# O romance enciclopédico
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A categoria de *romance enciclopédico* (em inglês, *encyclopedic novel*) foi formalizada por Edward Mendelson num par de ensaios fundadores publicados em 1976 - "Encyclopedic Narrative: From Dante to Pynchon", em *MLN*, e "Gravity's Encyclopedia", em *Mindful Pleasures: Essays on Thomas Pynchon*. Designa um tipo particular de obra de ficção, geralmente extensa, que aspira a totalizar simbolicamente a cultura de uma época ou de uma nação, integrando saberes heterogéneos - históricos, científicos, técnicos, populares - numa arquitetura narrativa de complexidade não trivial.
## Caracterização
Mendelson identifica algumas características recorrentes: a extensão considerável; a presença de múltiplos registos linguísticos e técnicos; a tematização de uma totalidade cultural ou nacional; a auto-reflexividade narrativa; a hibridez genérica; e o recurso a dispositivos paratextuais (notas, glossários, mapas) que excedem a economia da narrativa principal.
O cânone proposto inclui obras como a *Divina Comédia* de Dante, o *Don Quixote* de Cervantes, o *Fausto* de Goethe, *Moby-Dick* de Melville, o *Ulysses* de Joyce e *Gravity's Rainbow* de Pynchon. Estudos posteriores estenderam a categoria a obras como *2666* de Roberto Bolaño, *Underworld* de Don DeLillo ou [[Infinite Jest]] de [[David Foster Wallace]].
## A reformulação por Stefano Ercolino
Em *The Maximalist Novel: From Thomas Pynchon's Gravity's Rainbow to Roberto Bolaño's 2666* (2014), o crítico italiano Stefano Ercolino propõe a designação alternativa de *romance maximalista* (*maximalist novel*), enumerando dez características recorrentes: extensão, modo enciclopédico, coralidade dissonante, energia diegética, completude, paratexto, intersemiocidade, ético-comprometimento, complexidade narrativa híbrida e realismo paranóico. *Infinite Jest* é, juntamente com obras de Pynchon, DeLillo, Foster Wallace e Bolaño, uma das instâncias paradigmáticas desta categoria.
## O maximalismo wallaceano
A inscrição de [[Infinite Jest]] nesta tradição não é meramente formal. As 1079 páginas do romance, as suas 388 [[As notas finais como dispositivo formal em Infinite Jest|notas finais]], a sua mobilização de saberes técnicos sobre o ténis, sobre a química farmacêutica, sobre a teoria fílmica, sobre a recuperação de toxicodependências e sobre a geopolítica imaginária de [[onan-organizacao|O.N.A.N.]] cumprem, como propõe Ercolino, uma função propriamente totalizante: aspiram a uma representação enciclopédica da cultura norte-americana das últimas décadas do século XX. Wallace partilha, neste sentido, com Pynchon e DeLillo - autores cuja influência reconhecia sem reservas - uma ambição estética que excede largamente a economia romanesca tradicional.
## Enciclopedismo e ética da leitura
A relação entre forma enciclopédica e ética é objeto de debate crítico. Para Burn, Boswell e Hayes-Brady, o maximalismo wallaceano não é gesto de virtuosismo gratuito mas exigência de uma leitura como prática ética: a complexidade do texto convocaria do leitor uma disposição de paciência, atenção e cuidado análoga àquela que o discurso [[This Is Water]] viria a propor como horizonte da vida adulta.
## Ver também
- [[Infinite Jest]]
- [[As notas finais como dispositivo formal em Infinite Jest]]
- [[A forma como ética]]
- [[As linhas críticas da literatura de David Foster Wallace]]
## Ligações externas
- [Edward Mendelson, "Encyclopedic Narrative" - *MLN*](https://www.jstor.org/stable/2907112)
- [Stefano Ercolino, *The Maximalist Novel*](https://www.bloomsbury.com/us/maximalist-novel-9781623561789/)