# O realismo histérico
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O *realismo histérico* (em inglês, *hysterical realism*) é uma categoria crítica cunhada pelo crítico literário britânico [James Wood](https://en.wikipedia.org/wiki/James_Wood_(critic)) num ensaio publicado a 24 de julho de 2000 na revista *The New Republic*, sob o título "Human, All Too Inhuman". O texto surge como recensão do romance *White Teeth* de Zadie Smith, mas estende-se a uma reflexão mais ampla sobre uma tendência da ficção anglófona contemporânea que Wood considera problemática.
## Caracterização
Wood designa por realismo histérico um modo ficcional caracterizado pela proliferação descontrolada de enredos, personagens e digressões enciclopédicas, em que a abundância narrativa se torna fim em si mesmo, em prejuízo da representação adensada da consciência interior. Os romances enquadráveis nesta categoria seriam, segundo o crítico, virtuosísticos no manejo de saberes - geográficos, científicos, históricos, técnicos - mas estranhamente vazios na construção de subjetividades dotadas de espessura psicológica. A energia do texto seria centrífuga: dispersa-se por digressões, listas, paralelismos, em vez de se adensar nos núcleos psicológicos das personagens.
## Os autores visados
A categoria é mobilizada por Wood para criticar um conjunto heterogéneo de autores anglófonos: Thomas Pynchon, Don DeLillo, Salman Rushdie, Zadie Smith, [[David Foster Wallace]] - particularmente em [[Infinite Jest]] - e, mais tarde, Jonathan Safran Foer. A acusação implícita é a de que estes autores preferem a brilhantina do efeito acumulativo à difícil arte da representação interior, herdada da tradição romanesca que Wood mais admira (Henry James, George Eliot, Saul Bellow).
## A polémica com Zadie Smith
A própria Zadie Smith respondeu publicamente à crítica num ensaio publicado no *The Guardian* em outubro de 2001, reconhecendo parcialmente a procedência do diagnóstico mas rejeitando o seu efeito normativo. Smith argumentou que o realismo psicológico de matriz oitocentista não é o único modo legítimo de representação literária, e que a abundância criticada por Wood pode constitutir resposta estética justificada à complexidade do mundo contemporâneo.
## Implicações para a leitura de Wallace
A categoria do realismo histérico tem sido amplamente discutida pela crítica wallaceana. Defensores do escritor - como Marshall Boswell ou Stephen J. Burn - argumentam que a leitura de Wood é redutora, na medida em que ignora a [[A forma como ética|dimensão eticamente intencionada]] da forma wallaceana. Para estes autores, a abundância de [[As notas finais como dispositivo formal em Infinite Jest|notas finais]] e digressões em [[Infinite Jest]] não é exibição virtuosística mas dispositivo formal ao serviço de um projeto literário que envolve precisamente uma proposta sobre a forma de habitar o mundo contemporâneo - proposta que requer, formalmente, aquela mesma abundância que Wood considera sintomática.
Em contrapartida, há quem considere que a crítica de Wood, mesmo quando se discorda dela, identifica problemas reais da escrita wallaceana: a dificuldade de manter a coesão psicológica das personagens ao longo das 1079 páginas; a tendência para a digressão ensaística em prejuízo da linha narrativa; a sobrecarga informativa que pode obscurecer a economia afetiva do romance.
## Ver também
- [[Infinite Jest]]
- [[O romance enciclopédico]]
- [[A forma como ética]]
- [[As notas finais como dispositivo formal em Infinite Jest]]
- [[As linhas críticas da literatura de David Foster Wallace]]
## Ligações externas
- [James Wood, "Human, All Too Inhuman" - *The New Republic*](https://newrepublic.com/article/61361/human-all-too-inhuman)
- [Zadie Smith, "This is how it feels to me" - *The Guardian*](https://www.theguardian.com/books/2001/oct/13/fiction.afghanistan)