# A receção pós-2018 #literatura #david-foster-wallace #rececao #critica A receção crítica de [[David Foster Wallace]] sofreu, a partir de 2018, uma inflexão significativa, na sequência de revelações públicas relativas a episódios de comportamento abusivo do escritor para com a poeta Mary Karr, com quem manteve relação no início dos anos 1990. As declarações de Karr - em parte já documentadas, embora minimizadas, na biografia *Every Love Story is a Ghost Story* (2012), de D. T. Max - vieram complicar a imagem de figura ética e espiritualmente sensível que se construíra em torno do autor, particularmente entre leitores devotos do discurso [[This Is Water]] e do projeto da [[A Nova Sinceridade|Nova Sinceridade]]. ## As declarações de Mary Karr A 6 de maio de 2018, na sequência do movimento #MeToo, Mary Karr publicou na rede social Twitter uma série de mensagens em que afirmou que a biografia de Max apenas dera conta de «cerca de 2%» daquilo que efetivamente acontecera entre ela e Wallace. Karr alegou ter sido vítima de comportamentos que incluíram o lançamento de uma mesa de café, a tentativa de a empurrar de um carro em movimento, ataques verbais reiterados e episódios de perseguição. As declarações foram amplamente noticiadas e desencadearam debate público sobre a relação entre obra e biografia. ## O debate crítico A reação crítica dividiu-se. Para alguns comentadores, as revelações exigem uma releitura crítica das representações da masculinidade na obra wallaceana - particularmente das figuras dos «hideous men» da coletânea de contos *Brief Interviews with Hideous Men* (1999), que ganharam, à luz da biografia, uma dimensão potencialmente autoincriminadora. Para outros, a separação entre vida e obra deve manter-se: o valor estético e filosófico da literatura wallaceana não fica anulado pelas falhas éticas do autor, embora exija uma leitura mais cautelosa das suas declarações programáticas sobre a empatia e a sinceridade. ## A questão da hagiografia Um dos pontos mais sensíveis do debate prende-se com a *cultura* que se desenvolveu em torno de Wallace. A apropriação do discurso [[This Is Water]] como peça quase devocional, divulgada em vídeos virais, citada em redes sociais e impressa em produtos de consumo, contribuíra para uma hagiografia que as revelações de 2018 vieram problematizar. Jia Tolentino, em ensaio publicado em *The New Yorker* em maio de 2018, chamou a atenção para o paradoxo: a obra que mais explicitamente defendia a empatia produzira, em redor do seu autor, uma cultura de identificação que dificultava a discussão honesta dos seus aspetos mais problemáticos. ## Implicações para a fortuna crítica A receção pós-2018 não se traduziu num colapso do interesse académico pela obra. Pelo contrário, abriu novas linhas de investigação: estudos sobre representação da masculinidade, sobre violência simbólica, sobre as relações entre projeto ético declarado e prática biográfica documentada. A *International David Foster Wallace Society*, fundada em 2017, integrou estas problemáticas no debate académico, evitando tanto a hagiografia quanto o cancelamento sumário. A leitura crítica contemporânea da obra de Wallace exige, neste sentido, uma sofisticação adicional: não trata o autor como mártir ético da literatura contemporânea, nem o desclassifica liminarmente em função das suas falhas pessoais. Procura, antes, uma leitura tensa que reconheça simultaneamente a importância da sua contribuição estética e filosófica e os limites - biográficos, éticos, históricos - daquilo que a sua obra propõe. ## Ver também - [[David Foster Wallace]] - [[A depressão em Wallace]] - [[This Is Water]] - [[A Nova Sinceridade]] - [[As linhas críticas da literatura de David Foster Wallace]] ## Ligações externas - [Jia Tolentino, "The Personal-Essay Boom Is Over" e textos relacionados - *The New Yorker*](https://www.newyorker.com/contributors/jia-tolentino) - [Movimento #MeToo - verbete na Wikipédia](https://en.wikipedia.org/wiki/Me_Too_movement)