. Vários comentadores objetam que ela funciona, de facto, mais como dispositivo retórico de marketing literário do que como categoria analítica robusta. Outros sublinham a sua dependência excessiva de uma narrativa de progresso (a sinceridade como «superação» da ironia) que reproduz, ironicamente, esquemas modernistas de ultrapassagem que o próprio pós-modernismo havia desconstruído.
## Ver também
- [[A Nova Sinceridade]]
- [[E Unibus Pluram]]
- [[A ironia pós-moderna]]
- [[David Foster Wallace]]
## Ligações externas
- [Robert L. McLaughlin, "Post-Postmodern Discontent"](https://www.tandfonline.com/doi/abs/10.1080/13688790320000174977)
- [Verbete sobre Metamodernism na Wikipédia](https://en.wikipedia.org/wiki/Metamodernism)