# Wittgenstein e Wallace #filosofia #david-foster-wallace #wittgenstein #linguagem A relação entre [[David Foster Wallace]] e o pensamento de Ludwig Wittgenstein (1889-1951) é uma das mais densas - e mais discutidas - articulações filosóficas da obra do romancista. Wallace tomou contacto com Wittgenstein durante a sua formação em Amherst College, onde se licenciou em filosofia com especialização em lógica e matemática, e a sua dissertação universitária - publicada postumamente como *Fate, Time, and Language: An Essay on Free Will* (2010) - é já testemunho de uma sofisticação filosófica fora do comum. ## Os dois Wittgensteins A receção wallaceana de Wittgenstein não é uniforme. Distingue-se, com clareza, entre o Wittgenstein do *Tractatus Logico-Philosophicus* (1921) e o das *Investigações Filosóficas* (1953) - distinção, aliás, que estrutura a própria autocrítica filosófica de Wittgenstein. O primeiro romance wallaceano, *The Broom of the System* (1987), é uma sátira filosófica sobre o pensamento *tractatiano*: as suas personagens vivem aprisionadas numa conceção representacional da linguagem que não lhes permite o contacto com a realidade. O segundo romance, [[Infinite Jest]], move-se já num horizonte muito mais marcado pela conceção pragmática e comunitária da linguagem própria das *Investigações*. ## A linguagem como prática comunitária Aquilo que mais marca a apropriação wallaceana de Wittgenstein é o conceito de *jogo de linguagem* (*Sprachspiel*) e a tese conexa de que não há linguagens privadas. Para o Wittgenstein das *Investigações*, a linguagem é prática enraizada em formas de vida comunitárias: o significado não está numa correspondência abstrata entre signo e referente mas no uso público das palavras. Esta tese, transposta para a dimensão ética, sugere que a subjetividade humana é constitutivamente intersubjetiva: somos pelos outros e com os outros, e qualquer projeto de autoconstituição puramente solipsista está, à partida, condenado. É esta tese que Adam Kelly identifica como núcleo filosófico da [[A Nova Sinceridade|nova sinceridade]] wallaceana. O programa estético delineado em [[E Unibus Pluram]] (1993) e dramatizado em [[Infinite Jest]] (1996) é a tradução literária desta tese filosófica: contra o solipsismo da [[A ironia pós-moderna|ironia pós-moderna]] - em que o sujeito se autoprotege pela distância irónica perante toda a expressão sentimental - Wallace propõe uma reabilitação da sinceridade como prática inscrita em formas de vida partilhadas, vulnerável precisamente porque comunitária. ## A entrevista a McCaffery Em [[A entrevista a Larry McCaffery|entrevista a Larry McCaffery]] (1993), Wallace declara explicitamente o débito wittgensteiniano: > *The Broom of the System*, no fundo, era a história de uma série de pessoas presas dentro do *Tractatus*. *Infinite Jest* é mais um livro sobre as *Investigações* (Wallace, 1993, em paráfrase). A declaração é programática. Wallace formula, deste modo, a viragem do seu próprio pensamento ficcional segundo a periodização da própria obra de Wittgenstein. ## Outras genealogias filosóficas A leitura wittgensteiniana de Wallace deve articular-se com outras filiações reconhecidas: o transcendentalismo americano (em particular Emerson e Thoreau), o pragmatismo (William James, Charles Sanders Peirce), o existencialismo cristão (Søren Kierkegaard) e a fenomenologia da atenção que se torna central no discurso [[This Is Water]] (2005). O volume *Gesturing Toward Reality: David Foster Wallace and Philosophy* (2014), organizado por Robert K. Bolger e Scott Korb, constitui referência incontornável para esta dimensão da obra. ## Ver também - [[David Foster Wallace]] - [[A Nova Sinceridade]] - [[O transcendentalismo americano]] - [[A entrevista a Larry McCaffery]] - [[This Is Water]] ## Ligações externas - [Verbete sobre Wittgenstein na Stanford Encyclopedia of Philosophy](https://plato.stanford.edu/entries/wittgenstein/) - [Robert K. Bolger & Scott Korb, *Gesturing Toward Reality*](https://www.bloomsbury.com/us/gesturing-toward-reality-9781441161888/)